A família veio pelo mar, e perto dele ficou Minha avó e meu avô por parte de mãe vieram de Portugal. Na época, em Barra do Guaratiba existia o câmbio negro dos escravos. Os compradores dos escravos iam para lá, e os melhores iam para a região do ouro, do café. Minha avó e meu avô vieram num navio negreiro. Como eles diziam, aportaram em Barra do Guaratiba, saltaram em Barra do Guaratiba e ali ficaram. A história do meu pai eu não sei direito como foi; sei que tinha italiano e português no meio.
Barra de Guaratiba fez 452 anos, é quase da época da descoberta do Brasil. Houve muita invasão ou tentativa de invasão pelos franceses para ir para o Rio de Janeiro, por isso que existe muito estrangeiro lá. O meu avô por parte de pai era tabelião, trabalhava na Pedra de Guaratiba. Ele ia e vinha de canoa. Minha avó era doméstica. A avó por parte de mãe também era doméstica, e o meu avô era carvoeiro. Ele espetou um pau de mangue, teve gangrena e morreu. A minha avó ficou com os filhos pequenos e doou: eram sete, ela espalhou na casa das pessoas que tinham maior posse para acabar de criar. Ficou com dois, uma que era epilética e o outro para sustentar, porque era guarda.
Minha mãe era Palmyra Teixeira Ribeiro de Souza, meu pai era Álvaro Ribeiro de Souza. Nós somos em 11 irmãos. Atualmente em oito, todos nascidos em Barra de Guaratiba. A filha mais velha é Maria; lá em casa, mamãe repetiu todos os nomes dos avós. Tem Julia, Álvaro, Maria, Domingos, todos são avós. Palmyra é o nome de mamãe - mamãe é Palmyra com Y, eu sou com I, faz diferença.
Desde criança eu brigo. Meu pai dizia que, se eu chegasse com a cara quebrada em casa da escola, ia apanhar mais, porque eu era muito brigona. Tem umas passagens engraçadas: na época usava ferro de carvão. Eu estava passando roupa e o meu irmão queria roupa para ir namorar. Ele só usava calça de gabardine branco e super bem passada, eu ficava passando, passando. Ele me amolou, eu joguei o ferro em cima dele. Sujei a calça dele toda e ele que viesse para casa tirar satisfação comigo. São coisas de muitos irmãos.
Barra de Guaratiba era um presépio Barra de Guaratiba era um presépio: o mar ia até um certo ponto e descia, não tinha nada. Tinha uma casa de farinha, onde se fazia a farinha, biju, a sola, que é uma coisa que se assa na palha de bananeira, depois toma com café. Na época mamãe secava peixe com bastante sal na bananeira. A gente amarrava, botava num varal e secava. Tinha na época muito peixe e não tinha para onde vender, e mamãe secava para a gente comer.
Quando eu nasci, tinha muito cafezal em Barra de Guaratiba. Com a ponte para ligar a restinga à Barra de Guaratiba, eles rasparam todo o aterro que tinha. Isso em 1942, 1945, quando foi inaugurada a ponte. Eu moro onde tem a ponte de dois arcos.
O comércio era uma venda para vender arroz, feijão e só. Também tinha um restaurante na praia, um arrastãozinho, que era uma barraca onde vendia peixe pronto, peixe frito, peixe ensopado e só. Não tinha mais nada.
Eu não saía de lá, era como se fosse uma outra cidade. Tinha o mascate, que ia vender as coisas nas casas, como roupa. Roupa não: fazenda. Tudo que ele achava de diferente levava para lá. Ele ia de burro, e era brasileiro. No Grumari, a estrada era horrível. Era uma outra estrada que chamava “Quebra Cangalha”, porque só subia burro. Não tinha a estrada de Grota Funda. A antiga Grota Funda tem o “Quebra Cangalha” e descia carro, que os carros eram bem pequenos. Ainda existe uma estrada de paralelepípedo chamada “Quebra Cangalha”. Mas também descia burro no Grumari. A Estrada do Grumari é pequenininha e é cheia de curva, também era “Quebra Cangalha”.
A maior parte dos meus filhos nasceu com parteira. Tinha um posto médico que não funcionava. Tinha um enfermeiro antigo, que costurava as crianças: quando quebravam a cabeça, eles que botavam no lugar. Tinha um dentista; ele era veranista, começou a ir para lá, ficou com muita pena da gente. Ele levava aparelhos para arrancar dente.
