Maria Apparecida Amaral da Silva

Entrevista de acervo
Depoimento de Maria Apparecida Amaral da Silva
Entrevistada por Rosali Henriques e Márcia Gomes
São Paulo, 30 de outubro de 1999

P/2 - Bom dia dona Maria.

R - Bom dia.

P/1 - Dona Maria, a gente... vamos chamar de dona Apparecida, né?

R - Pode, pode.

P/2 - É melhor.

P/1 - Dona Apparecida, a gente queria começar nossa entrevista com a senhora falando o nome completo, da senhora, o local e data de nascimento.

R - Eu me chamo Maria Apparecida Amaral da Silva. Nasci no dia 4 de junho de 1929.

P/1 - E a senhora poderia falar o nome dos seus pais?

R - Meu pai chamava-se Ramiro Alves do Amaral, e minha mãe Maria Borba do Amaral.

P/1 - Eles já são falecidos?

R - Si, já. Há alguns anos.

P/1 - E a senhora sabe a origem da sua família? De onde eles são?

R - Olha, minha mãe, minha família de lá da terra, era toda de Piracicaba. E meu pai era do Mumbuca, que chamava. Não sei se ainda existe essa cidade não. Também do interior de São Paulo todos os dois, né, interior...

P/1 - E eles contaram alguma coisa sobre a família da senhora, sobre a origem deles?

R - Mais a minha mãe, porque meu pai, quando eu estava com 3 anos, ele faleceu. Então minha mãe que eu tive mais contato, ela conversava... eu tinha uma tia que falava muito, muito sobre a família, né? Também já é falecida, né? E assim, dos lugares onde eles nasceram, como era a família tudo, né? E tem inclusive fotos dos meus avós maternos, não é, mas muito antigas, a gente nem sabe assim, não sei a origem de onde também eles nasceram. Sei que é tudo de Piracicaba, né? Mas, dentro de Piracicaba, uma região assim, mais distante, né?

P/1 - A senhora chegou a conhecer algum dos seus avós?

R - Não, não. Nenhum deles. Nem do por parte de pai, nem por parte de mãe. Nenhum deles. Quando, porque os meus avós maternos, quando a minha mãe estava com, acho que 5 anos, ela perdeu a mãe. Depois, com 8 anos, ela perdeu o pai, né? Então, nem ela, ela cresceu sem os pais, né?

P/1 - Ela foi criada por quem?

R - Pela madrinha, os padrinhos dela, né, de batismo. E depois ela cresceu com a família Borba mesmo, né?

P/1 - Ah, esse Borba é sobrenome?

R - obrenome. Se a gente for ver a história mesmo, o registro da minha mãe é, ela chama, era Maria das Dores David Nascimento. Só como ela não foi criada pelos pais, foi criada pela família dos parentes, então ela, depois, foi adotando esse nome Borba, e passou a assinar Borba. Então, no meu nome está registrado como Maria Borba, né? Mas que na realidade ela era Maria das Dores David Nascimento, né? Mas aí, quantos anos, né? (riso)

P/2 - Dona Apparecida deixe eu perguntar uma coisa para a senhora, são muitas Marias na família, né?

R - São, são mesmo viu? E assim, se for ver a nossa família todinha mesmo, parentes, tudo, tem muita Maria Apparecida. Então, para identificação, tem sempre que assinalar é filha de fula... é Maria Apparecida, mas é filha de fulano, de sicrano, para poder identificar qual é a Aparecida que está sendo mencionada, né? São muitas Maria Aparecida.

P/2 - E a senhora sabe a origem disso? Por que a repetição?

R - Dos outros eu não sei. Comigo eu coloquei assim: por ser católica, né, e assim, devota de Nossa Senhora, então, eu fui colocando o nome de Maria nas minhas filhas. E duas delas, dessas duas filhas, eu que escolhi o nome, e os outros, o meu marido que escolheu. Que foi a Maria da Conceição e o José Lucas, que ele escolheu. Maria Rita e Maria do Carmo foram escolhidas por mim, né?

P/2 - Mas a sua mãe e a sua avó também chamavam Maria, não é?

R - Maria Borba a minha mãe. Agora, a minha avó materna era Bárbara.

P/2 - Ah, Bárbara.

R - Bárbara, Bárbara David Nascimento. E o meu avô era Zacarias David Nascimento, né? Do lado paterno é que eu não me lembro bem. Não conheci mesmo os meus pa... a minha tia falava, mas depois eu acabei esquecendo, né? Como o meu pai faleceu eu era pequena, então, foi desaparecendo esse lado, né?

P/1 - A senhora teve mais irmãos?

R - Não. Só fui filha única, né?

P/1 - A sua mãe não se casou novamente?

R - Não. Ela sempre pensava assim, que se ela casasse ela tinha medo, por ser filha, né, por ser uma menina, de colocar um homem estranho na casa, tudo. Então, ela sempre teve esse receio. Ela namorou, tudo, mas nunca chegou a se casar por isso, né? Ela não queria, ela tinha receio. Naquela época ela tinha receio de colocar um homem, uma pessoa estranha, é, ao meu lado, né, junto comigo. Então, ela nunca se casou.

P/1 - Então, a família foi a senhora e ela?

R - É. Tanto que eu sempre pensava assim: que eu não tinha uma família. Porque, na realidade, eram duas pessoas, né? Eu só me considerei com uma família quando eu me casei. Quando foram nascendo os filhos, aí sim, né? Porque, inclusive quando eu era menina, mocinha, as pessoas, os vizinhos, né, falavam: "Ah, mas...", eles me chamavam de Cidinha. É aquele caso da família ter muita Cida, né, estão me chamavam de Cidinha. Então eles me falavam assim: "Ah, mas a Cidinha é tão quietinha, tão boazinha, né?", aí, minha mãe falava assim: "É lógico, ela não tem com quem conversar, não tem com quem brigar, então ela tem que ficar quieta mesmo, sempre, né?" (riso) Não tinha outra forma.

