Nilza Cunha

Nome do projeto
Depoimento de Nilza Cunha
Entrevistado por Samir Mortada
Local de gravação
São Paulo, 27 - 11 - 1999

R - Então, primeiro o meu medo de eles chegarem no sul e falar tudo isso à minha mãe que minha mãe já era de idade e também eu falei, não posso falar. Eu tenho uma irmã caçula que nossa qualquer coisinha, um deslize assim. Por isso que eu falei papai mamãe pode deixar ir para São Paulo que eu não vou dar deslize para a família. Um deslize assim, já abala. E ela estudou em boas faculdades, ela é uma menina negra conseguiu, ela formou em economia. Então, tudo isso se eu fosse dizer... olha teu irmão era terrorista. Ah, acabava. Arrasava a família.

P1- A senhora se formou, também trabalhou?

R - Não eu nunca fui, pra mim poder ter mais uma cultura, ter mais um pouco desse meio de conhecimento das coisas eu cantava na noite. Cantei na noite no Rio e São Paulo. Cantei Babosa, eu fiz um curso de canto, fiz até cinco anos, fiz violão. Mas tudo isso eu queria para seguir. Primeiro a família não queria, e eu naquela época 60, ninguém ajudava ninguém não. Hoje um moço, uma moça pega um violão abre a boca, diz uma palavrinha, já é cantor. Não que eu estou desfazendo, eu tenho voz boa sabe e inclusive em aniversários, lá nas reuniões, tem uns dias das reuniões. Todas quartas feiras são as nossas reuniões. E tem um dia do mês, uma das quartas feiras do mês que a gente faz karaoque, aí eu vou lá canto, vou na frente assim, canto, as colegas todas . Então sempre tive boa voz. E o meu pai tocava sax. Meu pai foi um homem batalhador. Foi funcionário público como fui também e ele gostava muito de festas em casa. Minha casa vivia cheia de saraus. A minha mãe naquele tempo que o cavalheiro; hoje só usa como eu, porque tem problema na perna, mas a elegância era o negro, o homem negro e a mulher negra usar vestido longo e guarda-chuva, não esse guarda-chuvinha pequeno, era o clássico e o homem, o negro usar a gravata terno branco e chapéu palheiro - chamavam - e sapato branco. Meu pai usava muito. Então eu me inspirei, eu quero ser igual a eles. Dancei muito, fui passista da Portela, ainda desfilo.

P1 - Desfilou na Portela?

R - Desfilo

P1 - Que legal. Desfila ainda?

R - Ainda, eu trouxe fotos aí.

P1 - Eu quero ver depois essas fotos aí.

R - Quando eu era nova. Agora quando eu estou mais velha.

P1 - Vamos fazer a entrevista primeiro. Depois agente vê as fotos.

R - Então agora você vê o que você...

P1 - ________________________________

R - Eu só não fui além da, eu gostaria muito de ter sido médica. Sabe, uma coisa que infelizmente não deu, mas eu estou contente com o que eu fiz, sabe, muito contente.

P1 - Vamos começar de novo. Nome da senhora?

R - Nilza Cunha, eu nasci no dia dezoito de maio de 1933. Só que por vontade da minha mãe meu nome seria Nilza e do meu pai Nilce. Então, com essa encrenca deles, essa briguinha dos dois querendo dar um nome o outro dar outro pra mim. Ele ao chegar no cartório deu a data errada, 10 de maio, mas só que Samir, eu não festejo, se você ligar na minha casa e for cantar parabéns pra mim dia 10 de maio, eu fico muito brava. Mas no meu registro tá 10 de maio, só que aí a mamãe não falou, não Fernando para o meu pai. A Nilza não nasceu dezoito quando ele trouxe o registro. Ele falou: "agora Filomena eu já registrei a Nilza, então não posso mudar a data", então ficou pra mim, o meu aniversário eu só festejo só recebo os parabéns no dia 18 de maio.

P1 - Qual era o nome do seu pai, da sua mãe?

R - Meu pai, chamava Fernando Manuel Cunha. Minha mãe Filomena Maria Rosa Veloso Cunha.

P1 - A senhora nasceu aonde?

R - Nasci em Florianópolis.

P1 - O entrevistador é Samir Peres Mortada. Essa entrevista está sendo realizada no dia 29/11 de 99. Eu queria que a senhora lembrasse - é uma entrevista de memória - queria que a senhora lembrasse um pouquinho da infância da senhora.

