Nome, local e data de nascimento Meu nome é Almir Romão Damásio, nasci em 29 de janeiro, aqui no Rio, em 1940. Eu nasci na Ladeira do Barroso, no Morro da Providência, no número 58, na época da guerra.
Nome e origem dos pais O nome dos meus pais é Moisés Romão Damásio e Almira Emília de Araújo Damásio. Eles nasceram em São João da Madeira, uma cidade perto do Porto, em Portugal e esta era a cidade do chapéu, lá era onde existiam todas as fábricas de chapéus da época. Meu pai conheceu minha mãe ainda em Portugal. Eles moravam perto e a minha avó tinha um armazém, onde o meu pai fazia as compras, e ele a conheceu ali. Ele começou a namorar minha mãe e, quando veio para o Brasil, disse que quando ele voltasse, ele voltaria para casar com ela. Ele voltou e casou, fez a festa lá em Portugal e trouxe minha mãe aqui para o Rio de Janeiro. Meu pai veio para o Brasil mais por causa da necessidade financeira, na época minha avó já tinha 23 filhos e ele estava com mais ou menos 12 anos de idade, quando ele veio para o Rio de Janeiro e começou a trabalhar. Ele veio trabalhar aqui e depois em 1927 meu tio avô ofereceu a loja para o meu pai e ele começou a trabalhar nessa loja até a data de 1993, como chapeleiro.
Eu fui a Portugal uma vez, em 49, com nove anos de idade, nós ficamos dois anos. Na época o meu pai foi com cinco filhos que já tinha, eu e mais quatro irmãos, duas mulheres e três homens. Embarcamos em um navio de guerra na época. Foi a última viajem que ele fez. E nós ficamos lá dois anos, que meu pai tinha um terreno lá e fez a casa mais alta do lugar. Subsolo, loja e dois andares para cima. Era a casa mais alta do lugar na época. Enquanto não ficou pronta, ele não saiu, porque dizia que os portugueses, quando chegavam lá, chegavam cheio de pompa e quando chegava no meio do caminho, botava o pé no caminho e vinha embora, porque não tinha dinheiro para sustentar a pompa, então enquanto não terminou a loja, o prédio, ele não saiu de lá. Inaugurou, alugou e veio embora. Ele não tinha a intenção de ficar lá, só foi lá e teve orgulho de fazer aquele prédio, deixar o prédio mais alto do local na época. Meu tio, o irmão da minha mãe, tomou conta da sapataria enquanto ele construía o prédio e quando meu pai voltou deu sociedade para ele.
Quando meu pai veio para cá, ele morou ali na Travessa das Pastilhas, é um bairro atrás da Central do Brasil. Depois ele mudou para a Ladeira do Barroso e foi aonde eu nasci. A Ladeira do Barroso é no Morro da Providência e ali eu vivi. Na época aquele bairro era muito bom, meu pai gostava dali porque ficava perto da loja, não precisava pegar transporte nem nada. Eu vivi por ali até 1954, sendo que eu já estava com 14 anos quando nós mudamos para Rua Ibituruna, 66. Nessa época os meus irmãos já estavam maiores, adolescentes e começaram a querer sair dali, querer ir para um bairro melhor, tipo Copacabana, mas meu pai não aceitou e acabou preferindo ir morar na Tijuca. Eu tive uma criação normal, brinquei muito, soltava pipa, jogava bola de gude, brinquei de pique, jogava bola o tempo inteiro. Foi uma infância normal e até os 14 anos brinquei muito. Ai então, eu comecei a trabalhar.
Morro da Providência / Ladeira do Barroso O bairro de minha infância mudou muito na época que fizeram aquela rodoviária, ali em baixo, começou a juntar muito vagabundo por ali e aquele negócio todo. Mas ali na Central do Brasil, era um bairro também, era o centro da cidade, São Cristóvão também era um bairro muito bom, familiar e era uma coisa, depois é que, com aquela rodoviária, aquele negócio todo é que veio juntando aquela turma toda por ali, que piorou tudo ali. Aquela favela que fizeram no morro, que na época não existia morro ali, existia do outro lado, a favela do Cruzeiro, lá em cima, mas era uma favela que eu entrava e saia. Hoje eu não subo nem a ladeira, mas naquela época entrava de um lado, saia de outro e não tinha perigo nenhum. Era uma favela pacifica, uma favela boa. Eu subia a Ladeira do Barroso toda, subia aquela escadinha que tinha lá. O meu irmão ia rezar missa naquela capela com o padre, ele era sacristão e ia muitas vezes naquela favela lá em cima. Eu não, não freqüentava muito lá em cima não. Eu ia assim, eu brincava ali o morro todo, entrava pelo um lado, saia pelo outro. Ia para escola, ali do lado do túnel, descia por ali. A minha professora, a dona Dionísia, a professora particular, que eu estudava de manhã na escola pública e de tarde na dona Dionísia. E era lá em cima, no pé da escada do morro.
