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Paulo Reglus Neves Freire

Nascimento: 19/09/1921,
Recife
Profissão: Educador - Professor
Projeto: Museu Aberto

Nasceu em Recife, Pernambuco - PE, em 19/09/1921, teve dois casamentos, cinco filhos, e foi um dos mais importantes educadores do Brasil. Formado em Direito, começou sua vida profissional como professor de língua portuguesa. Conhecido mundialmente pelo seu método de alfabetização para adultos, Paulo Freire foi perseguido pelo governo durante a ditadura militar e viveu vários anos no exílio. Voltou ao Brasil em 1980 e faleceu em 1997.


 
 

 

P - O seu nome, o nome de seus pais, a data de nascimento e onde o senhor nasceu?

R - Meu nome é Paulo Reglus Neves Freire, sou filho de Joaquim Temístocles Freire, nascido no Rio Grande do Norte, e de Edeutrudes Neves Freire, nascida no Recife, Pernambuco. Ambos obviamente falecidos, seria uma coincidência muito feliz não? Meu nome é Paulo Freire, quer dizer, eu já disse meu nome inteiro, sou conhecido como Paulo Freire, nasci em 19 de setembro de 1921 no Recife.

P - Queria primeiro que o senhor falasse sobre a sua infância? A relação com a família, o cotidiano, as brincadeiras...

R - Bem, eu nasci, como acabo de dizer, em 1921, e portanto, na década que viveu a experiência, a primeira grande experiência de quebra da economia capitalista. Foi exatamente na década em que começou a grande crise de 29, e isso teve uma influência grande, uma repercussão grande sobre a minha família. Minha família é uma família de classe média relativamente bem aquinhoada, e que sofre um impacto grande com a grande crise capitalista. Meu pai era oficial da Polícia Militar, de Pernambuco, mas por um lado um homem também de classe média, do Rio Grande do Norte, e pelo lado de minha mãe, a família tinha uma situação econômica melhor. Mas, a crise de 29 incide exatamente sobre esse lado materno, e isso provocou na família a experiência de certas necessidades básicas. Quer dizer, num primeiro momento, a repercussão da crise, como era normal, afeta certos gostos supérfluos. Então, se a família de minha mãe costumava ter na velha casa grande onde eu nasci, na Estrada do Encanamento, no Recife, se a velha casa grande recebia duas vezes por mês amigos para almoço, começou a rarear isso. Eu sei que em 26, por exemplo, em 27, a coisa já não ia nada bem e a situação começou a se agravar, e a gente começou a ter cortes maiores. Depois, em 29, a partir dos primeiros anos de 30, as dificuldades eram tais que nós, eu, pelo menos, me lembro de que nós começamos a ter uma experiência, mesmo que discreta, ainda que não tão dramática, mas uma certa experiência de limitação ou de diminuição na própria comida em casa, quer dizer, passamos a comer menos. E isso tudo era compensado pelas fruteiras, pelos frutos, pelas árvores frutíferas que nós tínhamos não apenas no quintal da nossa casa, mas também nos outros quintais.

Mas em 34 a coisa se agravou de tal maneira... não, em 32, a coisa se agravou de tal maneira, que minha avó perdeu essa casa grande onde eu nascera, em Casa Amarela, um grande sítio, não houve possibilidade de recuperá-la; e dessa maneira, nós fomos obrigados - a família, eu era menino - foi obrigada a largar o Recife, e a se adentrar um pouco para o interior, numa espécie assim de solução mágica que a família dava, pra ver se saindo do centro urbano mais forte, era possível sobreviver. E aí então minha família se muda do Recife para Jaboatão, que é uma cidade a 18 quilômetros do Recife. Ela hoje, apesar de manter sua autonomia política, ela hoje está a 10, 15 minutos do centro do Recife, é uma cidade quase que um prolongamento do Recife, mesmo que seja autônoma, tenha a sua política, o seu governo municipal.

Naquela época, ir a Jaboatão era uma espécie de viagem. Eu me lembro do dia da mudança, eu fui com o meu pai num caminhão, com os últimos terens da gente, possivelmente no segundo ou terceiro caminhão, e era um dia todo, quer dizer, não havia calçamento sequer. No entanto, hoje você faz isso com uma rapidez enorme. Fomos lá para Jaboatão num lugar chamado Morro da Saúde, que sempre quis ir, que sempre posso, toda a vez que vou. E lá então eu tive uma experiência, a primeira continuidade da crise que até se agravou mais ainda. Meu pai tinha sido reformado muito jovem, por questão de saúde, não trabalhava; a sociedade brasileira é fechada demais, na época não havia o que fazer mesmo, e ele passava o dia em casa ou lendo, ou trabalhando numa oficininha que ele mesmo montou , fazendo gaiolas, fazendo isso, fazendo aquilo, e a gente ao lado dele. Então nós tivemos a vantagem de, tendo sofrido a crise, ter tido a presença paterna, numa sociedade machista como a nossa, uma cultura machista como a nossa, tivemos a chance, por acidente, de conviver diretamente com a figura paterna, que é uma coisa também fundamental, coisa importante.