R - Olha Samir, a minha infância foi uma infância muito boa. Como menina pobre eu brinquei muito, eu andei descalço, eu corri muito. Foi uma infância boa e ao mesmo tempo uma infância assim que eu possa te falar, de muito trabalho. Porque eu com 8 anos de idade, a mamãe punha uma banqueta na frente do fogão e falava: "você vai cozinhar, Nilza, você vai fazer hoje o feijão, hoje você vai fazer o arroz." Eu achava que aquilo, com 8 anos eu tinha que ir na escola e brincar, eu quero brincar mamãe. "Não, mas aqui não pode, você tem mais irmãos, você tem de ajudar cuidar dos seus irmãos." Então eu brincava, mas só que eu tinha as obrigações. A brincadeira de boneca, de roda, tudo isso eu fiz. Só que era assim: dividia; uma parte brincava, outra parte estudava outra parte fazia os trabalhos de casa. Eu ajudei a criar irmãos. Eu fazia mamadeira para os meus irmãos. Com 10 anos, eu fazia comida. Eu tive 15 irmãos comigo. Então, foi uma infância assim: quando eu tinha 12 anos, eu tive um problema muito sério na língua, não sei que foi que deu que a mamãe precisava pegar colherzinha de leite pra mim conseguir engolir mas eu sei que foi um tratamento, eles eram muitos sabe como eram os antepassados muito de benzedeira, né, eu sei que ela levou no senhor, benzeu. Ela falava: "o senhor tem que olhar cuidar da minha filha porque eu não quero perder a minha filha. Ela é muito esperta, ela é muito viva para a idade dela, eu não quero perder." Então, ele deu um remédio e dali um mês eu sarei. Era um problema na língua, muito sério, eu também não sei dizer que doença que foi? O que foi? Mas, quanto a isso, eu sempre tive uma infância, como eu te falei, uma infância que foi pesada. Foi boa, mas foi pesada. Com 13 anos eu fui trabalhar. Meu primeiro trabalho foi em uma fábrica de rendas e bordados, eu já cheguei na fábrica sempre como eu te falei, muito extrovertida, esperta. O gerente já me pós numa máquina para fazer as etiquetas, aquela máquina era uma máquina de tipografia para colar nas peças de renda para aí exportar para os estados e o exterior. Então ele só me falou como eu tinha que fazer; que eu tinha que por pezinho na máquina, com 13 anos e eu comecei. Eu fiquei nessa fábrica três anos e meio, depois eu fui para uma Santa Casa que aí eu queria. Comecei, conheci minha bisavó, morava em casa e mamãe mandava eu cuidar dela. Você tem de fazer mingau para a vovó, você tem que dar comida para a vovó, ajudar a vovó a tomar um banho e eu ia, a mamãe falava e eu. Porque na minha família é assim até hoje todos os filhos mesmo que a mamãe antes de falecer falava: "não pense que você tem 40, 30 que você é independente, você não é. Você é minha filha." Então eu fui dessas filhas que fui criada assim, eu tinha que levantar de manhã, antes de ir para o banheiro lavar o rosto, escovar o dente, era a bênção papai, a bênção mamãe quando saia de casa também e quando ia dormir também e na hora das refeições. Foi uma infância muito rígida. Na minha casa meus pais recebiam as visitas e as crianças não vinham pra sala, as crianças não ficavam na mesa era só os adultos. Então assim, até hoje, com 66 anos, eu sou assim. As crianças não abriam porta de armário para pegar um doce, um salgado uma porta da geladeira abrir uma geladeira, um fogão para pegar, ela falava: "pegue". Quando a mamãe mandava pegar, aí sim a gente pegava. Então foi uma infância muito rígida.

P1- A senhora lembra dos seus avós?

R - Lembro, lembro. A parte da minha mãe era português com alemão, que inclusive um dos avós meus e a minha avó quando eu vim para cá, ela falava para mim: "Olha, quando você arrumar namorado, começar namorar lá em São Paulo não namora negro não porque já tem muito negro nessa família, você namora um loiro pra, como é que diz, pra raça, para ficar miscigenado, pra fazer miscegenação". Ela era racista, a mãe da minha mãe. A parte da minha mãe, como eu te falei, tinha descendência portuguesa e alemã e a parte do meu pai era negra e índio, então a parte da mamãe, a mãe do meu papai, a minha vovó na parte do papai foi escrava contavam muitas coisas dos senhores só que ela não apanhou nem foi para o tronco porque ela era uma negra muito limpa, trabalhava muito, muito acessível a família dos donos de fazenda que ela foi criada então ela nunca apanhou. Ela era muito querida. Daí quando ela foi libertada ela não queria sair lá da casa dos fazendeiros que ela foi escrava deles. Era também a mesma coisa, aquela rigidez que meu pai e minha mãe tinham com a gente, eles tinham. Meus avós tinham. Tratavam com carinho mas com rigidez, sabe? Então eu acho; tem outra coisa, eu apanhei, viu Samir, eu levei puxão de orelha, eu apanhei surra de vara de marmelo. Eu fiquei quando não sabia a lição, a professora mandava uma cartinha porque eu sempre fui muito inteligente, e uma das matérias que eu mais gostei não sei porque, gostei, gostava e gosto, português. Eu sempre fui muito bem, agora, não suporto e não sei como cheguei a me formar por causa de matemática, não sei como ainda cheguei a fazer esse curso de enfermagem de instrumentação, por causa da matemática, mas eu cheguei, consegui me formar e receber meu diploma, mas eu sempre foi muito peralta, eu era inteligente e uma vez, uma das minhas professoras até hoje tem uma que ainda vive lá em Florianópolis - ela mandava bilhetinho, eu entregava, só que entregava e saia, mamãe eu vou ali. "Vem aqui menina." Não, eu não vou não, a senhora espera um pouquinho. Ah ela saia atrás de mim, lia o bilhetinho: "agora você vai para o castigo."

P1- Isso em que época dona Nilza?

R - Olha, na década de 45, como é que é, 37, 38, 40, é porque 4, 5 anos agente já devia obediência à eles.

P1 - A senhora entrou na escola em que época?

R - Eu entrei na escola com 7 anos e meio.

