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R - Antes , eu coloquei tudo em prática e aprendi a perceber a teoria dessa prática quando eu trabalhei no SESI, os dez anos. Foram dez anos de intensa pesquisa, ao lado de um estudo muito sistemático, teórico, que eu fazia constantemente comigo mesmo. Trabalhei então no Recife durante toda essa época, ora assessorando grupos que trabalhavam em escolas primárias, ora trabalhando diretamente, eu mesmo, com adultos, em educação popular. Não tenho dúvida nenhuma de que aquele período dos fins dos anos 40 e todos os anos 50 foram profundamente fundamentais do ponto de vista da minha formação política e da minha formação científica, também ideológica, mas nos morros do Recife, nos córregos do Recife, nas áreas rurais de Pernambuco. Aí então, eu criei o serviço de Extensão Cultural da Universidade de Pernambuco, que existe ainda hoje, formação de quadros pra professores, pra jovens estudantes. Até chegar o governo de Goulart, quando, sendo o ministro da Educação Paulo de Tarso, aqui de São Paulo, foi secretário do Montoro, da Educação, ele me carrega pra Brasília pra eu coordenar o Plano de Alfabetização Nacional, em 1963.
Antes disso, em 61, creio, em 62, nós fizemos um grande trabalho em Angicos, no Rio Grande do Norte, sob a liderança do então jovem Marcos Guerra, que é hoje o secretário de educação do estado do Rio Grande do Norte. Marcos era estudante universitário na época, e eu fiz um trabalho em Angicos, com o secretário da Educação, Teupai, que era o secretário da Educação do Rio Grande do Norte da época, que me procurou em Recife, e me levou pra lá e eu fiz uma série de exigências de ordem política ao então governador, do RN; ele aceitou as exigências e nós fizemos um bonito trabalho em Angicos, com a juventude. E se alfabetizaram 300 e tantas pessoas num período de 2 meses, por aí, ou três, e o João Goulart foi ao encerramento desse trabalho, e viu aquilo, e ficou muito tocado por aquele trabalho que se realizou no RN. Em seguida, o ministro dele da época, que ainda era um paulista até também, saiu do ministério e ele levou o Paulo de Tarso. Quando o Paulo de Tarso chegou ao ministério me trouxe para implantar esse plano de alfabetização, que foi abortado, precisamente, pelo golpe.
P - O senhor lembra do fechamento de Angicos, eu li isso numa reportagem no jornal, com as autoridades todas, um senhor de 70 anos, ele falou que maior que a fome da barriga é a fome da cabeça.
R – Inclusive, ele fez um discurso, foi muito interessante, porque o presidente da República já tinha encerrado a reunião, quando ele pede a palavra, quer dizer, não tinha nada que ver com os protocolos. Ele pede a palavra pra falar, e eu me lembro que um dos presentes da comitiva do presidente disse assim: "Eita, quebrou o protocolo"! Ele virou-se e disse: "Quebrei o quê?" E ninguém respondeu mais. E aí o João Goulart , que era um homem muito simples, o presidente Goulart, disse : "Pois não, pode falar". Ele levantou, e disse: "Alteza, chamou o presidente Goulart de Alteza. Aí disse: "Me lembro de que, uma vez, mais ou menos assim, houve uma fome muito grande nesse Estado, e outro presidente, que era o Getúlio Vargas veio aqui, ao RN, para ajudar a gente a sair da fome da barriga. E hoje veio Vossa Alteza pra ajudar a gente a matar outra fome, a fome da cabeça, a fome do saber". Depois ele disse uma coisa que a imprensa, todo o mundo não deu, não noticiou, ele disse: "Nós aprendemos aqui, presidente, mais do que assinar o nome, do que ler um bilhete, nós aprendemos aqui a mudar, também” - sim, porque o João Goulart tinha citado no discurso dele a leitura da carta do ABC do país, que era a Constituição. E ele disse: "Nós aprendemos, presidente, mais do que ler a carta do ABC do Brasil, aprendemos a mudar ela também." Isso é uma coisa fantástica, e esta afirmação dele não foi citada pela imprensa na época. Não foi. Mas ele disse isso. E deve ter agravado essa frase dele, ele deve ter agravado os líderes do golpe que em seguida se deu. Se deu no ano seguinte. E eu me lembro que estava presente nessa reunião e ouviu essas frase o general, então general, o marechal Castelo Branco. E ele estava presente, e era na época comandante do IV Exército. E ele foi pra lá.
