Almir Romão Damásio





TRAJETÓRIA PROFISSIONAL

Meu primeiro trabalho foi na Machemsom Publicidade S/A, eu tinha entre 15 e 16 anos e fiquei ali até depois do exército. No meu primeiro emprego, eu fui indicado já por um outro colega que eu tinha. Nós éramos muito amigos, inclusive de baile e namoro. Quando eu namorava a minha esposa hoje, ele namorava a irmã dela, depois acabou e foi para o outro lado. Ele já trabalhava lá e me indicou quando abriu uma vaga. Em 1959 eu fui servir ao exército, onde fiquei até 1960. Depois voltei para a empresa e lá fiquei até 1962 quando eu saí dali eu fui para Casa Peixoto, na Marechal Floriano, que era uma camisaria. Trabalhava como balconista até que em 1965, mais ou menos, eu fui trabalhar na J. Mota Irmãos. Em 1966 eu comprei um bar, o Café e Bar Ponta do Leste, que hoje é o Bar 95 da Rua Pereira Nunes, na Tijuca. Trabalhei um ano e cinco meses mais ou menos até que meu pai decidiu ir para Portugal e minha mãe disse que enquanto eu estivesse no bar, ela não sairia daqui, pois ela ficava preocupada comigo dentro do bar, porque achava que era um lugar muito perigoso, mesmo eu tendo trabalhado ali um ano e seis meses sem nunca ter havido nada. Finalmente, quando eu saí dali, meu irmão me arranjou um trabalho no Banco Central, através da Conservadora Fluminense, onde eu trabalhei de 1967 até 1993, quando eu assumi a loja. Hoje faz 10 anos que estou à frente da loja. Meu pai fechou a loja em maio de 1993 e em junho eu comecei a negociar e comprar a parte do meu tio, uma vez que os dois eram sócios. Quando fui servir ao exército, eu apresentei a carta de convocação e eles me deram a licença para ir para o exército, onde eu fiquei por um ano. Eu tinha 19 anos quando eu fui para lá e servi em Deodoro, no Regimento Escolar de Artilharia. Eu era treinador e depois fui ser motorista do comandante. Quando eu dei baixa, continuei trabalhando no arquivo da empresa por mais dois anos, quando eu sai de lá e fui trabalhar na Casa Peixoto, que era uma camisaria, por indicação de um amigo de meu pai. Depois da camisaria e do bar, eu fui trabalhar no Banco central. Eu estava no bar trabalhando, eu era o dono, e estava lá há um ano e seis meses. Minha mãe tinha muita preocupação comigo no bar. Meu pai queria ir para Portugal e ela disse que só iria se eu saísse de lá. Foi então que meu irmão arranjou para eu entrar como contratado numa empresa chamada Conservadora Fluminense, para trabalhar no Banco Central. Fiquei 25 anos lá dentro, no turno da noite. Eu era fiscal de limpeza e trabalhava na secretaria. Fazia a relação de cheques sem fundo. Era do Banco Central e eu fazia parte do grupo que trabalhava com essa relação e com correspondências também. Tudo o que fazia parte do serviço da secretaria eu tinha participação.

CASAMENTO

Eu ficava muito na área do trabalho, porque, depois eu casei, e fui morar num apartamento alugado em Manguinhos. Dali eu fui para Bonsucesso, que era um apartamento do meu pai e que até hoje esta lá, a minha esposa ainda. Meus filhos estavam no colégio e o meu pai sempre foi duro e sempre exigiu que nós cumpríssemos com nosso dever. Eu, para manter as crianças no colégio, manter as coisas, tive que trabalhar bastante, tanto que eu tinha dois empregos para poder manter as crianças. Inclusive meu filho trabalhou ou estudou, estudava de manhã num colégio, de tarde, tudo particular e de noite na faculdade. E eu mantinha tudo, até a alimentação dele, passagem, tudo, ele tinha tudo pago.

COMÉRCIO

Comércio no centro
Eu lembro do comércio na minha época de infância. Tinha a Casa Mathias e eu comprei muita coisa na Casa Mathias com minha mãe. Eu lembro dessa época do sabonete Eucalol que vinha com umas figurinhas que a gente colecionava. Também tinha o Dragão, a Casa Matos, O Mundo das Louças, todos no centro da cidade, na região onde hoje fica a Saara, mais ou menos e na Marechal Floriano.