P/2 - E a senhora era mesmo? Ou só os vizinhos que achavam? (riso)

R - Não. Por ser assim, quase sozinha, acabei sendo, viu? E isso eu não gostei muito, tá? Porque me deixou assim, muito tímida. E assim, depois quando eu fui vendo a convivência dos meus filhos eu comecei a perceber o quanto foi ruim para mim ser filha única, né? Porque não tinha diálogo. Era só minha mãe. Sempre com mãe a gente tem uma certa... conversava, tudo, mas não era aquela abertura, né? Ainda mais naquela época, né? Mais ainda restrito, né, tudo, né? Então...

P/1 - Conta para a gente, dona Apparecida, um pouco da sua infância... a senhora foi criada em que bairro aqui em São Paulo?

R - Olha, quando eu nasci, minha mão morava no bairro da Consolação, né? Depois ela foi mudando, ela mudava muito, né, de casa. (riso) e onde eu cresci mais, mesmo, foi no bairro de Santa Cecília. E eu passei uma parte da minha infância que era na rua Adolfo Gordo, que hoje ainda existe, né? E tem parece que o teatro... tem um teatro lá, que se eu lembrar o nome depois eu falo, né? Mas era uma vila. Naquela época não tinha favelas. Eram cortiços. E eu cresci nesse cortiço, né? Acho que tinha umas 32 crianças ou mais, né, na vila. E ali eu fui crescendo, né? Aí eu fui para a escola. Lá que a gente teve uma... a catequista nossa ela morava ali também nesse cortiço. E ela era professora. Ela era estrangeira e lituana. E além de ser professora ela era catequista. Então ela começou a arrebanhar as crianças do cortiço, para dar catequese. E foi indo, e depois, ela era catequista da Igreja do Rosário, Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, que ainda existe hoje, né?

P/1 - É aquela do Largo do Paissandu?

R - Isto. Essa mesma. Essa mesma. E lá nós fizemos a Primeira Comunhão, que foi em 1936. Dia 25 de outubro de 36. E ali fui crescendo, depois fui para a escola. Que era o Grupo Escolar... deixe eu ver se eu me lembro. Sei que era Almeida Prado o final, mas acho que era Artur, não lembro bem agora. Se eu lembrar depois eu falo. Lá eu fiz todo o primário, né, o primeiro ano. E tenho muitas boas recordações de alguns professores, os outros não. (riso) Tinha a professora dona Maria Eugênia, que foi do primeiro ano, era excelente. Uma pessoa assim muito amiga da gente. Do terceiro ano, dona Odete. Teve uma também que... não, do segundo ano era dona Odete, do terceiro era dona Nenaide, né? Muito boa também. Já outras não... não sei também se a gente era muito levada, né? E às vezes a gente fala que o professor que era ruim, mas também, se for analisar, né?

P/1 - Dona Apparecida, como que era esse cortiço? Conta para a gente como é que era...

R - Como era?

P/1 - É.

R - Era assim: tinha um corredor grande. Era enorme esse cortiço, né? e dos lados, logo na entrada, tinha assim os quartos que eram melhores. E tinha a cozinha. E moravam, mas eram todas assim, famílias que moravam em um quarto mesmo e que essa cozinha era para todos. E tinha um banheiro. Depois tinha um corredor, o corredor continuava, eram pequenos quartos, né, que uns tinham cozinha e outros não. Às vezes as pessoas cozinhavam, o nosso mesmo era um quarto que a gente cozinhava na porta. Tinha que por o fogão do lado de fora, né, e cozinhar ali. E aí, tinha também uma pequena cozinha que a pessoa também tinha que atravessar para ir. E sob toda essa parte tinha um terraço muito grande. Então, ali que nós brincávamos, né? E ali, nesse cortiço, era interessante porque tinha famílias brasileiras, famílias negras, japoneses, italianos, tinha muitos italianos, né? Eu não me lembro se tinha também... tinha essa família lituana. Tinha família, se não me engano, turcos. Então, era aquela miscigenação, várias raças ali dentro, né? E muita criança. Porque todas as famílias tinham, no mínimo, um filho, né? Mas eram mais, tinham as famílias que tinham quatro, cinco. Tinham as famílias italianas que tinham 12 filhos, outras 11 filhos, né? E todos crescemos ali, né, tínhamos muita amizade. Era gostoso porque a gente brinca... eu ainda falo que a minha infância, eu tive infância. E nós brincávamos muito, muito, muito, né? E assim, na rua, não havia perigo de brincar na rua porque não tinha movimento de carros, nada, né? Então, nós brincávamos até 11 horas da noite, ou mais, até na rua. E na rua tinha também o, que a, era a iluminação era de, com poste, mas não era iluminação elétrica ainda, era aquela iluminação, eu não me lembro mais como é chamada. E era um poste, até era bonitinho, porque tinha dois lustres assim do lado, e ali nós fazíamos nossa balança, né? Porque pendurava a corda e balançávamos ali quando não era na árvore, né? E ali, a gente brincava na rua de todo o tipo de brincadeiras, né? Mãe-da-rua, mula... os meninos também brincavam com a gente, não era só as meninas, né? então ali a gente cresceu era muito gostoso. E quando nós morávamos ali, eu não lembro bem a data, foi que veio para São Paulo aquele Zeppelin, né? Foi construído na Itália, tudo, né? E justamente passou sobre nossa vila, e todo o mundo subiu lá no terraço para ver o Zeppelin passar, né? Foi aquela alegria, aquela festa, né? Depois a gente soube do acidente que houve com ele, né, bem depois, né? E assim eu cresci ali no bairro Santa Cecília, depois, como eu falei, minha mãe mudou muito, e aí, depois dessa vila nós fomos morar lá na... passei a morar na rua Garibaldi, que era depois da linha do trem. Aí então já ficava entre Barra Funda e Bom Retiro, né? Ali também tive uma infância muito boa. Olha, eu brinquei bastante, viu? Brinquei muito, muito, e acho que, é, a minha infância trouxe muita alegria depois para a minha vida, né? Às vezes as coisas ruins que acontecem na vida a gente, lembrando da infância a gente vai conseguindo amenizar, né? Não sei se deu para entender, né? Vocês entenderem a parte da vila ali. É, quer dizer, na lembrança a gente tem muitas coisas, né?

P/1 - É. Só uma pergunta. Vocês, lá na vila, vocês faziam festas coletivas? Ou cada um fazia sua festa, por exemplo, em época de Natal, de São João, como é que era?

