PESSOAL
IDENTIDADE Nome e nascimento Eu nasci no dia 16 de janeiro de 1933. Eu tenho no meu registro como se eu tivesse nascido em Batatais, mas, na realidade, eu nasci num vapor, num navio português, e fui registrado em Batatais porque havia uma carta de chamada do meu pai para o Brasil com destino a Batatais. Então, eu tive que ser registrado como nascido em Batatais. Mas não conheço a cidade porque eu realmente não fui criado em Batatais. Fui criado na Usina Junqueira, município de Igarapava e, depois, fui para São Paulo, aos nove anos de idade, e de lá voltei para a Usina Junqueira novamente. Depois, fui para Ituverava. Residi meu maior tempo em Ituverava e, depois, em Uberlândia.
FAMÍLIA Pais
O meu pai é José Barata Dias e minha mãe, Amélia Barata Dias. Embora os dois sejam Barata, minha mãe era Barata Lima. Ela perdeu o Lima e ficou com o Dias de meu pai. Mas são famílias totalmente opostas, embora sejam Barata porque o nome Barata em Portugal é mais ou menos como Oliveira no Brasil. Ele não distingue bem a família. O que distingue depois é o outro nome. No caso, minha mãe é Barata Lima. Minha mãe é filha de fidalgo. Meu pai é plebe. Meu pai era músico, alfaiate e, para casar com minha mãe, ela teve que se deserdar dos direitos que ela tinha da família porque meus avós não aceitavam. Era uma família totalmente diferente. Minha mãe é fidalga, meu pai é plebe. Os dois, tanto meu pai como minha mãe, são de Alvares, distrito de Coimbra. Naquela época, a aldeia, que era Alvares, era dominada pelos padres. E, naquela época, os padres não aceitavam que as mulheres estudassem; isso era muito comum, todo mundo sabe. Então, minha mãe, que vinha de uma prole de nove irmãs e nenhuma estudou, como era a caçula, o meu avô conseguiu trazê-la para o Brasil com um tio dela, para ela estudar no Rio de Janeiro. Então, minha mãe fez o Grupo no Rio de Janeiro e, quando voltou para Portugal, voltou como uma pessoa letrada, como eles diziam. Tinha apenas o curso primário, mas já sabia ler e escrever. Isso não era permitido na aldeia. Então, minha mãe, por ter estudado no Brasil, tinha verdadeira loucura em ter um filho brasileiro. Como ela se casou em Portugal e teve cinco filhos, todos lá - eu fui o último, ela já tinha 40 anos de idade -, então, ela tinha loucura para vir para o Brasil, para que eu pudesse nascer aqui. Meu pai tinha uma certa ligação com um tio dele ou um outro irmão, não me lembro bem, com a família de um pessoal de Batatais, que era a família do "coronel" Quito, que foi o fundador da Fundação Sinhá Junqueira, da usina Junqueira. Ele morava em Batatais e se chamava Alcebíades Junqueira. Esse homem conseguiu fazer uma carta de chamada para meu pai poder vir para o Brasil e, justamente, a única intenção era que eu nascesse aqui. E assim foi feito. A carta de chamada era um tipo de um documento que dava a garantia de o português sair de Portugal e ter um emprego garantido no Brasil. Mas, na realidade, isso não aconteceu, porque era para o meu pai ter esse emprego em Batatais, porque o Alcebíades era de Batatais. Mas, na realidade, eu nem conheço Batatais porque eu fui registrado em Batatais por conseqüência desses fatos. É uma história muito complicada. Digo que sou nascido em Batatais, mas não conheço nada em Batatais. A quem me perguntar, eu digo: "Eu não sei nada". Eu fui criado em Ituverava, Igarapava, Usina Junqueira e São Paulo. Essas cidades, então, eu conheço bem. A família veio inteira para o Brasil. Vieram todos.
Meu pai, quando veio para cá, veio com esse chamado para dirigir uma lavoura em Batatais, mas, na realidade, isso não aconteceu porque essa carta foi meramente um instrumento para que tudo isso acontecesse. Mas ele arrumou um emprego numa fábrica em São Paulo, uma fábrica de papelão. Meu pai era alfaiate de profissão. E era músico. Era guitarrista. Talvez esse tenha sido um dos conflitos para ele casar com minha mãe porque os pais de minha mãe não aceitaram um músico se casar com ela. Não era benquisto. Ele conseguiu em emprego em uma fábrica de papelão em São Paulo, mas, em São Paulo, já naquela época, para criar a família, era um tanto difícil. Foi em 1933, já no final da Revolução, e meu pai, por meio desse Alcebíades, conseguiu arrumar um emprego na Usina Junqueira, com o "coronel" Quito, que deu emprego para o meu pai. Ele foi trabalhar então no laboratório de análises, na Usina Junqueira. Ele tomava conta do laboratório, ele não era engenheiro, não era químico. Ele tomava conta, dirigia o laboratório da usina. O Alcebíades era parente do "coronel" Quito - me parece era um primo ou coisa semelhante - e ficou amigo de meu pai. A usina ficava em Igarapava. Já não era Batatais. Mas, como o coronel Quito tinha necessidade dessa pessoa, de uma pessoa de confiança para ficar no laboratório, pelo Alcebíades, ele conseguiu trazer meu pai de São Paulo. Aí, nesse caso, veio todo mundo: meus pais, meus irmãos, todo mundo.
