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Nesta entrevista, realizada no dia 08 de maio de 2008, Mário Albanese conta um pouco de como a música sempre esteve presente na sua vida. Músico e advogado de profissão, Mário se destacou nas diversas áreas em que atuou e se orgulha de ser um dos criadores do Jequibau, um ritmo 5/4 autêntico e tipicamente brasileiro. Durante seu depoimento, Mário relembra diversos momentos de sua juventude no colégio Dante Alighieri, como quando conheceu Jânio Quadros, o professor de Geografia. Na faculdade de Direito da USP, do Largo de São Francisco relembra também seus felizes anos no Show Arcadas e na Caravana Artística.
P/1 – Senhor Mário nós vamos começar o depoimento perguntando seu nome completo, o local e a data de seu nascimento?
R – Eu nasci em São Paulo no Paraíso, quer dizer no Paraíso bairro, né? Aos 31 de outubro de 1931.
P/1 – E seu nome completo?
R – Mário Albanese, seria Mário Petrillo Albanese, mas eu uso Mário Albanese.
P/1 – E, por favor, diga o nome do seu pai e da sua mãe?
R – Meu pai é Biaggio Albanese e minha mãe é Clara Petrillo Albanese.
P/1 – E senhor Mário conta pra gente um pouco a origem da família do senhor, primeiro do seu pai e depois da sua mãe?
R – Isso é interessante porque o meu avô por parte de mãe, ele veio pra São Paulo na mesma época que o maestro Farelli, ele veio pra lecionar música em São Paulo e ele já vinha com 50 anos mais ou menos a idade dele e no navio ele conheceu a minha avó. Eles acabaram se casando, ela era viúva tinha um filho, o Luciano de nove anos e que era um músico excepcional, sabe desses músicos que já nascem pronto? Quer dizer que a descendência musical por parte de mãe foi absolutamente incisiva e genética, a música que eu tenho em mim é resultado disso. Ele constituiu uma família com ela tiveram cinco filhos, Clara a minha mãe, depois veio meu tio Armando e depois a tia Yolanda, tio Paulo e tia Elisa, cinco filhos isso por parte de mãe. Por parte de pai, meu avô eu não conheci, eu conheci só a avó Maria Albanese, mas agora você vai me pegar, porque eu não sei a origem certa deles. Eu consegui chegar a isso porque tive que pesquisar realmente, mas dele o que eu tenho a dizer é que era um homem que tinha ouvido absoluto, gostava extremamente de música, era alfaiate, mas sabe... Alfaiate do tipo de hoje que a gente diria um sujeito voltado pra moda muito avançado, não é porque era meu pai, mas realmente era um artista dentro da profissão dele. Ele adorava música, conhecia música profundamente, era craque do Teatro Municipal de tanto que gostava. Enfim a minha origem foi toda nesse ambiente, ambiente de música porque a minha mãe ficou viúva, não perdão ela ficou órfã de pai e mãe muito cedo e ela acabou herdando a classe de alunos do meu avô e com apenas 14 pra 15 anos, ela conseguiu... Trabalhando com música conseguiu educar os irmãos menores formando-os, enfim dando todo respaldo com música, coisa muito difícil. E foi um exemplo de vida, ela lecionou até o fim da vida dela com 70 anos, meu pai morreu moço, morreu com 59 e minha mãe morreu com 70 e poucos. Então o que eu tenho a dizer é que eu sou fruto de um lar feliz, porque eles nunca se separaram se davam muitíssimo bem e eu tenho uma irmã só que é a Suzi também formada em música é professora e que mais eu posso dizer pra vocês?
P/1 – Deixa só eu perguntar uma coisa anterior, eles... Tanto a família do seu pai quanto a da sua mãe vieram da Itália?
R – Da Itália.
P/1 – E o senhor sabe a origem lá na Itália? Por que eles vieram pro Brasil?
R – O meu avô por parte de mãe está claro, ele veio pra lecionar aqui música, né? E por parte do meu pai eu nunca perguntei por que vieram, mas certamente vieram atraídos pelo que o Brasil representava. Eu creio que tenha sido por isso, né? Meu pai acabou nem se naturalizando, ele era italiano de nascimento, embora tenha vindo pra cá com dois anos. Então ele achava um absurdo que não o reconhecessem como brasileiro, hoje a gente poderia dizer: “você teria que se naturalizar” ninguém impediu, mas ele acabou morrendo italiano mesmo, ele praticamente não voltou mais pra Itália, viveu o tempo todo aqui, né? A pergunta qual foi?
P/1 – Que região que eles são?
R – Ele era de Potência, era uma região vizinha da Calábria da baixa Itália e por parte de minha mãe também era baixa Itália, Cecília.
P/1 – Então eles vieram... E o senhor sabe como eles se conheceram? Os seus pais?
