IDENTIFICAÇÃO
Nome, local e data de nascimento Meu nome é Irany Domiciano Ferreira. Nascido aqui no Rio de Janeiro na antiga Favela da Praia do Pinto em 17 de outubro de 1960. E dali me mudei para a Cruzada São Sebastião. Domiciano por parte de pai e Ferreira também. O homem pega sempre a parte mais do pai. E a mulher pega a parte da mãe.
Nome e origem dos pais Meu pai é Nerindo Domiciano Ferreira é carioca e minha mãe Maria do Carmo Rosa Ferreira, que leva um pedaço do nome do meu pai. Ferreira. Minha mãe escolheu meu nome, porque na minha família foi: Irany, Alany, Irene, Ailton, Homero, Sandra e Rosangela. Uma escadinha. Sou o caçula dos homens. O meu avô por parte de pai se chamava Ieié. É o único que conheci. Mais ninguém. Ele tinha um sítio, tinha plantações, tinha criações. Eu curtia essas criações que ele tinha. Era em Jacarepaguá. Eu era pequeno, não me lembro muita coisa.
INFÂNCIA Infância na Favela do Pinto A Favela do Pinto era ali agora em frente à décima quarta DP [Delegacia Policial], que hoje em dia se chama de Selva de Pedra. Fizeram um conjunto residencial grande lá. Aqueles prédios monstruosos que estão lá, no Leblon. Disseram que pegou fogo, mas botaram fogo. Meu pai tinha comprado uma casa na Cruzada são Sebastião [em frente à antiga Praia do Pinto] e fui morar lá. E lá eu estou até hoje. Não tenho muita lembrança desse incêndio porque eu era criança. Me lembro um pouco. Na Praia do Pinto tinha aquela favela, beirando o canal tinha o Expressinha. Um Posto Médico. E tinha um Minhocão, que era mais em cima, onde consultava o pessoal. Aqui, além do [Hospital] Miguel Couto tinha mais duas unidades médicas perto. Acabaram com tudo. E agora nós só temos mesmo o Miguel Couto e o Minhocão.
Brincadeiras Eu não podia brincar muito. Era muito peralta. Muito barulheira, muito tiro, muito bagulho. Minha infância ali mais foi bola de gude, pião. Bater na porta dos outros. Tocar campainha. Quebrar a escola. Minha maior infância: pião, bola de gude, pipas. Lá mesmo. Tinha espaço. A gente fazia as pipas. Tanto fazia como a gente comprava nas barraquinhas vizinhas, tipo uma birosca. A birosca tinha tudo. Tinha coca-cola, cerveja, pirulito, bala, doce. Papel higiênico, arroz. Sempre que faltava uma coisinha a gente corria lá e apanhava. A varejo. A saca ou a varejo. A gente comprava sempre um quilinho. Podia comprar meio quilo. Nessa época até o mercado vendia. Hoje em dia só vende tudo ensacado, saquinho de quilo. Na época do meu pai – que Deus o ponha em um bom lugar –, eu como criança eu nunca precisei de nada, meu pai era mestre-de-obras. Ele comprava saco fechado. Comprava coisas na fartura. Às vezes a gente ia na barraquinha comprar uma coca-cola, um refrigerante. Comprava por lá. mas que faltasse, eu lembro que meu pai nunca me deixou faltar nada dentro de casa. Trabalhava longe. É só aqui mesmo no Centro da cidade. Voluntários da Pátria, Copacabana. Estava tudo em obra. Mas era bem diferente, menina brincava separado dos meninos. Não tem negócio de misturar. Entre os irmãos havia mistura. Mas se não fosse irmão não tem negócio de coleguinha não. Menina com menina, menino com menino. Tinha gás de bujão. Quando um trabalhava o outro fazia o dever da casa. Lavava uma roupa, limpava a casa. E assim sucessivamente.
Pesca na Lagoa Rodrigo de Freitas A gente pescava. Tanto é que até hoje de vez em quando eu pesco. Pesco siri, pesco tainha, às vezes dá camarão também. E camarão do bom. Siri do bom e tainhas boas. Dá robalo e corvina. Robalo é o peixe de qualidade mais caro que tem. Lá a gente pega muito. Siri, o graúdo, vermelho. A Lagoa é um órgão que recebe água de rede fluvial. E ali ela desemboca na praia. Direto pelo canal. O canal é onde o desfruta de cada coisa que sai, siri, camarão, as tainhas. O mar entra no canal, quando o mar está baixo a onda sai de volta.
