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P - Como mudou? Estudou, saiu pra trabalhar...
R - Ah, bem. Esse é um momento importante, e que tem a ver com a tua pergunta. Eu tinha, na verdade, um enorme gosto pelo estudo. Mas pra vocês terem uma idéia, eu fiz um exame chamado de admissão e entrei no primeiro ano com 16 anos de idade. Quer dizer, exatamente quando colegas meus, de geração, estavam entrando na universidade, ou na faculdade, naquela época. Quer dizer, eu fui um estudante que começou atrasado. Minha escolaridade foi uma escolaridade tardia. E você poderia então perguntar: "E você perdeu, então, muito tempo". Não, não perdi, eu acho que você não vive perdendo tempo à toa. Eu não estava me escolarizando-me na escola, eu estava educando-me no mundo. Eu posso não ter feito a escola primária durante aquele período em que não fiz, mas eu aprendi muitas coisas fora da escola, e apesar da escola. Mas por outro lado, se havia uma dificuldade para eu estudar, por exemplo, o Recife na época só tinha um grande ginásio oficial, com uma carga enorme, e o resto eram algumas escolas privadas. E eu não tinha dinheiro. Eu não tinha condição de entrar na escola oficial, que era muito exigente, tinha... entrar naquele ginásio, chamado Ginásio Pernambucano, que era uma coisa seríssima, realmente, era como fazer certos vestibulares para certas universidades muito famosas. E o que é pior, eles reprovam. E eu não tinha dinheiro e minha família não podia pagar uma escola privada. E eu não tinha também como me preparar muito bem para enfrentar o chamado exame de admissão do tal ginásio.
Com muito sacrifício eu fiz um exame de admissão através de uma escola privada, que fazia provas num outro colégio, era uma complicação até que já eu esqueço. Quando terminei o primeiro ano de ginásio, eu fiquei na iminência de não ter a continuidade, de não ter o segundo ano. Então, minha mãe procurava, quase todo o dia ela vinha ao Recife procurar, com uma grande ternura, ver se achava uma escola privada que me desse uma bolsa de estudos. Voltava triste, que não tinha encontrado. E sempre voltava, e eu ficava em casa esperando. E ela então lá um dia , ela saiu e disse: "Paulo, hoje vai ser minha última tentativa." E quando voltou, veio risonha e feliz e me disse que tinha encontrado. Na verdade, ela passou nesse dia por uma rua do Recife, e viu lá uma grande placa escrito Ginásio Oswaldo Cruz, entrou e falou com o diretor, que, por coincidência, é o pai exatamente de minha segunda mulher hoje, pai da Nita, que tinha quatro anos naquele tempo. E de quem fui professor depois. E ela falou com o dr. Aluísio, que era o pai dela, e ele disse: "Está bem, se o seu filho for estudioso, não tem problema, eu dou o estudo a ele." E foi aí que eu entrei, e tenho hoje uma grande dívida, eu quero um enorme bem a ele, que já morreu, eu sou muito grato a ele e a mãe de Nita, que está viva, com 90 anos hoje no Recife, e eles me receberam no colégio e eu fiz lá então do segundo ano do ginásio até o último ano do curso chamado pré-jurídico, que eu terminei fazendo o curso de Direito. E lá eu me tornei professor, também. Eu tinha um gosto, que continuo, que preservo, hoje, um gosto muito grande por problemas de linguagem, e estudei muito a chamada gramática, ou a sintaxe da língua portuguesa, e me tornei professor do próprio colégio, depois. E daí em diante eu nunca mais parei de gostar de estudar.
Mas o meu gosto não era pela advocacia, eu descobri isso no começo, logo, agora acabei de escrever um livro onde eu conto esta história: a minha primeira causa, ainda para me formar, foi com um jovem dentista que comprou um equipo dentário e não pôde pagar. E eu era advogado do credor dele. E chamei-o ao meu escritório, ele veio, começou a conversar comigo, era um sujeito da minha idade e disse: "É Dr. Paulo, eu não posso pagar, e o senhor não vai poder me acionar contra, não pode tomar meus instrumentos de trabalho." A lei não permitia, realmente. "Nem tão pouco minha filhinha. Mas o meus móveis o senhor pode tomar." E eu deixei de ser advogado naquele dia. Eu disse pra ele: "Olhe, vá para casa, passe no mínimo 15 dias em paz com tua mulher, porque daqui a 15 dias eu vou devolver essa causa. E o teu credor vai ter mais uma semana pra arranjar outro advogado como eu, e aí é que vai te aperrear de novo, daqui uns 15 a 20 dias." E larguei, até hoje, definitivamente. E me dediquei exclusivamente à pedagogia. Foi daí pra cá que eu comecei e aí depois fui trabalhar no SESI, de Pernambuco, onde eu tive toda assim uma experiência fantástica, que me deu a possibilidade de refletir teoricamente sobre o que eu via e o que eu fazia e eu escutava. E isso tudo, o Paulo Freire de hoje vem não só disso, mas através disso.
P - O senhor chegou a ser professor da Universidade do Recife?
R - Sim, terminei sendo professor de História, de Filosofia da Educação, da Universidade do Recife, e foi exatamente como professor da Universidade do Recife que eu defendi uma tese universitária, que eu acho que é ainda hoje atual, profundamente atual. Essa tese anunciava a Pedagogia do Oprimido, como anunciava o livro que eu termino agora, que eu terminei, que vai se chamar Pedagogia da Esperança. Essa tese tinha as matrizes disso tudo, e eu defendi essa tese, e num concurso, com uma concorrente, e não fui reprovado, mas tirei o segundo lugar. E foi defendendo essa tese, tirando o segundo lugar, que eu ganhei legalmente o título de doutor em Pedagogia. Não fiquei com a chamada cátedra antigamente - hoje você nem se sabe mais o que é isso -, mas fiquei com o título de doutor, e fui confirmado como professor adjunto na Faculdade de Filosofia, em outra faculdade. Essa tese, que se chamou Educação e Atualidade Brasileira, foi ou teve núcleos centrais básicos, que se desdobraram depois no livro Educação como Prática da Liberdade, e que anunciavam também, a Pedagogia do Oprimido, que escrevi depois, aí já no exílio.
P - E quando o senhor começou a colocar em prática o seu trabalho. Aí já tem toda uma filosofia de educação, como o senhor começou a colocar em prática?
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