R - Não, coletiva eram mais os aniversários, né? E as famílias, por exemplo, as italianas, e mesmo a nossa, a gente festejava assim, cada um ao seu modo, mas chamava toda a vizinhança para ir festejar, né? Natal... que eu me lembre não, não tínhamos essa... às vezes repartia, assim, por exemplo, quem fazia uma comida repartia com outro. Dava assim alguma coisa para o outro. Mas não tinha ainda aquele espírito de hoje, fazer aquela comemoração conjunta assim, não, né? Que eu me lembre. Pode ser até que alguma coisa passou, né? Pelo menos ali na vila... Mas assim, nas festas de aniversário sim. Todo o mundo se reunia, né?

P/1 - E Natal, vocês comemoravam como?

R - Olha, o que eu me lembro era presentes, né? Que a gente estava na escola, então pedia, escrevíamos a cartinha para o Papai Noel, né? (riso) E pedíamos uma imensidão de coisas, né, mas nunca vinha, né? (riso) Mas eu me lembro, apesar da gente ser pobre, tudo, minha mãe sempre deu alguma coisinha. Era uma lembrancinha... me lembro que uma vez pedi uma boneca, uma dessas bonecas de louça, né, que era bonito. Mas ela me deu uma boneca de pano. Mas era muito bonitinha, tudo, né? E sempre, quando eu acordava, né, tinha o brinquedinho ali do lado, né? E a gente achava que era Papai Noel que tinha vindo, tudo, né? (riso) Mas nunca faltou. Sempre teve aquela, alguma lembrancinha sempre tive, né? Agora, no meu aniversário mesmo, que comemorou foi em casa de uma das minhas tias, né, que ela morava ali na Barra Fun... era Santa Cecília, porque Santa Cecília era muito enorme, mistura com Barra Funda, com tudo, né? E aí, eu me lembro que minha mãe comprou uns doces de venda, como a gente chamava, né? E era acho que tubaína que ela comprou, então festejou. Não tinha bolo. (riso) Não teve um bolo, né? Mas teve doce, teve essa tubaína, que a gente festejou. Nem lembro que ano, que ano foi. Se tinha uns 10 anos... acho que foi mais ou menos por aí que foi.

P/1 - A sua mãe, ela trabalhava?

R - Trabalhava.

P/1 - O que ela fazia?

R - Ela costurava, né? E ela costurava, como a gente falava, costurava em casa de família, né? Então ela ia nas famílias muito ricas, né, que ela costurava. E às vezes ela me levava, que permitiam que ela me levasse. E havia... e outras casas não. Então eu ficava com a minha tia para poder ir para escola, todo, né? E ela entrava, ela ia de manhã e só voltava à noite, né? Quando ela voltava de lá do trabalho.

P/2 - Ela fazia o que? Ela fazia reforma?

R - Não, ela costurava. Era costureira mesmo. Também chegou a fazer reformas, né? mas ela era costureira assim, como é que eu diria? Fazia vestido, confecção, vestidos mesmo, né, vestidos. Naquele tempo também fazia lingerie, também, né? Fazia camisolas, todas essas combinações. Naquele tempo usava combinação, tudo, né? Então ela costurava, né? Costureira de classe, né, como se falavam assim.

P/1 - É. Mas ela recebia por dia, ou pela peça que fazia?

R - Por dia, por dia, por dia. Recebia por dia. Ela recebia por dia mas ela costurava assim quase que o mês todo. Ela tinha cada dia da semana em uma casa, né, que ela ia. Ia por dia, né? Então ela tinha várias casas que ela ia, e fora as costuras que ela fazia em casa também, né? Que ela tinha máquina. Até hoje ainda tenho essa máquina, né? E ela costurava em casa também, para as pessoas amigas que pediam ela costurava, né? E eu ia com ela em certas casas que deixavam, e outras já não. Então tinha que ficar com a minha tia para poder ir para a escola e passar o dia, né?

P/2 - E como era nesses casos? A senhora ia ajudar ou a senhora...

R - Não. (riso) Eu só ficava só brincando, que eu era pequena, né Tinha uns 7 anos, 8 anos. Desde os 6 anos, 5 anos. Eu brin... ficava ali do lado, ao lado dela, ou então ia brincar. Tinha uma casa que ela costurou, que essa família, essa senhora tinha sete filhas... sete filhas e dois filhos, né? Então as meninas gostavam muito que eu fosse lá. Então ficavam brincando comigo, tudo, né? Então, passava o dia. (riso) E era gostoso, né, porque elas me queriam muito bem então, era quase que o xodó dali delas, né?

P/1 - Aí, então, vocês almoçavam lá...

R - Almoçava. Lá ela almoçava e jantava às vezes, né? Se ela saía muito mais tarde, almoçava e jantava, né?

P/2 - Aí, nesses dias a senhora acabava não indo para a escola?

R - Quando era pequena, bem pequena, não. Depois, quando eu comecei a ir para a escola então, eu já não ia tanto, né? Que ela já me deixava com a minha tia, passava o dia lá para poder, e a escola era perto, né, para não perder as aulas, né? Aí, já parou um pouquinho mais de eu ir com ela para lá, né?

P/2 - Uma coisa que eu tenho muita curiosidade assim, são das brincadeira daquela época. As brincadeiras de criança...

R - De criança?

P/2 - Por que está meio, um pouco se perdendo isso.

R - Está.

P/2 - A senhora pode descrever algumas das brincadeiras que a senhora mais gostava?