Mas naquela altura, ora você imagina, isso deve ter sido junho de 63... o golpe foi em abril de 64, quer dizer, naquela altura, o Castelo Branco tinha já o esquema todo do golpe, não há dúvida. E ouviu essa frase desse homem. Depois ele falou comigo e disse: "Professor, eu acho que o senhor defende uma pedagogia sem valores." Eu nunca esqueço desse papo com o Castelo Branco. Eu disse: "Não, general, eu acho que pelo contrário...” Não, ele falou uma pedagogia sem hierarquia. E eu disse : Não, o senhor está equivocado, eu defendo valores e os valores estabelecem hierarquias; agora só que o que é que eu acho é que a hierarquia que está aí montada e estabelecendo princípios, pra nós, está precisando mudar. Eu acho que está montada em bases injustas, etc..." E ele falou pra mim: " E o senhor aceita de falar pra nós no IV Exército?" "Falo onde o senhor quiser." Mas não deu mais nem tempo. E eu acho que aquele discurso acabou. Porque o discurso daquele homem não ajudou, de jeito nenhum, o amaciamento do golpe. Deve ter, eu não diria que o discurso do homem foi causa do golpe, seria uma loucura da minha parte, a história não é tão simples assim, mas o discurso do homem deve ter aguçado um pouco as preocupações conservadoras de então. Quer dizer, hoje, você vê como a história é bonita, um discurso desse hoje não deixaria muita gente demasiado assustada. Só um ou outro, mais conservador. Mas naquela época, um discurso desse assustaria 99% dos conservadores.
P - O senhor não estava contando outro dia a história do raio da morte?
R - O raio da morte, era uma coisa, porque a gente estava convencido, na época, já, de que era preciso usar tecnologia. Quer dizer, você não pode transformar educação, reduzir a educação à tecnologia. Precisa mais do que isso. Mas você não pode negar, primeiro, a possibilidade do uso, segundo a eficácia do uso. Mas a gente queria fazer isso de forma que não onerasse demais o próprio povo, e não era possível estar pensando na importação de projetores norte-americanos que custavam 22, 25 dólares, na época. Que era muito dinheiro, pra época. E a gente vivia procurando um jeito de como é que pode projetar. Quando um dia eu recebo um telegrama: "Descobrimos o raio da morte." E eu fiquei sem saber que diabo era. Imagine só que, felizmente, não encontraram esse telegrama, porque se o exército tem pegado esse telegrama, tinha sido uma complicação dos demônios, quando eu fui preso. O raio da morte que ia matar o exército todo. Muita coisa foi assim, que se fez. E o raio da morte era um projetor... eu não sei bem descrever o raio da morte, mas sei que ele jogava com um negócio de uma lâmpada, uma lanterna, e o fato é que o raio da morte projetava direitinho e o povo adorava.
Mas olhe, o trabalho de Angicos, eu até disse pro Marcos, quando ele assumiu, valia a pena fazer uma pesquisa, que nunca foi feita, uma pesquisa pra levantar, não apenas do ponto de vista da alfabetização, que foi feita na época, que possivelmente se tenha acabado, mas entre os que viveram aquela experiência, ver as influências no campo da política, por exemplo. Eu estive com o homem do discurso há 10 anos. Quando eu cheguei do exílio houve uma comemoração lá em Natal, eu fui e ele estava também, no almoço, e lembramos tudo, etc. Porque houve greves, durante aquele trabalho, houve a primeira grande greve de operários da indústria. Uma coisa linda...eles se juntaram, se mobilizaram, em função da discussão política que eles tinham um potencial, se alfabetizaram e partiram para defender seus direitos. E fizeram a greve e foram vitoriosos. No começo, me disse o Marcos, houve uma tentativa de os municípios vizinhos a Angicos remeterem os seus empregados pra lá em caminhões pra acabar com a greve, pra fazer o fracasso da greve; e os estudantes, que eram os educadores, souberam disso e foram com os próprios operários para o meio da estrada e paravam os caminhões que vinham das outras cidades e faziam preleções aos outros operários e eles voltavam, e aí a greve vingou. Quer dizer, isso é um exemplo extraordinário, você já imaginou se a gente pudesse hoje estudar isso com gente da época, pegar essa memória. Isso, pra mostrar a importância de um trabalho feito em três meses. Três meses! No sentido da cidadania. No sentido da invenção da cidadania. Quer dizer, uma educação lúcida, uma educação crítica. Mas o Marcos estava até muito animado, mas ele mesmo não pode levar...
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