P1 - A senhora depois trabalhava e estudava?

R - Trabalhava e estudava. Eu fazia assim, de dia era o trabalho de casa um pouquinho, uma meia hora de brincar de correr sabe? Essa brincadeira de roda. Brinquei muito, de esconde-esconde, casinha. Eu fui, eu com 17 anos eu tinha boneca, dava banho nas minhas bonecas, batizava, a mamãe fazia bolo, dizia: "faz mamãe bolo, faz porque a minha boneca vai batizar, vai ter festa amanhã. Vou chamar minhas amiguinhas", assim, então eu à noite eu ia para a escola e de dia eu, aliás de dia eu ia para a escola e à noite eu trabalhava, quando eu comecei a trabalhar na Santa Casa, quando eu trabalhava nessa fábrica de bordados eu estudava à noite e trabalhava de dia. Eles não queriam, mas como eu te falei, eu fui sempre muito esperta, muito atenta, eu falava: "Não, pois eu quero comprar sapato," que não tinha, era chinelinho, eu já via que as meninas de 8, 10 anos já tinham sapato de saltinho, eu queria, era vaidosa já queria usa

R - ela falava: "não, se eu comprar para você eu tenho que comprar para os seus irmãos, eu não tenho dinheiro para comprar para todos, então você vai andar de chinelinho e não chora, não pie que você vai apanhar." Lá sempre foi assim, então eu obedecia. Aí quando eu cheguei com 12 anos como eu te falei não dá mais, eu quero trabalhar quero ter meu dinheiro eu vou ter meu dinheiro vou dar para a senhora, ainda tem essa, eu chegava com o envelope falava com a madre que eu estava ali na Santa Casa de Florianópolis, a gente usava uniforme e ela mandava por o envelope com o pagamento todinho. Colava um alfinete no bolsinho do uniforme que aí eu queria ser aprendiz de enfermeira e ela falava para madre no dia do pagamento que era para ir para casa que não era para abrir o envelope e eu chegava em casa ai tirava o alfinete e dava o envelope cheio de dinheiro para ela e ela ficava com o dinheiro falava: "esse é para comprar é para ajudar aqui em casa comprar as coisas os mantimentos, tudo ajudar seus irmãos e o outro é seu". Aí dava um dinheirinho porque a gente criança, gostava muito de chupar bala tinha muito no tempo que chamava Lançu chama picolé, queria chupar picolé então falava: "mamãe, me dá um dinheiro, eu quero chupar um picolé." Aí ela dava, era assim, não podia pegar o dinheiro, aí eu falava: não eu quero trabalhar porque pelo menos eu tenho dinheiro, eu compro", aí quando eu queria comprar eu já comprava, não comprava tão caro como depois que eu fiquei adulta mas já comprava, já ia comprava aquele que eu escolhia. Não tinha antes de eu trabalhar, eu tinha que usar aquele que ela podia comprar e dar, foi assim sabe? Mamãe trabalhou muito, papai também pra nos criar.

P1 - O que eles faziam?

R - A mamãe fazia renda de bilro, costura, tricô, crochê e frivolité que a gente usava muito aquelas rendas de bilro, fazia uma almofadinha e ali desenhava com os alfinetes, riscava com o lápis desenhava com os alfinetes e fazia. Nas praias de Florianópolis vê muito falar das rendeiras e bordava também, bordava muito bem é tanto que quando eu vim pra São Paulo os primeiros anos eu apertava, eles não podiam mandar dinheiro, eu conhecia aqui na Xavier de Toledo, uma loja que bordava só para as madames, naquela época não falava muito em Morumbi, 52 quando cheguei em São Paulo, falava mais nos jardins. Eu bordei muito para essas madames dos jardins, o enxovalzinho das crianças que iam nascer. Bordava fazia tricô, croché, as rendas para enfeitar as roupas delas pra sociedade, casamento, sabe? Então eu fazia muito isso, para ajudar porque quando eu vim, mamãe falava pra mim o papai olha vai para São Paulo mas não pense que vai ganhar seu dinheiro lá, gastar tudo. Então todo mês e na época, na minha época tinha, quando eu entrei para o serviço público, tinha um salário bem pequeno para o funcionário e o outro salário, metade do outro salário, era para os pais. Eu mandava todo mês para a mamãe aquele salário que era dela, que vinha em nome dela e do meu ainda tirava um pouquinho para estudar os outros meus irmãos.

P1 - A senhora estava falando que começou a trabalhar com aquelas etiquetas com 13 anos.

R - Eh... Quando eu fiz 14, aí eu tenho ainda hoje, é que eu, como eu estou em mudança, eu te falei, comprei meu apartamento que eu estou preparando que vou mudar no próximo sábado. Então eu tinha aquela carteirinha de trabalho aí quando eu fiz 14 anos, quando eu arrumei esse trabalho, o gerente da fábrica deu um papel para o papai e disse: "esse papel, quando ela tiver 14 anos vai transferir," então quando fiz 14 anos, já tinha um ano de trabalho, eu comecei antes de eu fazer 13. Eu fazia 13, 18 de maio e comecei a trabalhar dia 7 de janeiro. Fevereiro, março, abril e maio, quer dizer, 4 meses antes de eu fazer 14 anos. Aí eu fiz 14 anos e fizeram uma carteirinha, a minha ainda é daquelas marrons.