R - Olha, nós brincávamos muito de roda, né? Então formávamos aquelas rodas enormes, né? E é como eu disse, os meninos também brincavam de roda, né? Então aquele tempo era gostoso por isso. Havia essa integração dos meninos. E a gente também brincava com as brincadeiras deles, né? Então, brincadeira de roda tinha... como é? "Senhora dona Sanja", "que dona Margarida", deixe eu ver se eu me lembro outras... e tinham outras assim, se eu me lembrar, depois eu falo. E das brincadeiras dos meninos era "pula mula", que era uma pessoa ficava meio agachada, meio... meio agachada, e a gente vinha e pulava mesmo por cima. Como se fosse hoje a, é, a ginástica olímpica que eles (batidas) batem a mão e pulam, né? E a gente batia nas costas do outro e pulava, né? Tinha aquela de... como é que chama? Atravessar a rua, né, que a gente atravessava com um pé só, né, de uma calçada para outra, e ficava um pegador no meio. Então, aquele que ela pegasse, então ele passava a ser o pegador. Então a gente passava co... pulava co... ia correndo com um pé só, todo o mundo correndo, né? E ele tinha que pegar alguém para ele também sair dali, né? Essa era a... não era "pula...", agora esqueci o nome. Qual mais que tinha? Ah, a acho que era "boca...", não era "boca-de-lobo". Ai, eu estou assim, quase o nome na mente, mas não vem. Mas eram muitas, viu? Se eu for lembrando depois eu vou falando, né? Mas era muito gostoso, viu? Nossa! Ah, com bolas também nós brincávamos com bola. Não era futebol, né? Mas era aquela bola que a gente brincava, como é? "Ordem sem lugar", não sei se vocês conheceram, como é que era...?

P/2 - Como é que era essa?

R - Era tipo, jogava a bola na parede, né? E a bola voltava e a gente pegava. Em cada fala, então você pegava, era: "ordem", "seu lugar", "sem rir", não podia rir mesmo, "sem falar". Uma mão, então você pegava e jogava a bola, e ela ia e vinha. Se ela voltasse você pegava com uma mão, depois pegava com a outra e jogava com as duas mãos. Depois era "pirueta", que fazia com as mãos assim girando. "Bate palma", que era atrás e para frente, né? (palmas) E "quedas" que batia aqui nas coxas e pegava a bola. (batidas) Quer dizer, se nesses movimentos a bola caísse então, você saía da jogada e entrava outra pessoa jogando, né? Era muito gostoso também essa "Ordem", a gente chamava de "Ordem sem lugar", né? Deixe ver, com bola que mais que tinha?

P/1 - Vocês brincavam de "queimada"?

R - Olha, no meu tempo acho que até era "queimada", mas eu não me lembro muito bem, que se fosse queimar como é hoje, né? Não. A gente brincava muito de, na rua, de andar na rua, mas não era queimar... ah, tinha "pula...", a gente punha cabos de vassoura que nós colocávamos no chão e ia aumentando, era "aumenta-aumenta", que a gente falava, né? Começava bem, o espaço bem pequenininho para a gente ir pulando, né? Então, ficava aquela fila e vinha pulando, pulando. Quando pulavam todos, aí ia aumentando até quanto desse, né? Então aqueles que tinham mais facilidade pulavam, que não podiam pular... pisar no meio. Se pisava no meio aí, perdia, né? Então a gente pulava distância... "pulo à distância" também a gente chamava, né? Pulávamos distâncias enormes. Vinha correndo assim, pulava, né? Também tinha com a corda. Que então começava bem baixinho ia aumentando até quando desse para pular mesmo, né, a corda, né? Tinha pessoas que conseguiam pular bem alto, já outras não, né? Tinha pular corda também, nós pulávamos muito corda, né? Que era também "batalhão" que a gente chamava. Então, no batalhão formava-se também aquela fila e ia entrando. Então, a primeira que entrava fazia a chamada, né? "Batalhão, leão, leão. Quem não entra é um bobão." Então, tinha que todo o mundo entrar na corda. (riso) sem errar, né, para a corda continuar girando... tinham duas que giravam a corda, né? E depois assim: "Batalhão, leão, leão. Que ficar...", aí que eu não lembro qual... então todo o mundo tinha que sair correndo da corda. (riso) Mas sempre pulando. Saindo e a corda girando. Aquele que errasse ia pegar para girar a corda, né? eu sei que tinha muitas brincadeiras, bastante mesmo, viu?

P/1 - Dona Apparecida, dos clientes da sua mãe a senhora algum mais famoso, algum mais conhecido aqui em São Paulo?

R - Olha, minha mãe, depois é que a gente foi sabendo, né? Ela trabalhou em casa assim, de pessoas que foram ilustres assim, depois, né? Ela trabalhou para a... como é que ela chama? Tarsila do Amaral. Inclusive a gente tem até a foto da neta da Tarsila, né? E costurou para a filha da Tarsila, que era a Beatriz, né? e costurou para a neta também dessa menina. E a menina depois faleceu, né? Faleceu, foi em uma excursão com a escola e tinha uma piscina e ela morreu afogada ali, né? E depois ela trabalhou também na casa, era do doutor Rui Blois. Bloem, Blois, não sei mais como é... E ela trabalhou para a família dele, né? Para as filhas. Eram três meninas. E eles moravam ali na região dos Jardins, por ali. Tem também... eu não lembro agora, uma outra família que ela trabalhou para eles também, que era Horta. Que também depois ele foi acho que, não sei se ele chegou a ser... não presidente, era prefeito, se eu não me engano, de São Paulo. Ela trabalhou com várias famílias de nome, assim. Na época, também, não sabia, não dava essa importância. Depois é que foi analisando é que foi vendo, né? E há outras que agora, assim, eu não, não me ocorre os nomes, depois se eu lembrar eu falo para vocês.

P/1 - E a sua família freqüentava qual igreja? Essa do Rosário?

R - Não, a gente, olha, freqüentávamos onde, no bairro em que nós morávamos freqüentava a igreja do bairro, né? Do Rosário eu freqüentei muito tempo, depois a gente se afastou de lá. Minha mãe freqüentou muito, ela era bem religiosa, né? Então a gente freqüentou a Igreja da Santa Cecília, a Igreja do Coração de Jesus, ali do Largo do Coração de Jesus, Imaculada Conceição, Santo Antônio, ali da Barra Funda. Conforme a região que a gente morava então ia freqüentando essas igrejas. Sempre católicas, né? E o Rosário agora, depois que eu voltei, né, estou voltando, mas não assim, freqüentan... participando da Irmandade do Rosário. Eu participo em um projeto que eles, que os jovens de lá estão realizando, que é o Projeto Jovens Cristãos, né? Então é trabalhar com crianças da faixa de 4 anos até 17 ou mais idade, né? Então nesse projeto que eu entrei o ano passado, aos sábados que a gente trabalha, né? Mas o Rosário mesmo, a Irmandade eu nunca freqüentei, nunca participei dela, né? (riso)

P/1 - Que bairros mais a senhora morou, que a senhora lembra assim...?