Eu trabalhava e estudava. Quando eu morava na Ladeira do Barroso eu estudei na Escola República da Colômbia, na Rua Camerino que era uma escola pública que ficava entre os Morros da Providência e da Conceição. Depois eu fui para o Colégio Luther King na Praça da Bandeira, fazendo ali o comercial. Nessa época já morávamos na Rua Ibituruna e não tenho assim muitas lembranças marcantes, porque eu estudei normalmente já pensando no futuro, pois eu estava com 15 anos e já havia começado a namorar, com a intenção de casar futuramente, o que acabou acontecendo 10 anos depois. Como disse, eu já tinha planos para o futuro e, por isso, me dediquei mais ao trabalho, procurando trabalhar ao máximo para poder casar, uma vez que a ordem do meu pai sempre foi: “Quer casar pode casar, mas você tem que se manter.” Com tudo que ele tinha, ele só queria que eu casasse tendo estrutura para poder manter o meu casamento.
Bailes na juventude Apesar de tanto trabalho, sempre sobrava um tempo para a diversão. Freqüentei bailes, ia para a Associação Ramos Clube, ia para o SENAC, ia para o SESC, para o baile aos sábados. Minha vida foi muito boa, bem como minha vida boêmia. Todo sábado e domingo sempre tinha festa e até hoje ainda continuo também a freqüentar as escolas de samba, bailes da terceira idade, e, é claro, as festas de sábado e domingo. Nessa época as festas eram muito boas, decentes, não tinham aquela farra como tem hoje, como aparece na televisão, essas coisas todas. Você ia ao baile e respeitava a moça, dançava com ela, tudo direitinho, não tinha dessas coisas que tem hoje. Eu não freqüentava a Lapa, nem as gafieiras. Eu preferia ir a bailes mais familiares, onde nós só íamos bem vestidos. Nós íamos de terno, com tudo direitinho. Hoje você vai a um baile de calça jeans, vai de camisa, mas na época só ia de terno e gravata.
Trabalho na chapelaria do pai Dos 8 aos 15 anos, mais ou menos, várias vezes eu passava meses dentro da chapelaria trabalhando. Isso acontecia porque eu era muito arteiro, então meu castigo era ficar dentro da loja. Entretanto, tinha um lado bom, porque quando chegava no final de semana, meu pai chegava perto de mim e dizia : “Toma seu dinheiro que você trabalhou bem. Essa semana você não trabalhou tão bem, você vai ganhar menos. ” E isso sempre me manteve ali na linha. Não era bem um castigo afinal, chegava no final de semana sempre tinha um trocado para as minhas farras. Eu procurava limpar as prateleiras, ia escovar os chapéus que estavam nas prateleiras aguardando que o freguês chegasse. Eu ia até o banco pagar alguma coisa, contas de luz ou faturas, enfim, qualquer coisa que fosse preciso. Mas foi em 68 que eu comecei a me envolver com a chapelaria de forma mais direta. Eu tinha dia vago nessa época, de modo que eu passei a trabalhar na chapelaria durante o dia. Meu pai me levou para lá e eu comecei a trabalhar com ele em 68.
Trabalho em família Meu pai não interveio no caminho de ninguém, de nenhum dos 5 filhos. Só porque eu fui um cara, como eu falei, muito travesso, já comecei a ficar de castigo, às vezes ficava um mês, dois meses dentro da loja de castigo. Eu ia com ele para o trabalho e subia com ele para casa. Só dali que o colégio era em frente, eu ia ao colégio e voltava. Para ir almoçar, ele ia almoçar em casa, eu ia com ele e voltava novamente. E ficava sempre ali fazendo alguma coisinha, para não ficar parado, sempre fazia alguma coisinha, então ele me dava um trocadinho, nunca me deu coisa assim e nunca se impôs e nada não. Nenhum dos meus irmãos seguiu esse caminho de chapelaria. Os dois mais velhos foram para Brasília, um era chefe, já está aposentado, se aposentou como chefe da auditoria do Banco Central, e o outro foi o negócio do departamento de polícia, foi prefeito, foi um monte de coisa lá. Foi chefe de presídio, essa parte, delegado.