P1 - A senhora trabalhou 3 anos...

R - Eh... depois fui para a Santa Casa. Ai lá que eu aprendi os primeiros passos. Eu como, sabe, a enfermagem mesmo, principalmente a enfermagem, a medicina não foi tanto mas a enfermagem Samir, começou depois da década de 50, 55 é que começou enfermagem pra valer. Então lá eu comecei a aprender o nome do material, todas as caixas cirúrgicas, todo material cirúrgico. É tanto que quando eu vim pra São Paulo, logo que eu passei eu vim estudar, eu me formei eu já fui direto para o centro cirúrgico. Fui nomeada para trabalhar no centro cirúrgico.

P1 - Trabalhou quanto tempo na Santa Casa?

R - Eu fiquei 7 anos, aí eu saí de lá quando vim para São Paulo, e eles não queriam, estudei, aí fora isso eu fiz, lá, eu fiz o ginásio, fiz um curso no Senac de relações públicas, chamava relações humanas, fiz eu não sei na época não falava nutricionista, na época falava, eu não lembro como é que falava que eu aprendi, dietista, dietista. Eu aprendi a fazer o curso de culinária para pacientes diabéticos, pacientes que não podiam comer a comida normal no hospital. Então de lá eu já vim com um pouco de experiência. Quando eu entrei para estudar enfermagem eu já tinha a parte prática, principalmente eu já tinha um bom conhecimento.

P1 - E a senhora lembra de mais alguma coisa dessa época ainda de Florianópolis? Que a senhora gostaria de...

R - Essa época, eu lembro que foi uma época dura, como eu te falei, né, eu nunca passei fome, não - só que era assim, a mamãe punha uma esteira no quintal, no quintal, a gente não comia dentro de casa não, porque era quintal mas era um alambrado, era casa grande, então eu fui. A minha casa inclusive, tem até sóton, a gente, as crianças durmiam todas no sóton, então ela punha a esteira e ainda a esteira, cada um tinha, então quando eu fui para o Hospital e com criança tenho muito cuidado com criança. A mamãe nunca deixou agente usar copo de louça, prato de louça, era tudo de alumínio porque ela falava: "não tem perigo de vocês caírem, machucarem." Oh, sabe como é criança essas briguinhas de irmãos, né, um bater com a xícara no outro com copo, então até meus 10 anos, não usava, era tudo de alumínio. Depois que aí ela viu que a gente estava mais mocinho já entendia mais tanto meus irmãos homens como as mulheres aí começou a usar. Então a minha infância foi assim, era distribuído. Uma semana eu arrumava a casa, toda casa, outra semana era minha irmã. Os meninos era para ir fazer as compras no mercado com meu pai, isso era dos meninos: a parte pesada. Eu fui criada com fogão de lenha então eu aí a mamãe a hora que ia fazer pão, nos nunca compramos pão, não fui criada com pão de padaria. Eu cheguei aqui em São Paulo, estranhava pão de padaria. A mamãe fazia pão, bolo, doce de tudo quanto era espécie, então eu aprendi. Hoje eu sei assim, inclusive sou convidada. As amigas quando fazem festa; eu vou, eu decoro eu aprendi fazer canapé, decorar comida, a minha comida, se eu faço uma maionese eu faço igual um metre um garçom faz. Aprendi assim com a minha mãe, ela falava tem que decorar, "Nilza, a comida tem que ter sabor;" tem que ter decoração na comida para pessoa ter vontade, ter paladar para comer.

P1 - E na juventude lá em Florianópolis?

