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Anna Maria Zammataro de Aguiar Pupo

Nascimento: 22/03/1943,
São Paulo
Profissão: Professora
Projeto: Ponto de Cultura

Filha de mãe austríaca e pai italiano. Casou-se aos 22 anos com o primeiro namorado, Luciano, que conheceu aos 16 anos. Formou-se em História e trabalhou durante 20 anos como professora em escolas particulares e públicas. Em seu depoimento, falou de sua relação com a família, a educação, e sobre suas convicções sobre o papel do educador. Ela descreve o cotidiano da cidade de São Paulo nas décadas de 1940 e 1950: as brincadeiras na rua com os amigos filhos de imigrantes, o uniforme que usava para ir à escola, a calma da Avenida Paulista e da Alameda Casa Branca, as compras e os chás da tarde no centro.


 
 





Anna Maria conta como foi a chegada de seu avô à cidade de São Paulo, na época em que a elite local começava a construir os casarões da Avenida Paulista. No vídeo acima, ela fala da olaria que ele montou para abastecer de tijolos as construções dos barões do café e também de algumas memórias da infância no bairro que começava a se formar, nos arredores da Paulista. Assista e conheça um pouco mais dessa história, contada ao Museu da Pessoa em entrevista realizada em outubro de 2009.

 


P/1 – A gente sempre começa perguntando o nome completo, a data e o local de nascimento.

R – Meu nome é Anna Maria Zammataro de Aguiar Pupo, um nome comprido. Quando eu viajo todo mundo fala: “Too much middle names, too much middle names” (risos). Nasci em 22 de março de 1943, na cidade de São Paulo.

P/1 – Vou voltar lá pra trás, fala um pouco dos avós paternos e maternos, nome deles, o que eles faziam, um pouco da história deles.