Irmãos Na Usina Junqueira, todos arrumaram emprego. O "coronel" Quito deu emprego para o meu irmão mais velho, que era o Antonino. Ele foi trabalhar no escritório e era o identificador datiloscópico na Usina Junqueira. Um outro irmão chamado Álvaro foi trabalhar em um caixa de armazém. Outro, Feliciano, era jovem ainda, esse não trabalhava e foi para uma escola profissional fazer modelo em madeira. O outro, José, e eu éramos novinhos, só estudávamos. E a minha irmã mais velha foi trabalhar com esse coronel Quito e a dona Sinhá. Ela foi ser uma espécie de camareira da dona Sinhá. Seria assim uma espécie de dama de companhia. Mais tarde, eu mesmo vim a morar com a dona Sinhá também, em São Paulo, no período em que eu fiz o Grupo.
Avós Os meus avós, eu não cheguei a conhecer. Eu sempre tive muita vontade de ir a Portugal para conhecê-los, mas, quando eles eram vivos, eu não tive essa oportunidade porque eu sou o caçula da família e sou o único brasileiro. Estou sendo brasileiro porque meus irmãos são todos portugueses. Eu sempre tive vontade de conhecer meus tios, meus avós, mas, quando eles eram vivos, eu não tive essa oportunidade. Eu só tive condições de conhecer parentes em Portugal, já depois de velho, coisa de dez anos atrás que eu fui a Portugal. Já fui umas quatro vezes a Portugal. Conheci diversos primos. Mas meus avós, não. Eu visitei o túmulo de meus avós em Portugal, mas eles eu não os conheci.
Casa de infância Eu me lembro da casa da Usina Junqueira. Ela tinha um alpendrezinho. Essa casa existe até hoje, ela não foi derrubada. Muitas casas foram derrubadas, essa ainda existe lá. Ela tinha uma sala, dois quartos, uma cozinha, uma dispensa, quintal e a privada, que era no fundo da casa, junto com a lavanderia. Nós tínhamos água encanada. Não era forrada. Nos quartos e na sala, só tinha parede até na altura do telhado. Não era fechado até em cima. Era tudo aberto.
Na minha casa, como eu era o caçula, eu era o responsável por arrumar de manhã cedo, tirar os urinóis da casa porque nós não tínhamos privada. As privadas eram privadas de fossa, retiradas da casa. Naquele tempo, usavam-se os famosos penicos, os urinóis. Então, a minha missão, como eu era o caçula, era, de manhã cedo, tirar todos os urinóis, limpar todos os urinóis da casa e depois ajudar minha mãe a varrer, essa coiseira toda. Depois do almoço, eu ia para o ginásio.
INFÂNCIA
Eu tive uma infância relativamente bonita. Eu não posso me queixar. Meu pai saía do serviço dele aproximadamente às 6 horas da tarde, e quando chegava em casa - não era muito longe e ele tinha uma bicicleta -, minha mãe já tinha a janta pronta, a gente jantava e, depois da janta, a gente se sentava. Isso eram quase todos os dias, na calçada, no alpendre. E aí meu pai, que tinha uma guitarrazinha, ele tocava essa guitarra e cantava para a gente. A gente também cantava, e a molecadinha juntava tudo. Não era só moleque, não. Adultos também vinham. Um trazia um pandeiro, outro trazia um violão. Então, era muito comum a gente viver à base de música durante a noite. E, de dia, nós tínhamos nossos brinquedos de campo de futebol. A gente brincava muito com bola de meia. A primeira bola de borracha que eu ganhei, aquilo já foi um sucesso danado. Normalmente, era bola de meia mesmo. As famosas peladas eram com bola de meia. E os nossos brinquedos eram feitos de barro. Eu fazia muito automóvelzinho, caminhão de barro e locomotivas, porque a gente era influenciado por causa da Usina Junqueira que tinha as locomotivas. A gente fazia as locomotivas de lata de azeite. Pegava uma lata de azeite redonda, uma lata de azeite quadrada e fazia locomotiva. Esse era o nosso brinquedo, porque não se comprava brinquedos. Quando eu tive a minha primeira bicicleta, eu tinha 14 anos de idade. Era uma bicicleta de pedal seco, não tinha catraca. E foi usada também. Meu pai já comprou usada. Foi a primeira bicicleta que eu tive.
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