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Elmo da Silva Amador

Nascimento: 22/08/1943,
Itajaí-SC
Profissão: Professor Universitário
Projeto: Histórias que Mudam o Mundo

Nascido em Itajaí-SC, Elmo foi construir a maior parte da sua vida no Rio de Janeiro. Foi lá que se envolveu com a produção acadêmica, e também foi lá que se envolveu com questões ambientais, principalmente na Baía de Guanabara. Além disso, foi responsável por grande parte da preservação de áreas de risco dos mangues. Na sua atuação ambiental, sempre procurou unir seu conhecimento acadêmico com a prática da militância ambiental.


 
 

 

P/1 – Elmo, queria agradecer por você ter aceito o convite. E queria que você falasse o seu nome completo, local e data de nascimento.

R – Bem, meu nome é Elmo da Silva Amador. Eu nasci em Itajaí em Santa Catarina, no dia 22 de agosto de 1943.

P/1 – E qual o nome dos seus pais?

R – É Anselmo André Amador e Paulina Maria da Silva Amador.

P/1 – E você podia contar um pouco da história dos seus pais, da sua família?

R – Bem, sou de Itajaí. Meu pai era marinheiro e minha mãe era professora primária. Aí um navio, Lóide Brasileiro, a Companhia Lóide Brasileiro, o navio ia em Itajaí de vez em quando, e numa dessas idas encontrou a minha mãe encontrou meu pai na praça e se gostaram; aí muito comedidamente namoraram e casaram. Agora teve uma característica que foi marcante desde o começo que é de eu ver muito pouco meu pai. Como todo marinheiro, meu pai fazia longas viagens no mundo e só parava uma “vezinha”, um dia em três, um dia às vezes em seis meses; um, dois dias em seis meses. Quer dizer, então praticamente não via meu pai. O meu pai, por exemplo, só foi me conhecer depois de eu ter seis, sete meses de cidade. E eu nasci em plena Guerra Mundial. Outra característica: uma situação de tensão muito grande no mundo. Mas essa característica de ver pouco o meu pai marcou muito a minha vida: eu gostava muito dele, mas a presença masculina, a presença do pai, assim, faltou um pouco, por isso, não que ele desejasse, mas a profissão impedia.

E isso também levou a mudar a vinda pro Rio de Janeiro. A Baia de Guanabara teve uma importância nisso, porque a Baia de Guanabara é o grande porto do Brasil, era o grande porto, e as viagens que o meu pai fazia ficava bastante tempo no Rio de Janeiro, então com isso a vinda de Itajaí para o Rio de Janeiro. Eu vim com cinco anos e meio e foi uma mudança, assim, radical. Lembro de forma fragmentada, como criança de uma cidade pequena, de um porto, de praias, lembro de uma inundação. Essa característica que tá aparecendo muito pra Santa Catarina, Vale do Itajaí, aquelas inundações. Naquela época já existia! Eu lembro que eu tinha quatro ou cinco anos de idade, eu acordei um dia feliz da vida, as pessoas estressadas, nervosas, apavoradas e eu feliz da vida porque eu tava vendo peixinhos embaixo da minha cama , eu tava vendo peixinhos e tava achando, assim, o máximo, eu acordei e tava vendo peixinhos embaixo da cama! As pessoas desesperadas com a tragédia da inundação, mas eu curtindo. Então essa visão de um lugar pequeno, legal, com parentes, quintal grande, deu lugar a uma vida nova no Rio de Janeiro.

No início de muito sofrimento. Meu pai era pobre, ganhava pouco. Minha mãe deixou de trabalhar, não trabalhava. Então nós vivemos em situação de extrema penúria, a gente passou muito aperto, muito sufoco mesmo. Moramos em casas de outras pessoas. Nós vivemos uma vez quase numa situação de favelados. Minha mãe brigou onde nós morávamos, nós fomos colocados pra fora da casa, e meu pai viajando e minha mãe sem iniciativa e nós ficamos muito mal mesmo e foi contornado aí com a acolhida de uma família generosa, cristã, que acolheu, eu lembro muito bem: a gente passando fome e eu ficava brincando com a comida pouquinha, fraquinha. Eu ficava brincando com a comida, pra curtir, pra fazer ela demorar a acabar .