R – Meu avô materno chamava-se Ferdinand Hornek. Ele era austríaco e casou-se com uma húngara chamada Thereza Riza Hornek. Não sei em que oportunidade, ele era militar e ela o ajudou a ficar em um lugar onde não havia alimento e tal, ela levava alimentos pra ele, pra outras pessoas da companhia e assim se conheceram, se apaixonaram, se casaram na Áustria e tiveram duas filhas. Em 1920, ocorreu uma mudança drástica pra ele, que era um militar do exército do Imperador, ele ficou sem emprego. Então, resolveu se tornar fazendeiro no Brasil. Comprou terras, vendeu tudo o que tinha, comprou passagem pra ele, pra mulher e pras duas filhas e veio embora pra nunca mais ver a família. Aliás, se vocês me permitirem eu abro um parênteses pra contar. Eu tenho uma filha que mora fora do país e me causa grande tristeza, porque eu sou uma mãe daquelas que gosta de ter os filhos embaixo das asas, a filha se casou e foi embora. E eu só me consolo pensando nessa família que veio embora da Áustria e nunca mais sequer falou no telefone com a família. Eu falo: “Bom, a minha vida é melhor, eu tenho Skype” (risos), então, dá pra conversar no telefone. Essa família veio para o Brasil pra se tornar fazendeiros no interior de São Paulo e quando eles chegaram no interior de São Paulo a fazenda não existia, eles tinham caído no golpe do vendedor de fazendas no Novo Mundo. A fazenda não existia, ele não falava português, acabou tendo de trabalhar como administrador em uma fazenda e viveu uma vida bem simples no interior de São Paulo. Não só simples, mas completamente diferente daquilo que eles tinham na Europa. Era cobra entrando na casa, rato entrando no forro, morcego... E depois de um tempo, um dia que a minha avó encontrou uma cobra enrolada nos pés da minha mãe que era bebezinha. Ela disse que não ficaria nem uma noite mais lá naquela fazenda. E pra poder ir embora eles tiveram que sair escondidos, no meio da noite, porque eles tinham dívidas, como aquelas dívidas dos colonos do século XIX, que persistiam ainda no século XX. Tinham dívidas no armazém da fazenda e foram obrigados a sair na calada da noite levando o que puderam, as filhas na mão e conseguiram ir embora da fazenda. Vieram pra São Paulo e meu avô acabou se instalando com uma ótica, chamava-se Óptica Pasteur, no centro da cidade de São Paulo. Acabou sendo uma ótica importante, muito procurada pelas pessoas que queriam fazer óculos. E naquele tempo nem oculista sabia e o meu próprio avô, que não era oculista, nem sequer técnico em ótica, ele prescrevia, porque ele conhecia alguma coisa sobre lente e ele acabava prescrevendo os óculos pras pessoas porque não havia outra maneira. Essa é a história do avô e da avó. Aliás, vale contar que apesar dos percalços, esse avô e essa avó conseguiram criar muito bem as duas filhas, as duas filhas estudaram no Colégio Olinda, aliás era antes chamada Deutsch Schule, que quer dizer Escola Alemã, depois da guerra, não posso precisar, passou a se chamar Porto Seguro, que é a escola Porto Seguro que vocês conhecem hoje. As duas filhas se formaram, a minha mãe, além de se formar fez conservatório, era uma pianista. Educaram bem as filhas e viveram bem o resto da vida deles aqui no Brasil, que os acolheu e que permitiu uma boa vida para esse casal estrangeiro. Eu cheguei a conhecer esse avô, que morreu quando eu tinha cinco anos. E a avó conheci bem, ela viveu mais alguns aninhos. O outro lado, lado paterno, era italiano. A minha avó já era nascida no Brasil de família italiana e o meu avô veio com 16 anos de idade para o Brasil, sem nada, mas com muita vontade de “fazer a América”, como eles diziam, né? (risos). Meu avô chegou em São Paulo e pegou uma época muito interessante para “fazer a América”, ou seja, início do século XX, em que a elite da sociedade paulistana já estava se deslocando daquela região que era Higienópolis, onde primeiro eles tinham se instalado, os barões do café já estavam se espalhando pra Avenida Paulista. Então, a grande rua, a grande avenida dos ricos da época era a Avenida Paulista, onde moraram Matarazzo, muitas famílias de muitas posses. E o meu avô, menino de tudo, chegou com 16 anos, resolveu investir na área das construções, justamente das casas pras famílias de dinheiro da cidade. Então, ele começou a produzir tijolos. Ele comprou uma terra na área de Guarulhos e uma olaria. E o que ele fez, e o que o tornou bastante, vamos dizer, atendeu aquilo que era o objetivo dele que era viver uma vida boa no Brasil foi fazendo isso, foi vendendo tijolos que ele produzia nessa olaria em Guarulhos. Eu cheguei a conhecer essa olaria, eu era menina e gostava muito de ir andar na draga, que era o barco que andava pelo rio recolhendo a areia do fundo, areia, terra, no fundo do rio pra depois... Acho que a areia era vendida, não era pra produzir tijolos, mas a parte do barro que produzia os tijolos. E hoje na minha casa, aqui no Alto de Pinheiros, que meu marido e eu construímos no início dos anos 70, alguns tijolos do muro da minha casa são tijolos que tinham sido fabricados pelo meu avô, porque o meu pai tinha guardado alguns e o meu marido, que nunca foi historiador, é advogado, era mais preservacionista do que eu, falou: “Vamos fazer o muro com os tijolos do seu avô?”. E lá estão os tijolos que eram do meu avô no muro da minha casa. Esse avô italiano teve oito filhos, cinco mulheres e três homens, e criou esses filhos muito bem, no caso só um, o meu pai, estudou na universidade. Os outros filhos todos fizeram básico, não sei até que nível, porque não era costume naquela época as mulheres estudarem além do ginásio, era o máximo que as meninas chegavam. E dos homens, um deles foi trabalhar com o meu avô na olaria, o outro tentou estudar Medicina, acabou não conseguindo por motivos de saúde e o meu pai foi o único dos oito que fez faculdade, ele era engenheiro e arquiteto. E assim é a história dos meus avós, famílias estrangeiras, de um lado húngaros e austríacos e de outro lado, italianos.

P/1 – Muitas coisas me deixaram curioso, uma delas é, de um lado você perdeu o avô com cinco anos, mas você falou que tem recordações. Quais eram? O que você lembra?

R – Do avô?

P/1 – É, do austríaco.

R – Olha, uma coisa é certa, com cinco anos a memória da gente é muita difusa. Eu lembro muito pouco desse avô, o que eu lembro é que ele era um homem habilidoso, tanto é que apesar de militar, ele acabou tendo uma profissão que tinha a ver com uma certa habilidade manual. E ele era muito habilidoso, ele tinha no fundo do quintal uma oficina com um torno e ele gostava de fazer objetos de madeira, brinquedos também. Aliás, me lembro bem dos brinquedos. Eu tenho até hoje guardado na minha casa um trenzinho de madeira que ele fez, uma casinha de boneca com cerquinha de madeira, eu guardo com um carinho na principal vitrine da minha sala, porque pra mim é um objeto importantíssimo, de muito valor. E ele fazia essas coisas, ele gostava de mexer. Eu lembro dele mexendo no torno e me chamando pra ver, e lembro dele depois doente, ele morreu de câncer na garganta, ficou um ou dois anos doente. A minha memória desse meu avô é muito distante, muito difusa, mas eu lembro de falar com ele, já doente, desejando melhoras, me lembro bem.

P/1 – E a avó...

R – A avó húngara? A avó húngara eu lembro muito mais, porque ela morreu eu já tinha uns 18 anos. Eu lembro bastante dela.

P/1 – Eram próximas, ia muito na casa deles?

R – Ela morava comigo, como eu tenho uma tia que morava em Niterói, ela passava seis meses com a filha de Niterói, seis meses com a minha mãe, então, ela morava com a gente.

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