R – Os meus pais... Agora você me pegou também, sabe que filho não pergunta isso, né? Mas eu sei que eles ficaram... A família do meu pai, eles eram próximos ali, deviam morar próximos um do outro e a minha mãe era muito valorosa, bonita e cuidando de irmãos menores certamente deve ter despertado uma tremenda atenção por parte da família Albanese. E foi assim que meu pai a conheceu respaldado pelo carinho da família dele pra com a minha irmã, a minha mãe que com 15 anos estava tutelando uma família e casaram-se e desse casamento viemos eu e minha irmã e viveram felizes enquanto tiveram vida, né?
P/1 – O senhor falou que nasceu no Paraíso, né? As famílias tanto a do seu pai quanto a da sua mãe vieram pra essa região do Paraíso? Conta pra gente?
R – Que eu me lembre era na cidade numa rua ali perto da Sete de Abril, a rua que eu falei, quando nós estávamos lá fora eu acabei falando o nome da rua e agora não me ocorreu mais. Mas enfim era na cidade, certamente se você colocar isso na época em que eles viviam, a cidade pra nós hoje a cidade não era bem centro, mas se conheceram ali.
P/1 – Então eles moravam todas naquela região?
R – Na Sete de Abril tem outro nome a rua é uma rua ali próxima a Sete de Abril, eu já vou dizer tão logo ela pinte na cabeça eu falo.
P/1 – Então seus pais se conhecem, casam e você sabe onde eles se casaram? Se eles casaram em alguma igreja?
R – Eu não saberia te dizer meu anjo.
P/1 – E eles vão morar no Paraíso? Ou moraram em outro lugar primeiro?
R – Foram morar no Paraíso onde viveram sempre, na Rua Tupinambás que hoje tem outro nome no nº 164 foi onde eu nasci, naquele tempo a gente nascia em casa.
P/1 – Essa casa ainda existe?
R – Essa casa na época da guerra... Eles compraram, mas na época da guerra, meu pai era italiano, era um absurdo isso, né? Mas houve uma perseguição aos italianos, perseguição entre aspas, né? Mas o fato é que a colônia italiana sofreu certa pressão e muita gente quis tirar proveito dessa pressão e ia avançando nos bens das famílias como foi o caso do Palmeiras, por exemplo, o Palmeiras Clube hoje era Palestra Itália e teve que mudar de nome assim de um momento para outro. Foi o caso de Pinheiros que era Germânia e se tornou Pinheiros pra não perder todo domínio que eles tinham, toda propriedade que lhes diziam respeito, né? E meu pai então passou... Não tinha lá muita propriedade, mas as propriedades que tinha passaram para o nome dos filhos e no caso ficou tudo em nome da minha irmã, porque nós temos uma diferença de cinco anos e eu devia ser pequeno e eles passaram pro nome dela. Essa casa foi depois vendida para o Hospital Santa Joana que nós vimos nascer, você conhece hoje é uma maternidade bem conceituada aqui em são Paulo e o Hospital Santa Joana era bem em frente a minha casa. Era muito gozado, porque era um palacete e moravam poucas pessoas, três pessoas moravam naquele palacete, esse palacete foi vendido pro hospital e a minha casa era bem em frente também, era um sobrado e eu tocava piano e as enfermeiras ficavam lá no sótão e elas pegavam o telefone e falavam: “puxa toca de novo essa, eu gostei muito dessa, gostei daquilo...” Foi muito gozado. E depois quando houve a venda dessa casa, ninguém queria... Eu não queria vender, minha irmã não queria vender, porque foi ali que nós nascemos, né? E no fim eu fui convencido pelo Doutor Amaro, hoje a rua chama-se Doutor Amaro, conversamos, lembramos coisas, porque eu vi tudo acontecendo ali, eu acompanhei tudo aquilo, né? E acabamos vendendo o hospital pra ele e não discutimos preço e nem nada, ele pagou o que a gente achou que merecia e foi uma coisa muito bacana, viu? São coisas que a gente fala... Sabe quando não há negócio, quando tem aquela coisa “não, então é isso” “eu acho assim, assim” “então ta bem, então vamos fazer desse jeito” e assim foi. Então a casa hoje, eu não passo lá, porque eu tenho imensa saudade, sabe? Toda a minha juventude eu passei ali, então às vezes eu evito passar pra não relembrar tudo, mas se vocês forem é uma pirambeira a Rua Tupinambás, hoje Doutro Amaro é o nome do dono do hospital já falecido. Ele comprou todas aquelas casas, o hospital foi se expandindo, se expandindo, ele foi pra Rua do Paraíso, eu não sei se vocês conhecem uma rua também que tem e o hospital sai por aqui e sai por lá, ou entra por aqui, ou entra por lá. Enfim ele ocupou todo aquele quarteirão é uma beleza.
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