R - Ai, era a Consolação, Santa Cecília, ali já era Barra Funda. Depois, Perdizes, minha mãe veio morar nas Perdizes, né? Barra do Perdizes, que era li na rua Monte Alegre, né? mas nunca casa, viu? Nunca moramos em casa. Era sempre um quarto com cozinha ou então, sem cozinha, né, como eu falei para vocês. Então tinha que cozinhar na porta mesmo, né? Às vezes chovia, tinha que por fogão, e era fogão à carvão, né? Então tinha que por o fogão assim, na porta mais para dentro, para poder cozinhar, né? Senão... e era fogão com uma, digamos, uma boca só, né? Então tinha que fazer toda a comida ali no fogão à carvão, né? Aí, depois vim morar ainda com, aí já era moça, né, era ali no bairro do Bosque da Saúde, né? Foi ali que eu me casei. Ai, depois de casada que eu fui morar em casa mesmo, né? (riso) Que até então só morei em quarto. Quarto, quarto, quarto. Tinha banheiro, mas só tinha banheiro fora de casa e tudo, né? E era interessante contar, que naquela época a gente que era pobre não tínhamos chuveiro. Então tomávamos banho em bacia. Então eu me lembro que minha mãe comprou um bacião que a gente chamava, né? Uma bacia enorme para poder tomar banho. Então esquentava-se a água, colocava lá para tomar banho ali. Então não era chuveiro, era banho de bacia, né? Depois que eu me casei que a gente foi ter chuveiro, foi ter banho na casa, né?

P/1 - E como é que foi o primeiro banho de chuveiro?

R - (riso) Foi gostoso, né? (riso) Foi diferente, né? Até nessa última casa em que eu morei a dona da casa, ela colocou um tipo de chuveiro, mas era assim, era um balde enorme com o chuveirinho em baixo. Então a gente tinha que abaixar... a carretilha, colocar a água, depois subir para tomar banho. Aí era banho de chuveiro para a gente, né? E ali a água ainda era de poço, né? Não era água encanada assim que tinha. Então nós tínhamos que pegar água no poço, né, para depois, para poder usar aquela água. E era assim, a gente chamava de salobra, né? Não sei se é esse o nome, né? Porque ela tinha um gosto muito forte. Parecia quase que salgada, e assim meio oleosa a água, né? Mas era a água que a gente tinha para usar, né? Nas outras ca... engraçado, quando era menor, os lugares onde nós morávamos a água era encanada. Já nessa aqui, como por ser assim periferia, né, era água de poço ainda naquela época, né?

P/1 - Mas isso no Bosque da Saúde?

R - Bosque da Saúde ainda era água de poço. Tinham algumas casas que já tinham água encanada, mas depois que veio, né? Porque as ruas não eram asfaltadas, era barro ainda, né? Era tudo assim, no dia que chovia era uma tristeza. (riso) A gente tinha que subir a rua se quisesse sair para trabalhar, qualquer coisa, e lá em cima trocar o sapato, né, para poder, que era barro puro. Depois que foram asfaltando as ruas, tudo, né?

P/1 - E tinha ônibus? Passava ônibus aonde ali no Bosque da Saúde?

R - No Bosque tinha ônibus aqui em cima na Domingos de Morais. A gente tinha que vir até a Domingos de Morais. E tinha bonde também naquela época. Ainda tinha bonde, né?

P/1 - Tinha bonde para aqueles lados?

R - Bonde ainda tinha. Ia até a São Judas, né, o bonde. Saia da Praça João Mendes e ia até a São Judas, né? Naquela época era mais bonde, mesmo ali no bairro de Santa Cecília, quando eu morei, era mais bonde que tinha, né? Bonde "camarão", como a gente chamava, que era o bonde fechado. E o bonde aberto, né, que tinha aquele estribo e o cobrador ia no estribo fazendo a cobrança, né, com as pessoas que estavam nos bancos, né, sentadas, né? E tinha o motorneiro que dirigia o bonde, né? E tinha na avenida, pegando a avenida Paulista e a Angélica tinha um ônibus, que a gente denominava de ônibus prateado. Ele era todo prateado. Mas era um ônibus muito grande, pequeno, e ele tinha só uma porta. De entrada e de saída era a mesma, né? E por ali as pessoas entravam e saíam. Eu me lembro que uma ocasião, minha mãe depois contou, que ela estava na avenida Paulista para ir para casa, né? E ela ia subir no ônibus e não conseguiu. O motorista deu a partida daí, ela ficou brava com aquilo, né, ficou nervosa. Quando ela conseguiu tomar o ônibus seguinte, que ela des... quando chegando ali na avenida Angélica, mais ou menos logo depois da rua Maceió, que tem a descida, esse ônibus que ela não pode pegar tinha tombado e incendiado, né? Aí foi terrível porque teve pessoas amigas também, que morreram ali naquele incêndio. E as janelas... as pessoas que conseguiram sair tentaram salvar as outras, né? Mas foi muito triste, né? Aí que ela falou: "Pôxa, foi por Deus que eu não tomei esse ônibus." Não tinha muita condução assim, era mais bonde mesmo que era usado, né? Para todo o lugar que a gente ia era com o bonde. Depois é que foram surgindo os ônibus mas já bem, nossa, eu já era mocinha quando começou a surgir os ônibus maiores, menores. Era de todo tipo, né, que tinha os ônibus, né?

P/1 - E assim, lazer, no final-de-semana. O quê que vocês faziam no sábado e Domingo?

