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Otunba Adekunle Aderonmu

Nascimento: 25/12/1964,
Abeokuta
Projeto: Ponto de Cultura

Otunba Adekunle nasceu na Nigéria, foi lá que cresceu, se formou e fez o exército, antes de se mudar para o Brasil. "Otunba" não é propriamente seu nome, mas um título. Filho de uma família real, Adekunle recebeu o mérito de "Otunba", que significa "vice-rei". Mas sem pensar em reinado, resolveu vir ao Brasil atrás de novas experiências e para continuar os seus estudos em Bioquímica. Porém, ao chegar aqui, percebeu que havia uma carência de informações sobre a África, e que ele podia ser mais útil na área cutlural do que naquela em que tinha se formado. Por isso, vem trabalhando em prol de um Centro Cultural Africano na cidade de São Paulo.


 
 

 

P/1 – Para começar, eu queria pedir para você dizer o seu nome completo, local e a data de nascimento.

R – O meu nome é Otunba Adekunle Aderonmu Eu sou nigeriano, naturalizado brasileiro, e o lugar onde eu moro, a cidade chama Abeokuta, na Nigéria. Estou aqui no país desde 1992.

P/1 – Na região onde você nasceu você vivia com seus pais, com seus avós? Com quem você vivia?

R – Eu vivi com meus pais, porque lá, na realidade eu um sou de dentro da família real, e meu pai ele é um líder; porque lá existem várias comunidades onde existe um líder que chama rei daquele pedaço. Diferente de algumas de príncipe que você conhece aqui no Brasil, tipo, Príncipe Charles – já não é nesse nível. A gente na África tem várias comunidades, que essas comunidades têm o líder deles, e o líder deles também se tornou como um Obá. Obá é um rei. Então, quando se falar de riqueza, a gente fala que eles têm, mas não é tão igual. Inclusive tem uma vida humilde, num tenho nada super especial; claro, na hora que você passa o povo se ajoelha pra você. O povo reconhece você como a parte de príncipe, mas num é aquelas coisa, tipo, de riqueza, aquelas coisa que você conhece. Cada vez que ouve falar que eu sou um príncipe na África, passa uma mistura dessa minha situação com a parte do príncipe que eles já conhecia antes, tipo, Príncipe Charles - essa classe que tem uma família real que é muito rica.

Então, um príncipe que é simples e que não tem nada de frescura pra conviver com as pessoas. Um príncipe que tem um pai que é o líder da comunidade, que chama rei ou um Obá, na nossa linguagem; e mãe que vive junto. Só que hoje em dia os dois faleceram e hoje eu sou um príncipe e tenho direito de me tornar um líder também; mas hoje tem um líder já, um rei lá, que é da outra família real, porque na África, aonde eu sei, existem várias famílias que podem se tornar rei daquela cidade. Não é uma família só, são várias famílias, mas quando um rei decide receber você para ser parte do gabinete - tipo eu agora sou um Otunba, se você vier aqui você vai ver um Otunba Adekunle Aderonmu, quer dizer um Otunba quer dizer um vice-rei -, quando você já está dentro do gabinete é tipo: “Um dia você pode ocupar logo, ai você se torna um Otumba”. Otunba é vice já. Tipo, qualquer coisa que acontecer com o rei, eu posso entrar no trono, mas a nossa oração á para que ele continue ser grande, forte e saudável, com saúde - quero falar: sem problemas. Porque pra mim é uma vida normal. Mais importante pra mim do que quando eu quero me tornar rei na mocidade. Ai já eu tenho uma vida mais controlado. Por eu ser uma pessoa que gosta de ser livre, gosto de minha liberdade, gosto de ser Otunba pra muito tempo, porque eu tenho minha liberdade.

P/1 – Qual o nome dos seus pais?

R – É Akombi Aderonmu o nome do pai, e o nome da mãe, é Uaslast Aderonmu.

P/1 – Você comentou então que seu pai era rei e que sua mãe convivia com vocês, e como eram essas funções sua mãe tinha.