E lá em Jaboatão, onde eu aprendi muita coisa, em primeiro lugar, aprendi a ampliar o meu mundo. Porque no Recife, o meu mundo, na Estrada do Encanamento onde eu nasci, se adstringia ou se restringia ao quintal, mesmo grande da casa, e em Jaboatão esse mundo cresceu um pouco, eu era um menino que mudei também de sociologia porque quando eu deixei o Recife fui morar em Jaboatão na beira de um rio, então aí mudando a sociologia mudei um pouco também a psicologia, mudei a ecologia, quer dizer, passei a sofrer influências que eu não sofria antes, e que foram muito interessantes pra mim, muito marcantes. Eu ampliei o universo de amizade, passei a ter em Jaboatão meninos que ficaram meus amigos e até hoje um ou outro ainda sobrevive, e que eram meninos filhos de camponeses ou filhos de trabalhadores urbanos, por exemplo, da cidade ferroviária na época, que era Jaboatão.

Mas a experiência da fome cresceu de um lado, mas era fome de mercado. De produtos do mercado. Aí a gente não tinha dinheiro pra comprar. Mas não havia a fome rigorosa porque a gente tinha as frutas em abundância e bem mais fáceis do que quando a gente morava no Recife. Naquela época realmente, morando onde eu morei, em 1932, em Jaboatão, dificilmente uma criança podia passar um dia inteiro sem comer - porque podia passar até um mês sem comer feijão, por exemplo, sem comer carne, e isso teria repercussões, claro - mas não passava sem comer. Porque havia manga, havia jaca, havia banana, havia tudo, ainda , além do mais havia ovos, também, de galinhas andarilhas, que punham pelo quintal dos outros, no mundo; esses terrenos eram o Mundo, e portanto, eu era um menino do mundo, e achava os ovos das galinhas incautas. E então trazia os ovos pra casa e não só eu, mas, meus irmãos e minha mãe comiam.

Éramos quatro, hoje somos três. Morreu o mais velho. Recentemente. Mas, essa experiência, que foi uma experiência de um lado de fome, do outro uma experiência de discriminação, eu via, por exemplo, como os meninos de classe média abastada discriminavam os meus colegas, os meus amigos filhos de camponeses. E nos encontrávamos no sítio, por exemplo, num lugar, num espaço, num terreno, em que, mesmo com discriminação, era possível uma convivência , que é exatamente num campo de futebol. No bate-bola havia uma convivência que escondia as discriminações. Mas eu entrevia e percebia. Talvez percebesse mais do que entendesse a discriminação e sempre me pus contra. Quer dizer, desde menino que eu quase que me arrepiava diante de qualquer manifestação discriminatória. Não importa de que. Discriminação, até já naquela época discriminação religiosa. Me irritava, me irritava discriminação racial, me irritava discriminação contra a classe, por exemplo, o que eu não entendia como classe, mas entendia como o menino pobre, contra o menino preto, etc. Eu ainda não me arrepiava, naquela época, na infância, era contra a discriminação que só depois de muito tempo eu percebi, que é a discriminação do sexo. A discriminação machista contra a importância e contra os direitos da mulher. Ali era meio difícil que eu percebesse porque eu era também um produto dessa cultura machista. Eu estava sendo de certa forma moldado machistamente para reproduzir exatamente a ideologia machista que eu devo ter reproduzido durante algum tempo. Mas depois me concertei. Acho que hoje sou pelo menos um pouco menos machista do que era.

Agora, mas o que eu queria salientar a vocês, e a quem depois, sei lá, daqui há anos me escute, pra me estudar, era a importância de certas privações. Na época, a importância que essas privações proporcionaram. A própria experiência de uma fome não austera demais, não rigorosa demais, foi importante para mim, foi fundamental. Porque eu era um menino que tinha uma constante que era a de ser curioso. Curioso todo o menino é, e todo o ser humanos é. Eu até diria que o fenômeno vital é curioso, em si. Mas eu vivia a curiosidade. Eu me indagava muito, muito mais a mim mesmo do que aos outros. E me perguntava, eu procurava. Para entender porque eu não comia e outros comiam. Quer dizer, desde tenra idade eu me preparava para me opor às injustiças sociais. Mais tarde, quando jovem, quando homem, quando adulto, etc, eu comecei a me lançar no esforço político-pedagógico e então tudo isso veio à tona. Quer dizer, as memórias de mim mesmo me ajudaram, isso que eu chamo de tramas, me ajudaram a me entender nas tramas de que eu fiz parte e a descobrir a dimensão política e ideológica disso tudo, e a questão do poder. Então, em síntese, se você me pergunta: "Paulo, você acha que sua infância foi trágica?" Eu digo: "Não. Foi dramática" Quer dizer, eu pude oferecer, anos depois, a meus filhos, uma infância e uma adolescência que eu não tive, mas nem por isso me tornei um pai licencioso, e um pai que procurava oferecer, custasse o que custasse aos filhos, o que ele não tinha tido. Eu nunca achei que isso também era correto, era uma boa pedagogia. Mas eu fiz tudo o que era possível, só não fiz o impossível, o impossível que eu achava que não podia ser feito, nem devia ser trabalhado. Mas tudo para que os meus filhos tivessem experiências um pouco melhores, mais favoráveis. Mas, se você me pergunta ainda : "Você acha que você aproveitou a tragicidade ou a problematicidade da sua infância? Eu diria que acho que sim, e acho que ela, apesar de tudo, foi pra mim altamente positiva como apontamento de caminhos, como colocação de dúvidas, de incertezas, e como descoberta de certos valores que me são hoje ainda caros. Em síntese, eu acho que é isso que eu podia te dizer da infância, da adolescência, o meu gosto da vida, o meu gosto da vida vem de lá.

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