R - Olha, minha mãe, apesar dela, ela era digamos assim, semi-analfabeta, né? ela gostava muito de ler mas não de escrever. Detestava escrever. Tanto que ela só assinava o nome e muito mal, né? Mas ler ela lia muito. E como ela... no interior quando ela morava em Piracicaba, ela estudou piano. E ela gostava muito de música clássica. Então, ela me levou muitas vezes a apresentações no Municipal, no Teatro Municipal. Então era final-de-semana que a gente ia, né? Então assisti Guiomar Novaes, à orquestras daqui de São Paulo e era aqueles maestros, mesmo o maestro Guarnieri que é o pai desse Guarnieri que é ator, né? Maestro Guarnieri, Eduardo de Guarnieri que ele chamava. E o Namberto Baldi que era maestro também, o maestro Belardi, Armando Belardi. Então a gente assistiu muitos concertos de orquestras e solistas aqui no Teatro Municipal. E às vezes, o maestro Belardi levava no Teatro Piratininga, no Cine Piratininga, ali no Brás, óperas. Então a gente assistiu muitas óperas lá. Lá eram mais trechos de óperas, e no Municipal, óperas mesmo, né? Do Rigoletto, Traviatta, La Bohème a gente assistiu. Então, eu tive assim, com mais contato com essa área do que mesmo assim com, com a parte, por exemplo, de escola de samba digamos. Já existia, eram os cordões. Mas a minha mãe era mais voltada para este lado, então a gente ia mais para esse... eu tinha... eu sempre tive vontade, né? Mas nunca, mas quando era levado por ela então, mas aí eu gostava também desse estilo, esses espetáculos, né? Então onde eu fui aprendendo a gostar da música clássica. De ópera, né? ainda hoje as minhas filhas, elas não gostam muito, né? Mas eu comecei a entender o que era a ópera, né? Mas através da minha mãe, porque ela leu também muitos livros assim, os livros eram por volumes assim, mas era tipo revistas que vinham semanalmente. Então ela leu Alexandre Dumas, outros mais assim, ela lia muito, né? Ela gostava desse lado, né? Mais cultural, né, que ela gostava, né? E lazer assim, mais a gente ficava em casa mesmo, brincando.

P/2 - Cinema vocês não iam?

R - Não, cinema eu participei bastante, viu? Acho que desde os 7 anos, que ela também gostava, né? Então eu ia, a gente assim reunia, nós reuníamos a turminha da, tinha muito ali da, quando eu morei na vila, até uns 12 anos mais ou menos eu morei, nós íamos no Cinema São Pedro. Que hoje é o Teatro São Pedro, né? E a gente gostava muito porque tinha fita em série, né, que a gente chamava. E cada Domingo, é como uma novela, só que novela é diária, né? Lá era por domingo, semanal. Então, cada domingo passava um capítulo da fita em série. Ah, então a gente não via a hora de chegar o domingo para assistir a continuação e ver o quê que dava, né? Então a gente assistiu "Flash Gordon", tinha aquele cowboy que era Mick Jones, acho que era Mick Jones. E outros mais que a gente ia assistir de... e depois da fita em série tinham os filmes que passavam, então eu assisti muitos filmes bons, né? E depois a gente veio assistir também, a, assisti "E o Vento Levou", né? Na primeira vez que passou, né, a gente assistiu "E o Vento Levou". Tinha aquele, como é que chamava? Ah, um que falava do vento também, mas agora...

P/2 - "O Morro dos Ventos Uivantes"?

R - Isso! "O Morro dos Ventos Uivantes", também assisti. A primeira versão que passou, né? E outros que a gente assistiu, nossa, uns filmes bons também. "A Ponte do Waterloo", também passou e a gente assistiu, né? E ao cinema eu fui bastante, viu? Fui muito, muito, e depois quando fomos crescendo, nós íamos no cinema longe. (riso) Se era um filme que agente queria assistir, a gente ia longe, ali na Liberdade tinha o Cinema Paulistano, se eu não me engano. Então nós íamos ali, a gente freqüentava muito cinema, na São João. Naquele tempo podíamos freqüentar o cinema, Cine Metro, Cinema Metro, né? Cine Metro era o cinema assim, da elite, um cinema bom mesmo. Então, todo o mundo freqüentava, era um cinema bonito. O Cine Ópera também, que hoje já, acho que nem existe mais, né? O Metro parece que existe, mas não tenho muita certeza. Mas mudou muito, né, mas eram bons os cinemas. No cinema Ópera a gente assistiu o "Fantasia" do Walt Disney, que foi lindo, lindo, lindo, né, e então foi muito bom. Cinema eu freqüentei bastante, muito, muito. Mais do que os meus filhos até, viu. Freqüentei bastante.

P/1 - Como é que era São Paulo naquela época assim, a cidade, uma cidade que estava crescendo, como é que era?

R - É, em crescimento estava, talvez na época a gente não atentasse tanto para isso, né, que a gente vivia, né, ia vivendo. Mas era uma cidade gostosa de se viver e tranqüila, né, como eu falei, a gente podia brincar na rua até tarde da noite, não havia perigo. A gente saía e passeava a noite. E o carnaval, por exemplo, era o carnaval de rua, né, e na Avenida São João tinha o corso e era muito bonito o corso. As pessoas pobres iam assistir o corso. Então ficávamos na calçada assistindo a passagem dos carros, tinha batalha de confete, serpentina, né, aqueles carros todos abertos, as pessoas passando, todo mundo fantasiado, mesmo quem era pobre também se fantasiava, cada um dentro de seu gosto e posses, né, mas todos nós nos fantasiávamos, né, e tinham assim os alto falantes na avenida toda, não sei de onde vinha o som, e eram aquelas marchinhas de carnaval, então animando mesmo o carnaval de rua, né, e tinham assim, não eram escolas, eram cordões de carnaval e tinha o "Cordão São Geraldo", tinha o "Cordão Campos Elíseos", era o "Cordão Camisa Verde", né, que hoje é escola e tinha o "Cordão Paulistano da Glória", eram todos cordões, "Lavapés", que era ali do Cambuci, né, então era gostoso o carnaval de rua porque era muito alegre e todo mundo participava. Tinha assim, como é que chama...parques de diversões em que lá também tinham os alto falantes e as pessoas dançavam, brincavam, tudo, né, e a cidade era gostosa, muito boa, né, não era tão grande quanto hoje, né? Por exemplo, as avenidas depois foram abrindo, né, certas avenidas como a Barão de Rio Branco. Era rua a Barão de Rio Branco, né, hoje é uma avenida, né? Mas era bom viu, por exemplo, nós brincávamos também, agora me lembrei, lembrança vai e vem, né, com barro, então os nossos brinquedos, não tínhamos brinquedos mesmo assim, então nós fazíamos de barro as panelinhas com tampa, bonecos. Naquele tempo a gente chamava barro, depois é que eu vim perceber é que era argila, né, que hoje argila quase não se encontra, né, e na rua a gente encontrava argila. A gente pegava o barro e brincava e para secar a gente colocava na cinza do fogão, né, que era fogão a carvão e secava o barro e fazíamos as panelinhas, todos os brinquedos nossos eram com aquilo, né, brincávamos com botões também, tem a família dos botões, a mamãe, o pai, os filhos. E nossos prédios, nossas casas eram com caixas de sapato. A gente abria a janelinha assim na caixa, né, eram os prédios, porque tinham poucos prédios mas já existiam, né, prédio de apartamento, ou então casinhas mesmo, né, tinha a sala de visitas. Tudo que nós não tínhamos nós fazíamos ali através dos brinquedos, né? E ainda hoje a gente percebe isso, a vontade nossa era de morar em sobrado. Aquela loucura para morar em sobrado, mas era por causa da escada. A gente tinha que subir e descer a escada, né? Aí quando eu fui morar no Bom Retiro, nós fomos morar na casa da minha tia, e por sorte ela morava num sobradinho, né, aí era uma delícia (riso), mas era por causa da escada viu, escada de madeira, né, então subia e descia, e as vezes a gente percebe em algumas pessoas assim que ainda existe esse desejo de morar numa casa mais alta, né, não assim casa térrea, né, casa alta. Então acho que é no sentido, não sei, o que quer dizer, mas o sentido da escada mesmo, de estar subindo, né, de ter aquele movimento de subida e descida. Ah, muito bom isso, né?