Transformações econômicas do país
A freguesia piorou junto com a situação econômica. Dessa época para cá, quando o Collor tomou posse, e fez o real, o negócio tinha esperança de ser melhor. Aí depois veio aquela confusão toda, o Collor saiu, o real começou a cair. O Fernando Henrique, na primeira gestão, foi mais ou menos, na segunda, foi tudo por água a baixo. Vê que o Rio de Janeiro esta (...), nunca se viu tantas lojas fechando como se vê agora. Quando o Collor segurou o dinheiro, foi aquele choque. Mas o dinheiro estava circulando, então os cheques ficaram presos, aquele negócio todo, aquela confusão, mas o dinheiro veio entrando, circulando e foi dando para cobrir as coisas. Até ali estava tudo bem, depois, quando começou aquela confusão do Collor e ele saiu e o real começou a decair, aí então foi quando a crise começou e eles começaram a segurar o dinheiro dos aposentados e a aquisição do povo começou a decair. E uma grande parte também eu agradeço aos bancos, desses créditos, dessas coisas, desses juros bancários, esses cartões de créditos que estão tirando o dinheiro do povo. Isso aí é uma coisa horrível. Eu, hoje, por muitas vezes eu fecho o mês com prejuízo, fecho o mês no vermelho, sou obrigado a por dinheiro da minha aposentadoria dentro da loja para não fechar. Quando as pessoas iam para o trabalho sempre compravam um boné ou chapéu. Na época de 60, 70 até 80 passava muita gente. Mais o desemprego também acabou com aquele caminho por ali, porque quando eles passavam por ali, compravam boné, compravam chapéu. Agora acabou. E o desemprego foi muito grande também.

RAMO DE ATIVIDADE

Chapelaria
Nos anos 70, mais ou menos, começou a decadência do comércio de chapéus, se agravando quando começou o Real. Nós tínhamos muitos fregueses bons e aposentados. Os aposentados, na época, eles recebiam, iam no banco receber o pagamento e compravam um, dois chapéus, e passavam satisfeitos. Depois passaram a comprar um chapéu, depois um boné. Depois chegava a dizer: “Olha, minha aposentadoria hoje não da nem para comprar um boné”. Foi essa a dificuldade toda dos chapéus. Dificuldade de conseguir dinheiro que os aposentados e as pessoas antigas tem com a aposentadoria caindo. Quem ganhava seis, sete salários, passou a ganhar dois, três. Então não tem condição de coisa, a desvalorização da moeda também foi muito grande. O ramo de chapelaria mudou muito hoje em dia. Para fazer um chapéu, usamos apenas a máquina, na época do meu pai era tudo a mão, os chapéus era todos feitos a mão. Já na época do meu pai, na época de Getúlio para cá, já veio criando as máquinas e fazendo. Mas a anterior, quando ele começou e tudo mais, era tudo a mão, de maneira bem artesanal. Havia um clima bem familiar no ambiente de trabalho. Aquela loja ali chegou a ter 16 empregados e todos eles entraram quase garotos para lá e saíram aposentados, velhos, com casa própria. Todos eles ganhavam além do ordenado, uma participação nos lucros. Hoje em dia, os principais clientes da chapelaria são o teatro, cinema, televisão e escola de samba, maçom, a comunidade judaica, e assim, eventos que eles fazem, como bares também tem as garçonetes que botam o boné. E um ou outro tipo de uma festinha qualquer que eles usam o boné também.

