Roberto da Silva
Roberto da Silva é mais do que um sobrevivente. Usou sua própria história de vida de ex-interno da Febem, de ex-menino de rua, separado de pais e irmãos, de ex-presidiário durante sete longos anos na Casa de Detenção para iniciar, de forma corajosa, a reconstrução de sua história e a de muitos garotos, companheiros de infortúnio e prisão. Começou ainda como detento sua tentativa, reprimida pela polícia, de organizar os presos em uma associação.
O trabalho, reiniciado fora do presídio, foi interrompido bruscamente pela perseguição policial. Refugiou-se em outros estados e, depois de dez anos, quando retornou a São Paulo, formado em Pedagogia, vasculhou órgãos públicos para resgatar sua história e a de outros 60 órfãos adolescentes como ele. Começou ali, oficialmente, o programa História do Presente, que trabalha com as questões penitenciárias em São Paulo.
Entre outras ações, a organização implantou o programa Cidadania no Cárcere, um modelo de gestão comunitária de prisão adotado pelo estado e gerido em colaboração com entidades não governamentais. Atualmente, Roberto da Silva dedica seu tempo ao Centro de Documentação e Estudos que leva seu nome. Seus esforços se concentram no projeto que visa à realização do Censo Nacional de Abrigos, com o objetivo de resgatar a história da criança abandonada no estado de São Paulo, e na luta pelo cumprimento do Estatuto da Criança e do Adolescente.
:: Um órfão que conheceu e “perdeu” a mãe aos sete anos
Roberto da Silva tinha pouco mais de dois anos quando foi separado da mãe e dos três irmãos no centro de São Paulo. “Quando as crianças foram tiradas de minha mãe, ela passou a procurá-los em diversas unidades da Febem em todo o Estado. Lembro-me muito bem dessa idade, sete anos, porque fui localizado e recebi a visita de minha mãe, em uma dessas unidades. Eu estava em um galpão com cerca de 150 outras crianças. Até então eu não imaginava que alguém precisava de uma mãe, nem tinha noção do que eram irmãos ou família. Eu vivia no meio de meninos, todos cuidados por policiais militares. Nossas necessidades eram supridas por alguns funcionários públicos. Quando alguém apresentou essa senhora como minha mãe, eu tomei um susto e saí correndo para o meio do mato. E nunca mais a localizei”.
“Quando fiquei o período mais longo na Casa de Detenção encontrei por lá quase todos os meninos que cresceram comigo na Febem. Ingressaram na instituição como bebês e acabaram na prisão. Esses encontros me deram a certeza de que tínhamos uma história comum e que se alguma coisa havia dado errado em nossas vidas, não era só por responsabilidade nossa. Meu trabalho consistiu em investigar justamente isso: o que deu errado em nossas vidas? Por obra de quem? Voltei aos arquivos públicos, do Juizado de Menores, quando já fazia mestrado na USP.
Foi lá que localizei, pela primeira vez, um processo a meu respeito. Fui aos arquivos do Sistema Penitenciário e de diversos órgãos levantar as informações, saber quem eram meus pais, meus irmãos, e por onde eles andavam. Interessei-me também pela história daqueles outros meninos que encontrei na prisão. Comecei o trabalho na tentativa de localizar meus irmãos, reconstituir a história deles, passar a limpo meus dados pessoais sobre o local e a data de meu nascimento. Fiz a mesma coisa para outros 60 meninos. Ao final do trabalho, localizei 60 grupos de irmãos, que foram separados ainda bebês ao ingressarem na Febem. Foi o ponto de partida do trabalho que comecei a fazer”.
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