R - Ah, na juventude, a juventude foi boa mas não foi tão boa porque a juventude minha começou que eu já comecei a namorar um moço branco e como eu te falei, a juventude foi um pouco péssima, por isso mais que eu quis vir de lá, primeiro que eu não ia ter a vida que eu tenho hoje aqui em São Paulo, lá. Segundo que eu achava muito racismo. Samir, nos temos, ainda está lá, a praça 15 de novembro, então de um lado os jovens, lá nos chamamos guri, os meninos são guri e as meninas são gurias. Os jovens, os guris brancos transitam de um lado, as gurias brancas daquele mesmo lado que os guri o que chamam footing namorar para se conhecer. E os negros, os meninos negros, os guris negros e as gurias, denomina, aqui que eu vim aprender o jovem e a jovem branca do outro lado não era permitido, então tudo começou errado porque como eu te falei eu sempre tive muito conhecimento eu pertencia a juventude. Quando eu trabalhava nessa fábrica de rendas e bordados eu ia muito como aqui costumam ir em religiões, lá eram pessoas universitário, eles iam na fábrica para fazer núcleos de juventude para a juventude nossa lá não desviar para um caminho, como hoje, naquele tempo não falava em droga, não desviar para ser uma moça leviana, um rapaz leviano, então eles iam nas fábricas, no comércio, para formar núcleos de moças e rapazes, Juventude Operária Católica, juventude Universitária Católica, então eu fui uma menina desde criança papai me levava para a igreja católica, eu fui cruzadinha, eu fui catequista, filha de maria, então eu sempre obedeci as regras e foi com essas regras que eu vim à São Paulo e foi com essas regras que eu lá foi a juventude, aqui a mocidade com 20 anos que eu te falei: "eu não saio daquele método, nem que eu queira sair agora com toda essa independência que eu tenho, minha vida própria eu não saio." Eu lembro, mas o papai a mamãe diziam, sempre falaram que não era pra sair desse caminho, não era para sair e aí com esse racismo que tinha lá eu comecei a gostar de um filho de uma pessoa que tinha possibilidade, era uma pessoa classe média alta, classe A como chama aqui em São Paulo e ele era. O pai desse menino era dono da confeitaria na época. Chamava Chiquinho porque o pai desse menino chamava Francisco então não sei se ainda tem porque eu vou agora dia 15 para lá. Florianópolis mudou muito, hoje é, não é mais aquela ilha é ilha ainda de sol e mar como é denominada, mas é outro, é outra ilha, então eu comecei a namorar esse menino. Ele não sei porque cargas d'água ele não ficava do lado que ficavam as pessoas brancas, ele e ficava do lado, ele era reprimido, mas ele ia, foi aí que eu comecei. Ele veio conversar comigo e eu comecei a namorar, então por causa disso aí, começou aquela guerra dos pais dele falar: "imagina que você vai namorar uma moça negra" daí ele contava: "não, mas ela é fina, ela é educada, a família dela também," "mas não tem nome." Ela quis dizer nome na sociedade de Santa Catarina, né, meu pai era um homem pobre, né, batalhador te falei, funcionário público e minha mãe sendo uma bordadeira, rendeira, custureira, dona de casa, ninguém, né, um moço que é tinha dinheiro , a família, ele estudava no melhor colégio, no colégio Catarinense, lá, então aquilo foi um copo de água, mas além dela ser pobre ela é negra. Então aí, eu comecei me aborrecer. Eu já tinha vontade, eu te falei, de vir embora para São Paulo, tinha tios e tias aqui, aí foi aonde que eu com tudo aquilo, eu gostava muito dele e ele também gostava de mim, e até hoje ele casou e toda vez que eu vou para lá minhas sobrinhas ligam na hora que eu estou indo, dia 15. Elas falam: "O Nésio pergunta, hoje ele tem uma joalheria, uma das mais famosas lá. Ele diz que agora que você comprou o apartamento, ele vai guardar um anel de brilhante para te dar, parece que não ta dando muito certo o casamento agora não, então tudo eu sei assim, mas ele continua tendo amizade comigo. Eu vou na joalheria ele pede suco tudo para trazer para mim, os funcionários me tratam muito bem então daí para frente eu falei só resta eu ir embora eu esqueço ele, esqueço também esse racismo aqui de Florianópolis vou fazer outras amizades em São Paulo vou estudar mais e vou mostrar para a família dele que eu sou uma negra fina que eu posso enfrentar a família dele. Eu também posso ter cultura, posso me igualar a eles.

P1 - Aí a senhora veio para São Paulo?

R - Aí eu vim para São Paulo.

P1 - A senhora lembra o que foi, a chegada em São Paulo?

R - Lembro, hi, foi tão difícil eu vim de avião ainda Samir, de avião não, de navio, desculpe-me. Eu vim de navio, aí eu sei que foi não lembro bem o ano 51 para 52. Eu sei que meus tios foram passar as férias, eles foram em novembro para lá, acho que era 5, 6 de novembro e já falaram que iam ficar, quando eles avisaram meus pais eu falei oba, o tio José e tia Antônia vão chegar, agora sim, agora vou arrumar tudo, falei para as minhas amiguinhas, ainda falei para uma amiga minha que tem o meu nome, chama-se Nilza e eu falei: "A