P/1 - A senhora começou a falar mais cedo da escola e depois dessa escola a senhora foi para outra, como é que é, já que a senhora mudava muito de bairro, a senhora tinha também que mudar de escola, né?

R - Não, o mais engraçado era que não mudava, porque como eram uns bairros mais vizinhos, né, então as vezes eu tinha que atravessar a linha do trem para poder ir para a escola que ela se situava ali perto da, ela era quase paralela a Rua Barra Funda, né, e é Rua Vitorino Carmilo parece que chama. Então eu nunca saí. Eu fiz o curso primário todinho nessa mesma escola, nunca saí. Mas é porque nós morávamos na época sempre nos bairros vizinhos, né, a essa escola. Mesmo que eu tivesse, a gente ia a pé mesmo, e eu fiz o primário ali. Fiz até o quarto ano do primário, né, aí depois minha mãe, ela quis que eu estudasse música, piano, e como ela estudou e não pode terminar de estudar, até ela quis que eu estudasse com uma que foi professora dela, que já morava aqui em São Paulo. Ela era de Piracicaba, mas aí não sei porque não foi possível. Ela arranjou uma outra professora mas que cobrava 25, não sei qual era o valor do dinheiro naquele tempo, né, digamos que fosse 25 mil réis, né, mas ela não pode pagar, então ela me colocou, era ali na rua, Alameda Barros tinha um colégio de freiras, que era o Casa Pia São Vicente de Paula, então ela me pôs para estudar música, piano, e eu fiz uns 4 anos, 5 anos lá de piano, mas mesmo sem ter piano, estudava lá mesmo, né? Aí ela quis me colocar no conservatório e naquele tempo a gente era a mãe que dirigia, né, toda a vida da gente, a gente não dizia nem, dizia sempre sim, nunca o não, né? E aí ela procurou uma escola que me, ela procurou um conservatório dramático, que era ali na São João naquela época. Só que eles exigiam que o aluno já tivesse freqüentando ginásio. E eu não tinha ginásio, porque ela não me pôs, ela me fez passar todos esses anos fazendo só música. Então ela procurou uma outra escola que não exigisse o ginásio e ela foi encontra ali na Rua da Glória e era o Conservatório Musical Carlos Gomes. E lá, quer dizer, eles tinham mas não faziam tanta exigência, né, que eles aceitavam mesmo os alunos que não freqüentassem o ginásio, ainda, que a pessoa poderia até estar fazendo depois. Aí eu me matriculei lá. Entrei no quinto ano, foi no quinto ano que eu entrei. Só que se a gente for ver, eu tinha os métodos todos misturados, de primeiro, quarto, quinto ano, né, que eu fiz assim, ali lá que eu me formei. Eu fiz todo o curso de piano, mesmo sem ter piano, me formei, fui até o nono ano, que foi em 51 que eu me formei, depois estudei mais quatro anos de piano, mesmo ainda sem ter piano, me formei sem ter piano, né, e lá eu estudava, que eles davam permissão de estudar quatro horas por dia, né, mas eu tinha que estudar aquelas quatro horas mesmo assim, mas seguidas, porque era só aquele determinado horário que eu tinha, né, para estudar, então para poder aperfeiçoar mesmo a técnica, tudo, né, porque sem isso a gente não obtém mesmo essa técnica. Haviam alunos que estudavam oito horas quase por dia, né, então eu não fiz o ginásio durante esse período, mas dento de mim sempre tem aquela vontade de fazer, né? Tinha aquela vontade, aquela vontade, mas nunca tive oportunidade, né, e não sei se era também pela minha timidez, aquela coisa será que eu vou, será que eu não vou, será que não vão me aceitar, sabe, aquela coisa assim. E sempre obedecendo a mãe, né, e eu só vim a estudar mesmo depois quando os meus filhos já estavam crescidos. Tenho uma filha que foi, eu fiz ali na Escola Santa Inês que era ali na Praça Carlos Gomes, não sei se ainda tem essa escola, muito boa viu. Era supletivo. E ele foi lá e pegou o prospecto e falou: "Mãe, a senhora estuda, já que a senhora quer estudar, vai estudar, né, que teu marido não fez muito esforço que eu estudasse.". Aí eu achei que foi um erro que eu fiz. Eu fui fazer madureza, porque naquele tempo se falava muito em madurez, curso de madureza, mas aí era em um ano os quatro anos de ginásio, então aí depois que eu percebi que eu não deveria ter feito isso, né? Mas não havia escola pública que tivesse curso noturno para pessoas com mais idade e depois é que eu vim descobrir que tinha uma lá na... acho que é Cambuci, por ali naquelas imediações. Eu fiz então o madureza, o ginásio em uma ano. Mas quando eu terminei, eu fiquei presa em matemática. Não consegui terminar matemática. Porque a gente fazia o curso lá no Santa Inês e prestava exame no Estado, né, na escola... fazia inscrição e prestava o exame no Estado para poder ter o certificado. Aí eu fiquei presa, mas só como era eliminatória assim por área, por matéria, então eu fiz assim, eliminei todas as matérias mas fiquei presa em matemática. Aí falei: "Bom...", aí desanimei, parei de estudar mais um pouco. Passou, passou, mas aí eu dava aula de música, né? Já estava dando aula de música no conservatório. E desde que eu me formei já passei a dar aula de música no conservatório. Aí passou, passou um tempo falei: "Não, tenho que terminar essa matemática." Voltei no Santa Inês para fazer só