A gente sempre tomava banho de mar. Na praia não, no Canal da Ponte, que não era poluído como hoje. Papai não deixava ir para a praia. A gente nasceu ali no canal, a gente tomava banho ali no canal. O maiô era bem comportado, era de pano usado, não podia comprar pano para fazer maiô. A gente ia para a praia com os amigos, os vizinhos, mas não ia para se expor ao sol, ia tomar banho de mar. Hoje todo mundo vai e se estica no sol, pega câncer de pele.
Festas na adolescência Toda semana, todo mês tinha baile numa casa lá em cima. Papai também fazia muito baile para a gente dançar, era bom a beça. A música era de um senhor que tocava saxofone, e outro tocava sanfona.
Tinham as festas de São Pedro, tradicionais lá na Barra. Poucos pescadores que ainda existem são devotos de São Pedro e, quando não tem o pescador, tem o descendente de pescador que é ainda devoto de São Pedro. A minha família é devota de São Pedro. Essa festa é muito boa: tinha um leilão e a festa em si. Todo mundo brincava, saía de casa, era o dia de festa.
Depois foi evoluindo, evoluindo. Aí começa a pescaria, igual festa hoje em dia. Só não tinha briga, não tinha nada. Há muito tempo tinha o Padre José, que era muito nosso amigo. Ele levou nove anos na paróquia, e fazia festa, aquela coisa toda.
Então começaram os veranistas. Uns gostavam, outros não. Até hoje um gosta, outro não gosta de barulho. Mas eu brigo em casa porque, se não quer barulho, fica no centro. Nós em Guaratiba gostamos de uma festa de vez em quando, acho que nós somos filhos de Deus. Os veranistas que fiquem nos seus apartamentos.
Briga lá não tem. Não tem até hoje porque, quando tem, quando os vândalos vão para lá e fazem alguma coisa, a gente faz justiça com as mãos. Ninguém entende porque eu crio caso. Eu sou respeitada demais lá na Barra porque eu sou muito brigona.
Quando tinha casamento era uma beleza. Imagine um casamento de canoa: a noiva vai toda vestida de branco, arrumada, e o noivo vai também. Vão para a Pedra de Guaratiba, na igrejinha que tem lá, nossa Senhora do Desterro, na beira da praia. Casam lá, e vão embora para festa. Os convidados não podiam ir na canoa, porque só tinha uma canoa. No meu casamento teve de tudo. Peixe, camarão, porco, peru, pato, galinha, carne... Eu casei com homem que eu nem gosto de dizer o nome, era mineiro. O nome dele era Peri dos Santos Leal. Todo mundo comeu à vontade, e bebia vinho.
Militares mudaram a região Chegaram os militares na década de 40, porque ali era área de segurança nacional, era muito visado. Como era mar aberto, ficou para preservação. Eles estudaram, viram aquilo tudo abandonado e foram para lá fazer a ponte. Eles foram para uma casa que já existia, era dos escravos, uma casa bonitinha, de tijolinho. Mamãe cozinhava para eles.
Quando constróem a ponte, a gente tem que sair. Aquela parte toda foi demolida e fomos para o lado de cima da rua. Papai comprou o terreno e o Exército fez a casa. Demoliu tijolo por tijolo, porta, janela, e fez a casa do outro lado. Não tinha nada, só mato, tinha muito cafezal. O nome da rua é Caminho do Souza porque só Souza foi morar naquela rua, a família toda fez casa ali, mais ou menos em 1945, 1946. Não tinha luz. Quando a ponte foi para lá que puxaram um fio, um único fio para abastecer o alojamento. Puxamos um fio lá para casa, mas era um fio só para uma lâmpada. O resto era lamparina, lampião.
Durante a guerra, papai trancava a gente dentro de casa porque não sabia como era. Tinha também aquela coisa dos submarinos que a gente via ali... A minha tia, madrinha do meu pai, tinha uma casa estratégica. Ela foi do Barão de Guaratiba, depois de uma porção de gente, e ficou para ela. Ela tinha uma luneta antiga e a gente ficava olhando.
A pesca foi transmitida do avô para o pai, dele para os irmãos e para os filhos de Palmira Meu pai saía de madrugada para pescar, e a pescaria antigamente não tinha tanto conforto quanto hoje. Ele ia longe para buscar peixe; na época da tainha, ele vinha até o Recreio, e, quando não podia voltar, a gente tinha que subir o morro para poder ver onde estava a canoa, que o meu pai não sabia nadar. Era pescador que não sabia nadar.
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