h Nilza, agora não vai mais ter chance de eu ficar por aqui." Ela: "imagina que tu vai embora, o que, aqui você tem sua família, teu pai tua mãe teus irmãos" "e lá tem meus tios". Esse tio que me trouxe para cá era irmão da minha mãe, aí minha mãe e meu pai levava aquilo, imagina. Ah ela vai esquecer, papai e mamãe falavam isso, ela vai esquecer. Eu não, agora chegou a chance, a época. Agora vocês não podem dizer que não para mim papai e mamãe porque agora eu tenho 20 anos, então me senti, estou de maior, posso ir. Aí eu sei que chegaram, foram para praia, foram para lá e passearam que lá tem muitas praias, locais para passeios e quando foi se aproximando o dia 4, eu lembro bem, de janeiro de 50 e 51 para 52 eles chegaram e falaram um pouquinho antes, no ano novo, foi na mesa da festa de ano novo, né, 31 para primeiro, no revelon eles falaram para mamãe que iam ficar até o dia 4, que dia 5 eles queriam vir embora para São Paulo e naquela época era muito difícil, nos não tínhamos avião para Florianópoles, nem pensar, ônibus, nossa, só aquela travessia de Itajaí para, de Florianópoles para Itajaí, não tinha condições, era balsa e uma Canoa, um negocinho assim. Papai: "mas de jeito nenhum vocês vão levar a Nilza," aí como meu tio sabendo que eu queria vir e minha tia também, ainda falaram por bem da Nilza, tem todo esse problema que o primeiro namoradinho dela já deu essa confusão, mas que ela não quer, se sente oprimida, é tanto Samir, que esse meu irmão que foi morto pela Dops aí, pela repressão do governo, é foi isso aí, porque ele não aceitava o que faziam com os negros, não aceitava, os negros pobres e os oprimidos, não aceitava isso, falava muito para mim. Que ele morou comigo depois que ele entrou para o núcleo do terror que é o que eles falaram. Até hoje como eu falei para o delegado, não sabia, não sei, então que ele deixou de morar comigo e quando ele saiu do apartamento ele falou: "Nilza é melhor, agora você vai namorar e as vezes eu vou brigar, as vezes implicar, sabe como é irmão homem, com você, então é melhor, você já tem a sua independência, agora eu vou ter a minha vou morar com amigos. Ele foi para esse grupo de terror. Inclusive ele quando houve o assassinato dele vieram me procurar né? O Dálcio veio me procurar falando que ele era coligado, ele era uma das pessoas de frente, hoje eu posso falar, acho que não vai ter nada, né, contra mim. Pelo amor de Deus. Hoje eu já estou velha e quero viver muito, meus 66 eu quero que vá, vá, enquanto tiver saúde. Ele era o escoteiro de frente do Mariguela e o Mariguela e tem o outro, os que foram assassinados por último né? Ele era pessoa de frente deles, o delegado que veio me argüir falou: "Nos não queríamos ele morto, nos queríamos ele vivo mas ele resistiu a prisão". Ele estava se arrumando para ir para o exterior, fugir quando ele soube que ia ser, ele estava sendo procurado pelo Dops, então aí esse meu tio falou: "Não Fernando, Filomena, agente não vai de ônibus porque eu também não quero passar, não quero fazer essa travessia de barco, de canoa que nos chamamos lá no sul para São Paulo, de Florianópoles para Itajaí; "é um percurso muito longo e a Nilza não vai agüentar, a Nilza nunca viajou", nunca tinha saído de Florianópoles, saí assim Florianópoles, Joivile, Morussanga, Blumenau, toda Santa Catarina, aquele pedaço eu, o Rio Grande do Sul, porque a irmã mais velha da mamãe morava em Caxias, né? Então todo esse pessoal, a minha avó é de Caxias a outra de Blumenau, então todo esse pedaço do Sul ali, Paraná, meu irmão casou primeiro veio morar no Paraná, em Curitiba, o outro irmão da mamãe também morava em Curitiba, veio de Florianópoles para Curitiba então aí nesse pedaço eu conheço tudo, eu nunca tinha saído para ir pra cidade grande, assim para morar, ai foi quando ela falou: "já que a Nilza quer ir nos vamos levar a Nilza," aí papai ainda falou: "que, a Nilza não vai não, vocês vão e chegam lá escrevem para a gente dão notícias, mas a Nilza não vai embora com vocês não" , aí meu tio falou: "Olha Fernando, não adianta, não adianta, ela já tem dois motivos para querer ir embora daqui, e se você não quiser deixar ela ir e ela ficar aqui e acontecer alguma coisa com ela ou tem a cabeça dela não vai acontecer mas a gente não sabe, ela já é uma moça, tem 20 anos ela já tem o livre arbítrio, tem só o que ela quer". Aí foi aonde que ele: "Ah, é que eu não queria, minha filha sair assim, não saiu nenhuma de casa, ainda mais filha mulher sozinha, solteira" disse: "Ela não vai sozinha, vai com a gente, sou irmão da tua mulher". Ele era cunhado do meu pai, né, ele é irmão da minha mãe e ele era empreiteiro de obras, foi ele que fez essa segunda parte, construiu aliás essa segunda parte do Hospital das Clínicas, a parte onde eles fazem o anfiteatro ali foi meu tio que construiu, era construtor, né? E minha tia costureira também, né, esposa dele aí o papai a mamãe: "Ah, mais eu não quero, justo a Nilza que é tão esperta tudo que é serviço de casa ela me ajuda, ela faz aprendeu bem trabalhos manuais, muito inteligente e como é que ela vai sair? E agora o que eu vou falar no Colégio que para começar o estudo" - a mamãe dizia que tem de ser no colégio de padre ou de freira. Meus irmãos no colégio de padre e eu estudei no Colégio Coração de Jesus que fica no centro de Florianópoles, aí depois que teve trabalhar que eu entrei para o Senac que aí eu fui para o Senac à noite, aí eu fiz o ginásio e esses cursos, né?

P1 - Quais cursos?

R - Eu fiz esse que é dietista de comidas hospitalares, fiz gráfico e fiz relações públicas, lá falava relações humanas e aqui eu fiz depois você vai ve

R - eu trouxe meu book - eu fiz o curso manequim da terceira idade. Eu desfilei na Hebe Camargo e desfilei na Sílvia Popovic, fui entrevistada por ela.

P1 - ____________

R - Não nesse grupo que estou agora que a Olívia mandou vir aqui para conversar com vocês. No outro grupo que eu, no primeiro grupo que eu entrei, que era na Vila Mariana, a diretora de lá achou que eu tinha pose que eu sabia, que eu sou muito fotogênica e convidou, então das escolhidas foi eu e mais quatro para fazer o curso de modelo da terceira idade.

P1 - E a senhora chegou aqui em São Paulo, Como foi?