Modelos de chapéus
Durante muito tempo, o chapéu colado foi uma das principais fontes de renda da chapelaria. Esse chapéu colado é um chapéu que é feito com chapéu de palha de carnaúba e o pano que a pessoa deseja. Não tem o chapéu na praça, a cor que a pessoa quer, então eu faço o chapéu colado, que vai ficar idêntico àquilo que eles querem em menos da metade do preço. No tempo do Getúlio o chapéu da moda era o chamado palheta e todos usavam. O chapéu de feltro e panamá, quem usava mais era o feltro mais a parte social e o panamá a parte mais da malandragem. Então tinha aquela oportunidade dos navios que ali no cais do porto, encostavam os navios ali e trazia o chapéu panamá e vendia ali no cais do porto. E eles quando compravam o chapéu ali, todos eles iam lá para chapelaria fazer, enformar o chapéu na chapelaria. E nessa época todos, a malandragem, pessoal do samba e coisa, que usavam o chapéu Panamá. Ele vem enrolado, ele vem todo fechado e enrolado. Então dá a goma, se coloca na forma e dá o modelo que a pessoa deseja e o tamanho de aba também que a pessoa deseja. Todo esse trabalho é artesanal e a forma é usada só para ver o tamanho da cabeça do cliente. Meu pai fazia os chapéus da maioria dos políticos que viviam no Rio na época em que a capital era aqui, e estes políticos sempre chamavam meu pai, ao invés de vir à chapelaria. Meu pai, por exemplo, ia lá no palácio do Catete fazer o chapéu do Getúlio, ele mandava o motorista dele ir lá buscar. Meu pai foi várias vezes no palácio do Catete conversar diretamente com Getúlio, que a aba do chapéu do Getúlio tinha que balançar, quando ele chegava e estava falando, dando o discurso, a aba ficava balançando. Se não balançasse ele não aceitava o chapéu. Além disso, a malandragem usava o chapéu nariz de ferro. Esse chapéu era feito pelo meu pai. Era um chapéu de aba larga também, copa alta, na frente ele era bicudo e atrás era bem cavado. Tinha esse nome por causa daquele tipo do chapéu na frente, que parecia mais um nariz grande, então eles deram o nome, a malandragem dava o nome de nariz de ferro. Toda aquela malandragem ali da Lapa, cais do porto, praça Mauá, eles usavam muito esse chapéu. E o pessoal do subúrbio também ia lá comprar e mandar fazer o chapéu também desse nariz de ferro. E depois disso houve o caso de uns dos diretores da fábrica Ramezoni que foi lá na loja conversar com o meu pai e pediu um modelo. Foi quando o meu pai disse: “Não, se você quiser levar, leva que eu faço outro.” E fez o modelo do Zequeti, fez o modelo, diminuiu a aba, modificou todo ele, botou debrut no chapéu, ficou um chapeuzinho todo diferente. Aí o Zequeti nessa época ia entrando e ele pegou e disse: “Gostei desse chapéu, vou levar.” E levou e começou a cantar com esse chapéu na cabeça. E onde ele se apresentava com chapéu, todo mundo voltava: “Eu quero o chapéu igual do Zequeti.” E ficou o nome até hoje, tem o nome de Zequeti, por causa disso. Mas essa era uma época muito boa, inclusive esse palheta ainda tava bom, ele chegava: “Eu quero um chapéu novo.” E botava na cabeça, pagava e jogava aquele fora. Além disso, existia o chapéu de lebre, mais um chapéu bom. O chapéu de veludo, a pessoa levava, comprava três, quatro, cinco chapéus e aquele chapéu, os chapéus da Ramezoni eram chapéus que duravam. Nessa semana, reformei um que era da Ramezoni, ela já acabou há mais de 40 anos. Eram chapéus de qualidade, quem comprava quatro cores, daquele chapéu, não precisava mais comprar chapéu. Havia um chapéu específico para cada ocasião. Se usava muito o chapéu panamá. Na época da Penha, todo mundo ia com chapéu novo para Penha. Na época de São Jorge, todo mundo botava chapéu panamá com uma fita vermelha. Hoje não acontece mais isso, um ou outro ainda conserva essa tradição. Minha memória da festa da Penha, nessa época era uma festa que você chegava ali na porta, era difícil entrar. Hoje você entra normalmente, a população aumentou 10 ou 20 vezes mais, e lá na igreja da Penha, a população diminuiu. As pessoas compravam um chapéu novo para ir as festas, faziam questão de comprar um chapéu novo para cada festa. “Esse aqui é na festa, na igreja no dia de São Jorge.” “Esse aqui é para ir na festa da Penha.” Compravam um chapéu especifico para isso. Todo ano compravam um chapéu novo e botavam uma roupa nova para combinar. Hoje em dia isso acabou.