Muito bem. Mas aí depois fui morar em Caxias, no Rio de Janeiro; morei na Penha; depois morei em Caxias, na Baixada Fluminense. E Caxias marcou muito, mas muito mesmo, a minha vida! Foi a fase dos sete aos dez, doze anos. Marcou muito porque aquela infância livre, lá era matagal pra todo lado, então via muito natureza, bicho. Eu aprendi a nadar num rio que hoje é o símbolo da poluição da Baia de Guanabara, o rio Meriti. E eu saía de casa e ia lá ver caranguejo, nadava. Na época era uma água razoável! E ficava na rua o dia inteiro, brincava de índio, fazia casinha, cabaninha, aquelas coisas. Futebol. Essas coisas todas. Esse era o lado bom, o lado ruim era que a Baixada, naquela época – mesmo agora, mais ou menos, agora talvez um pouco menos - era muito perigosa, então existiam muitas mortes, muito bandido, eu vi muitos corpos na minha vida, muitas pessoas sendo mortas. Uma se suicidando, se incendiando; uma que levou uma punhalada; outra que um bandido que tava tentando se esconder atrás da cama... e os meus olhos gravaram assim muitas imagens de extrema violência, de uma criança vendo isso nessa época. Então são duas coisas paradoxais: de um lado uma vida gostosa de moleque, que eu adorei, e do outro, assim, de situação de extrema violência que assolava e que permeava a nossa vida. Quer dizer, violência não é uma coisa de hoje, é uma coisa muito antiga, só que hoje tá mais generalizada, talvez. Essa visão eu sempre tive. Bem, e em função dessa miséria que a gente teve, esse desajuste.

No Rio de Janeiro a gente ficou longe da família, e meu pai ganhando pouco, nossa situação de vida era muito difícil, era uma casa de um quarto só, com três filhos, três, a gente dormindo na sala tudo apinhado, era uma situação bastante difícil! Eu lembro que pra complementar o dinheirinho lá, eu tinha que ajudar a minha mãe a vender docinho no campo de futebol, a fazer lá uns docinhos, pra complementar, pra tentar. Então esse quadro me marcou muito. Isso de observar o mundo. Eu passei a ver o mundo com um olhar muito crítico, de ver muita injustiça social. Marcou muito. Profundamente. Não só pela minha origem, mas eu passei a observar também o desigual, e essa desigualdade me marcou muito em termos de militância pessoal, militância social, depois mais tarde militância política, e depois a militância política ela imbrica com a militância ambiental, quer dizer, hoje, na verdade eu faço uma militância que é política e ambiental ao mesmo tempo. Mas houve um momento, por origem, que seria uma militância mais social, mais de revolta. E marcou muito! Marcou, assim, profundamente e eu acho que só. Até hoje eu não tô totalmente curado dos traumas, das injustiças que eu observava, que eu via, que eu acompanhava. Até hoje não tô. Eu tô melhorado, consegui melhorar, superar, deixei de ser tão agressivo como eu fui, mas ainda tenho esses vestígios e eu imprimo em tudo que eu faço ainda essa visão.

P/1 – Elmo, antes, deixa eu só te perguntar: você tem irmãos?

R – Tenho. Tenho. Uma irmã – sou o mais velho. E tenho uma irmã, que seria a segunda, e tive um irmão que foi assassinado. Que era uma pessoa maravilhosa, super inteligente, era o mais inteligente, era o mais bem informado da família, e foi assassinado com 17 anos por um esquizofrênico, um louco, um maluco, vizinho. E como tem nessa novela que a gente tá assistindo agora que tem aquela figura esquizofrênica, eu vejo o assassino do meu irmão exatamente igual. O cara se sentia ameaçado por uma pessoa que não fazia absolutamente nada, era uma pessoa maravilhosa, e ele assassinou. Isso marcou muito também.

P/2 – Você era mais novo ou era mais velho?

R – Meu irmão era o mais novo. Meu irmão tinha uma diferença de sete anos.

P/1 – Qual era o nome dele?

R – É Anselmo. A gente chamava de Anselminho. Eu tinha 22 anos, ele 17 quando ele morreu. Ele era uma pessoa maravilhosa, estudante do colégio Pedro II, melhor aluno! Melhor em tudo! E inclusive em visão de mundo também, preocupado com a natureza, preocupado com a pobreza, com a favela, ele se incomodava com os menores abandonados, tudo isso. E foi isso também que me marcou profundamente, até hoje minha mãe tem seqüelas aí do que aconteceu.

P/1 – E qual que é o nome da sua irmã?

R – Minha irmã: Selma. A Selma tá bem, casou com um português, tá bem, bem sucedido, um cara que trabalhou bastante, não estudou muito, mas trabalhou muito e hoje é um empresário bem sucedido. E ela tá muito bem, muito bem casada, eles se gostam, têm dois filhos, têm lá alguns netos.

P/1 – Então, eu queria voltar um pouco mais pra infância, pra gente caminhar.

R – Tá bom.

P/1 – Você brincava muito com seus irmãos ou você tinha outros amigos também, como é que era?

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