R - Então aí passou o ano novo, quando foi dia 4 papai só fez uma mesa redonda em casa, chamou todos os irmãos, né, os que não estavam casados ainda e os que estavam casados também, porque tinham que se despedir, né? Eu com 20 anos solteira sair, criada ali, acostumada com meus irmãos, irmãs tudo, aí ele falou assim - eu nunca esqueci isto - pois o dedo assim, na minha época era assim, por o dedo assim e falar com você. "Nilza, tem uma coisa, tu queres ir para São Paulo, né, minha filha?" Quero, aqui eu não quero ficar mais, eu amo minha cidade, papai mas eu tenho muito recentimento daqui então eu não quero ficar mais aqui. Eu tenho muito, eu tenho muito na minha cabeça para aprender, para fazer, tem que ser em uma cidade grande, tem que ser em outro local, não aqui em Florianópoles, aqui eu sou muito tolhida no que eu quero fazer, aí eu já fazia teatro porque eu já te falei, esse grupo de Juventude Operária Católica, nesse grupo eu representei eu cantei eu dancei sabe? Foi, então eu já tinha esse dom de arte, eu falei não lá em São Paulo a TV fala, Ah imagina, naquele tempo que eu cheguei aqui era a TV Excelsior, a rádio Nacional era na 24 de maio, eu vim morar sabe aonde? Na av. Indianópoles, ali que meu tio tinha casa, uma mansão né, porque tinha condições, Indianópoles, Avenida Indianópoles, minha primeira residência que eu fiquei com eles, né? Então falei, pô vou morar perto do aeroporto, chiquérrimo, São Paulo, aquilo eu me achei sabe? Já parecendo uma dama aqui dos Jardins, falei é nesse barco que eu vou, ai ele disse "olha, tu queres ir, tu sabes que na sua cama faz, na sua cama se deita, tu vai para lá tu não vai pensar, tu vai trabalhar tu vai estudar e tu vai mandar dinheiro para ajudar aqui teus irmãos para estudar também e outra, tu nunca vai dar um deslize lá, se tu arrumar compromisso com homem que não tiver responsabilidade e daí vier a ter filhos tu fica lá para São Paulo e esquece a família aqui em Florianópoles. Teu nome continua sendo Cunha, só que acabou, na sua cama você faz, a cama que você fizer você deita, não pensa você que você vai lá, fazer bagunça, sabe, você tem que andar reta como você anda aqui, ter responsabilidade procurar ajudar seus tios o máximo que você puder para não dar nada que aborreça que eles tenham que falar de você os vizinhos, as pessoas que te rodeiam lá em São Paulo. Não tem volta, se você andar reta tiver senso de responsabilidade caráter você volta para sua casa a hora que você quiser, se não, não, pode ficar lá. Então aí. Ah, Samir, abri a boca a chorar mas falei, então agora eu posso ir? Então o senhor e a mamãe me dão a bênção? Aí puseram a mão na cabeça assim, abençoaram eu beijei a mão deles e dali foi só arrumar as malas e partir para São Paulo. Mas eu sofri nesse São Paulo, sabe, pra chegar, sofri. Aí pegamos o navio lá em Florianópoles, foi 3 dias, eu sei que quando cheguei em Santos não gostei muito, falei: "eh, que nem Florianópoles, tem morro tem praia, mas eu não gostei não tia, não gostei não tio, mas não é que, mas no início assim que estávamos aportando no porto de Santos eu pensei que era ali que era São Paulo até ai para mim eu falei: "mas cadê aqueles prédios o senhor não fala que tem fábrica que joga poluição e sai fumaça, que lá em Florianópoles não tinha isso, eu não sei não, não gostei desse São Paulo não.", "Mas não é aqui ainda, aqui é Santos, nos ainda temos umas horas para chegar em São Paulo". Aí pegou o tal trem, era de trem, que não tinha muita grana, aí pegou o trem veio, veio , veio e quando eu vi que chegou, aí eu falei: "ai credo, ai, também não gostei" Ih, Samir, aquele monte de prédio. Para começar em Florianópoles era só casa, só casa, aquelas casas da praia sabe, como eu te falei, eu criei assim, a minha primeira casa foi assim, em beira de praia de juntar conchinha, pegar peixinho, pegava, lá agente chama balaio, agente entrava na água de roupa e tudo, catava camarão assim eu falava: "eu não tenho essa, eu só vou ver isso aí tio, eu não quero ficar não" , já comecei a chorar, querendo voltar. Ele falou: "mas agora não volta mesmo, é só a primeira impressão" aí, dali do trem tomou um carro e foi. Quando eu cheguei também, era muito bonita a avenida Indianópoles, mas não é isso de agora não, não é não Samir. Aquilo ali era uma casa aqui, um monte de terreno baldio aqui, outra casa ali, a casa do meu tio era, para as casas que eu me criei no sul, casas grandes mas simples, né, que era o que meu pai podia fazer e dar para a gente, eu achei uma mansão aquilo, ai eu me sentia mas tinha hora que eu olhava assim, saia com minha tia ela ia comprar alguma coisa na 25 de Março e passava por um atalho que dava este terreno baldio para pegar o ônibus eu falava: "bonde ainda", cheguei aqui ainda tinha bonde, falava: "ai tia, eu não vou ficar aqui não, acho isso aqui tão ai não sei, ai olhava assim, sinto saudade da minha praia dos meus peixinhos." Tu não sabe o que quer tu vai pegar peixinho, tu é uma moça