matemática. Fiz meio... um semestre. Prestei exame, não passei de novo, né? Porque eu tinha uma certa aversão à matéria, né? Aí depois, falei: "Não, tenho que fazer." Voltei a fazer aí, achei um professor ótimo de matemática. Xavier que ele chamava, né? Mas muito bom. Então ele que, sei lá, gostei tanto do professor e acabei fazendo, prestei exame e passei. Eu tirei até com média oito, né, em matemática. Porque eu queria dar continuidade ao estudo, fazer o colegial, mas não podia. E sem eliminar matemática. Daí, quando eu eliminei, eu falei: "Não, agora eu vou estudar." Acho que foi em 84, 85... acho que foi em 84. Isso mesmo. Que eu voltei a fazer, aí fui fazer supletivo. O colegial supletivo. Eram dois anos, né? E eu fiz lá no Santa Inês mesmo. Foi muito bom, os professores muito bons na época, bons mesmo os professores. Aí fiz os dois anos, né? Quando eu terminei foi em 85. Aí eu falei: "Bom, aí vou seguir faculdade." (riso) E assim, dentro de mim tinha, eu não sabia que faculdade assim. Não tinha assim determinado. Mas dentro assim tinha aquela coisa de, que acho que seria Psicologia, né? Porque eu tinha assim, não sei, um costume de analisar as pessoas. (riso) Eu parei assim conversando com... hoje não, viu? Pode ficar tranqüila. (riso) Podem ficar é tranqüilas. Mas às vezes estava conversando com a pessoa, então eu estava assim, imaginando, o quê que ela pensava, o quê que ela fazia, como ela era. Então analisando a pessoa, eu sempre fui pegando esse sistema, né? Sem perceber, e analisava cada pessoa assim, né? Não sei se eu acertava ou não, né? Então, aí eu falei: "Não, vou fazer Psicologia.", né? E saí do, foi em 85, em 86 eu fui, no final de 85 eu fiz inscrição para o vestibular. Eu fiz vestibular na PUC, me inscrevi na PUC e na Metodista de São Bernardo. Aí na PUC eu saí na, quando eu fiz o vestibular, eu saí na lista de espera, né? E na Metodista eu fui classificada acho que no 500, dos 500 e poucas pessoas que estavam lá, eu fui classificada. Era mais longe para mim, mas eu falei: "Não. Já que eu fui classificada eu vou para a Metodista. Não vou esperar ainda a da PUC.", né? Aí fui fazer a Psicologia. Mas nesse espaço de tempo o meu marido já havia falecido, né? Aí eu fiz a... comecei a estudar lá. Só que eu não fiz assim, direto. Porque se fosse fazer, fosse direto, eu teria me formado antes. Eu precisei parar em, duas vezes nesse período eu parei, né? Precisei trancar matrícula, tudo. Mas a intenção era seguir mesmo. Falei: "Não. Vou fazer, né?" Aí, depois eu voltei e participei da formatura com a turma de 92, que era a minha turma primeira, né? (riso) Quase que a primeira, né? Mas ainda estava devendo matéria, né? Aí, foi em 94 mesmo que eu eliminei todas as matérias e depois que eu pude obter diploma mesmo, né? Porque de fato, na formatura, a gente não recebe o diploma, é só o canudo vazio, né? (riso) Mas, aí eu consegui terminar Psicologia. Só, assim, se você perguntar se eu sou psicóloga, eu digo que não. Pelo seguinte, porque eu não atuo. Nunca cheguei a atuar na área, né, como psicóloga mesmo. Eu estou continuando na área de música. A música para mim é o tudo, né, digamos assim. Só que assim, a Psicologia me ajudou muito e está me ajudando, não só comigo mesma. Porque comigo, nossa, me ajudou a me transformar assim. Se fosse alguns anos atrás, imagine se eu estaria falando aqui. (riso) Nunca, nunca. Que eu era muito tímida. Para falar, menina, assim, diante de alguém, quase que eu chorava de tanta timidez. Medo mesmo, né? E com a Psicologia tive que ir me soltando porque ou eu me modificava, ou então desistia, né? E está me ajudando assim, o que aprendi, tudo o que eu aprendi com ela a trabalhar com as pessoas, né? Porque eu trabalho, mesmo com o grupo de coral, mesmo com os meus alunos de piano, que eu sempre lecionei piano. Entender o aluno através da Psicologia me ajudou bastante. Entender as pessoas, tudo, né? Então o que eu aplico, e mesmo agora eu tenho um outro grupo no Parque Edu Chaves, que é o pessoal da terceira idade. Que então eu estou fazendo com eles música, né? É um pouco difícil porque eles já tem muita idade, um pessoal assim, muito sofrido, tudo. Mas elas têm uma vontade. Tem pessoas que, para vocês verem, que elas não podem caminhar e elas vão até lá para aprender a cantar, para aprender a música, né? E agora, essa semana, uma delas falou assim: "Ah, lá em casa a gente se reúne e estamos cantando a sua música." E elas não lêem. Não sabem ler. Mas eu falei para elas: "Vocês vão receber a partitura tudo escrito.", "Ah, mas eu não leio." Eu falei: "Não tem importância. Vê cá alguém que leia para vocês lá e a gente vai cantando aqui, vai falando, cantando e vocês vão aprendendo." Então, quer dizer, a gente sente que está alguma coisa de bom está acontecendo, né? Então, a Psicologia está me ajudando muito a entender, a conhecer as pessoas. Por isso que eu digo que eu não sou psicóloga. (riso) Porque eu não atuo como psicóloga, né, assim profissionalmente não. Mas, ajudou muito, né, a fazer essa área, né, Psicologia. Ajudou bastante

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