R – Existe um papel fundamental, como se foi cuidar do próprio marido, que é rei, e a maioria das coisas pessoais do rei é a esposa que cuida. Então, geralmente, você tem que ter uma secretária pessoal. Na África, só as esposas são suas secretárias pessoal, que sabe a maioria das coisas que você quer fazer. Mas hoje em dia, como você consegue ter mais rotatividade junto, aí você começa a ter uma secretária. Mas na época da minha mãe, era muito mais secretária do pai do que qualquer outra pessoa; porque ela quem sabe como que é, ela que sabe aonde ele vai, ou que roupa que ele vai colocar num dia, o que ele vai comer. E também ajuda a cuidar da cidade, na parte das mulheres. As mulheres são as esposas do rei que cuidam dessa parte: o que as mulheres estão precisando, às vezes alguma coisa, tipo, alguma feira, que pode ser uma coisa coletiva. E, geralmente na África, são as mulheres que fazem feiras. Então, cede algum espaço pra ela, onde ela vai cuidar; através dela, ela passa para as mulheres da comunidade o que elas podem fazer, a maneira que elas podem dividir, o que você tem que ter para ter direito a ter um pedaço daquela feira, quanto você tem que pagar pra comunidade. Uma coisa assim, que é simples, e tem um papel fundamental na administração dessa cidade. É principalmente na parte feminina, porque a gente acredita muito na parte da mulher, e a maioria das africanas sempre quer que a mulher trabalhe. Não gosta que mulher fica em casa, mas mesmo assim alguma pequena porcentagem ainda acredita que mulher pode ficar em casa, que ela trabalha; mas 89% dos africanos gostam que a mulher dele participe, de uma forma ou de outra, no crescimento da casa. E a parte da criança também, elas fazem parte na criação da criança, mas o papel da mulher é super importante na vida do homem, lá.

P/1 – Agora, eu queria entrar um pouco na sua infância. Que lembranças que você tem da sua infância?

R – Eu sempre lembro de uma parte, na hora que eu ficava estudando na escola. Onde minha casa está é um pouquinho longe de onde a escola está. Por eu ser um filho do líder da comunidade, não tem exceção, você tem que estudar junto com pessoa lá também. E eu me lembro que também andava da nossa casa até a escola. Porque sempre tem uma escola no meu bairro. Aí eu lembro que alguma criança, às vezes, gostava de chorar na hora em que a gente ia para a escola, não gosta de estudar. Eu gostava de estudar, aí eu via sentir porque que uma pessoa não gostava de estudar. E na hora em que a gente voltava pra casa, elas ficavam contentes, aí apanhavam elas pra chorar de volta pra casa. Aí as famílias delas iam reclamar para meus pais, porque eu ficava batendo nos outros.

Então, essas são as coisas que me marcam mais, tipo, é importante que as crianças estudem. Mas até hoje fico me perguntando: “Mas por que aquelas idéias vêm na minha cabeça numa época, por ser uma criança, que já sabia da importância da educação para os outros?” Porque na época era tipo oito anos – muito jovem – para saber da importância da educação; e na época, a educação para nossos pais não era importante, tipo: “Você vai estudar, mas e daí?” Eles acreditavam naquelas coisas que você tem que poder na agricultura, tipo, mais terra que você tem mais poder você tem. Aí eles criavam você também daquele jeito: tem bastante terra e mostra sua riqueza; mais terra que você tem mais riqueza que você tem. Isso foi ideal - aí foi pensamento.

Mas eu lembrei aqui que eu ficava cobrando os colegas jovens para estudar, na época. Então é até uma das coisas que eu mais lembro que eu fiz que eu acho que foi uma coisa legal. Hoje eu vejo uma coisa legal porque a educação se torna uma coisa importantíssima na vida de qualquer ser humano. E como com oito anos, eu podia ficar pensando daquele jeito. Eu ficava: o que passa pra mim numa época, pra me cobrar que aquela criança tinha que estudar, tipo, se ele chora, na hora em que ele vai para a escola se ele tem que chorar na hora em que ele tem de voltar pra casa? Não pode estar rindo. É uma das coisas que me marcaram época, foi essa importância da criança sem querer estudar. Então, até hoje, eu sou um dos apoiador de qualquer coisa que é ligado à educação. Que sem educação não tem liberdade para ninguém. Principalmente, o negro sem educação, aí piorou a situação, porque ele já tem a situação, um preconceito por ser um negro. E sem educação ainda, piorou. Então por isso, tem que advogar da importância da educação na vida de qualquer ser humano. Não é somente um negro, como pode ser um branco, qualquer cor que seja. Eu acho importante a educação. Tem que ter educação, pelo menos a mínima possível, porque educação não tem nada a ver com riqueza, mas a educação mínima você tem que ter. É a mínina coisa, é o mínimo presente que você pode dar na vida em si. Questão de riqueza é uma coisa do destino. Não é todo mundo que é médico que é rico. Não é todo mundo que é advogado que vai ser rico. Não é todo mundo que é político que vai ser rico. Mas o básico, a parte da educação, é o maior presente que ele está dando para si. Não é presente do pai, não é presente de mãe. Não é uma coisa que você está dando para ninguém. O maior presente que você pode dar para si é a educação. Por isso, que eu apóio a qualquer instituto ou a qualquer indivíduo que fala muito da educação. Sempre fica mais assinado, porque desde criança, eu já tenho esta história, que eu tenho que brigar com uma que não quer estudar.

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