Agora eu posso ser dono de mim mesmo. Eu tenho a minha própria tarrafa. Antigamente dependia de terceiros. E lá ninguém dá nada para ninguém. Caso contrário tem que comprar. Tinha muito vizinho que pescava. Hoje em dia até um bocado deles são mortos. Meu irmão, principalmente, eu me lembro até hoje, pescava. Tanto pescava como fazia tarrafa. O vizinho de cima, o do lado. Todo mundo sempre tinha um jogo de cintura para pegar um peixinho. Porque não podia viver só de mercado. Cansei de nadar ali. Aprendi a nadar e agora desaprendi a nadar de novo.
Nado o suficiente só para não morrer afogado, mas não tenho mais aquela resistência. Antigamente, eu era que nem peixe. Eu nadava, entrava ali e saía. Agora não está assim. A gente evita até entrar naquela água Muita gente fala que aquela água ali é poluída. Não é poluída. Não é poluída, porque aquilo é rede fluvial. Eles não sabem distinguir uma água poluída. Lá tem várias saídas de redes fluviais. Pode ter alguma boca de lobo, algum esgoto que se possa jogar ali. No canal mesmo do Jardim de Alá. Alguma coisinha que escapa. Mas o esgoto em si não joga ali. Nós temos o esgoto separado, é da Cedae. Esgoto mesmo é ali no [Canal do] Mangue, na Leopoldina. Passa ali, o cheiro é insuportável.
Do jeito que a Zona Sul está agora, tão chata, uma coisinha que fede ligam logo para o prefeito. O prefeito vai lá. Quebrou um pedacinho de rua eles ligam: “Está quebrada, a rua.” Eles vão lá e consertam. O pessoal de Zona Sul é muito comodista. Não gostam de nada fedorento. Antigamente tinha mortandade. Quando morre um peixinho, ligam para a Comlurb, ligam para o César Maia, liga para o nosso presidente mandar tirar, resolver aquilo. Dá de vez em quando, o mau cheiro. Mas não é da água. O mar toda hora entra e sai. A água está sempre se renovando. Não tem como aquela água ficar podre.
Eu como do peixe de lá, faço filé daquele peixe, é sadio. Eu não posso falar. Teve mortandade, mas na época das mortandades ali eu ainda era menor. Não acompanhava muito aquilo. Mas sempre teve a mortandade. O canal fecha porque o mar bota água. Faz um barranco na frente, fechou, a água não sai. Esquenta a água, o lodo sobe. O lodo é a respiração do peixe. E faz a oxigenação da água. Não tendo isso normalmente vai ter que morrer peixe.
EDUCAÇÃO Minha escola, até hoje tem, é Escola dos Santos Anjos. Eu estudei um bom tempo nos Santos Anjos. Que é lá mesmo. Na Cruzada São Sebastião. E depois eu fiz o ginásio. E do lado do canal tem uma escola. As três escolas que eu já freqüentei. E eu só parei o meu estudo nessa época porque eu tive que trabalhar para ajudar minha família. Com 9 anos, eu lembro porque eu era boleiro de clube.
ADOLESCÊNCIA Diversão Tinha um baile. Geralmente a gente fazia o baile. Cada um tinha ali vitrola, tinha amplificadores. E a gente fazia nossa discoteca. Eu fui muito no Sport Club da Gávea. Lá tem um clube maravilhoso. E na própria Escola Santos Anjo o final de semana a gente fazia baile lá. A gente não. Os pessoal alugava e fazia o baile. E cada um que entrava cobrava, pagava um dinheirinho para entrar no baile. E aí que rendeu um lucrozinho. Dava para ajudar também nas escolas. E manutenção em geral. Agora mudou muito. São funk e charm. Eu gosto de dançar charm. Eu gosto bastante. Eu não saio, eu prefiro mais ouvir. Não sou muito de dançar. Só quando dá uma companhia. Eu prefiro escutar um som, um charm, baixinho. Tomando cervejinha, no sapatinho. Até dar a hora do sono. Quando dá sono vai lá e desliga.
TRABALHO Primeiros empregos Trabalhei no Clube Monte Líbano, no [Clube] Caiçara, na AABB [Associação Atlética Banco do Brasil] e no [Clube] Paissandu. Boleiro. Os tenistas joga bola. A gente recolhe aquelas bolinhas e devolve nas mãos deles. Para eles não terem que parar o jogo. É tipo no futebol, eles só jogam, só chutam. Só sabe chutar. Não sabem aonde vai a bola. Sempre tem outra bola perto para eles jogarem. Fui boleiro estudando. Dava só para ajudar com uma coisinha em casa.
Trabalhei um pouco na padaria. Na padaria Eldorado. Na Visconde de Pirajá. Eu fui entregador de pão de manhã, 7 horas saía, ia para a a escola. Eu chegava da escola, botava o macacão, um macacão azul. Eu entrava no clube mais tarde, no turno da tarde. Eu cheguei a jogar mas não sou tão bom nisso, não. Tem que ter munheca, dá muito problema na munheca. Fiquei uns 5 anos, 6 anos. De um clube passava para o outro.
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