acabar de estudar e trabalhar, estudar, aí ela falou, aí eu falei é isso mesmo, falei eh primeira semana, a segunda semana, Samir quando fez um mês eu escrevi lá pra casa, eu não volto mais não, já estou amando esse São Paulo, estou adorando assim a primeira carta que escrevi porque naquela época não tinha telefone, 57, 58, né, eu sei que eu fui fazer um teste na Varig, a Varig não aceitou porque aeromoça negra não entrava. Fui na Cásper Líbero que ainda era na rua Cásper Líbero com a Santa Efigênia pra fazer jornalismo, não aceitava negro, mulher negra no caso aí eu pensei bem aí eu falei, eu já trabalhei na Santa Casa lá em Florianópoles o que que eu quero fazer se eu vou, estou sentindo na pele porque não falaram declarado mas quando eu vi a direção do curso falar eu já notei que era porque eu era negra. Aí eu pensei, eu saí de Florianópoles por causa do racismo agora eu chego aqui em São Paulo, tem racismo também. Mas tudo bem, eu gosto daqui, não esmoreci não, não fiquei com aquilo na cabeça porque eu já vinha de lá com esse problema, falei aqui eu não posso, falei aqui eu estou no mundo, no mundo que eu nunca vi, entra aqui e sai ali e sempre prédio coisa e cada dia eu ia conhecendo mais, sabendo mais, mais nunca, isso aqui engole Florianópoles eu não posso pensar assim, não posso perder a cabeça, minha cabeça crescer e vai crescendo que eu não posso ficar assim, aí eu falei, sabe o que mais eu cuidei tanto da bisavó, da avó eu sempre gostei de trabalhar com público, tenho dó de pessoas doentes, pessoas idosas, eu vou é enfrentar. Medicina eu não vou poder fazer não tenho dinheiro, papai não vai poder mandar mesada para mim porque para mim fazer medicina, tem que não trabalhar, falei: "eu vou fazer enfermagem." Como eu te falei que na prática eu já tinha um pouco de conhecimento fui para a Cruz Vermelha, porque eu pensei assim, para mim ir para outras universidades vou ter problema que eu sempre quis. Eu vou ser sincera para você, Samir, nessa vida eu sempre sonhei alto, sempre sonhei alto, eu sempre quis ir para o exterior eu falei, se eu faço uma universidade dessas vai ser difícil para mim galgar os degraus da fama na França, agora tem uma coisa, Estados Unidos, nunca, porque eu falei, lá vai ser igual Florianópoles aqui é o negro, aqui é o branco e eu nunca gostei negro, branco e raças. Para mim, o Japonês, o americano, o Francês, o Italiano, é tanto que fui noiva de um alemão que veio diretamente para cá. Não casei por causa de muito ciúme dele que eu sempre foi muito aberta, quero cantar, quero sabe, fui sempre até hoje com 66 anos dentro de mim tem aquela criança de 20 anos e eu vou morrer assim, não adianta querer me mudar. Então por causa de ciúmes, não consegui chegar ao casamento e outras coisas mais e aí eu fui lá para a Cruz Vermelha, fiz o teste, passei, fiz, aí naquela época em 57 para 58 não tinha, não era enfermagem padrão e a Cruz vermelha tem por método colocar militar, na época que eu estudei é tanto que meu diploma tá enfermeira comandanta, era regido pela linha militar, então dali eu fui trabalhar no Hospital das Clínicas, aí me formei fui trabalhar no Hospital das Clínicas aí depois umas amigas que fizeram mesmo curso comigo falaram para mim: "olha, você, tá surgindo aí um concurso para o serviço federal" que na época em 58 era instituto, era instituto de aposentadorias e pensões dos bancários, era instituto de aposentadorias e pensões dos comerciários, era instituto de aposentadorias e pensões dos ferroviários e tinha mais um e essas quatro amigas que estudaram comigo falaram assim: "Nilza nos vamos prestar concurso", naquela época era Rio de Janeiro que era a capital, né, não tinha Brasília, nem se sonhava, né, aí "vamos conosco", eu acho que eu não dou para fazer esses concursos assim, é difícil, falei: "acho que vocês estão querendo muito, vamos ficar aqui nas Clínicas mesmo que é tão bom", "Nilza, agente tem sempre galgar querer mais, querer mais, não ficar ali, só naquilo ali, nos temos que querer mais e você também vai querer mais". Aí parei para pensar elas falaram, federal é outra coisa, federal o salário era maior aí já o meu olho começou a crescer. Aí eu fui fazer né, no que eu fui fazer esse concurso o meu tio tava na montagem da parte, dessa parte aqui da Rebouças, a segunda parte que fica os queimados, não sei se você já ouviu falar às vezes, você é muito jovem mas quando o anfiteatro onde fazem as convenções, os médicos se reúnem, ali naquela parte, meu tio que construiu. Eu sei que, meu tio pegou um pé falso num andaime, caiu e morreu, aí ficou a minha tia, minha tia era uma pessoa que queria, meu tio já era uma pessoa severo igual ao meu pai, a minha tia redobrou sabe, aí ela achou que tinha que ser como ela queria, eu já estava com 23 para 24 anos falei: "não, assim não dá, não dá mesmo." Como eu pertencia a esse grupo de associação que era Juventude Operária Católica, aí eu procurei o padre, logo que eu cheguei aqui eu falei para os meus tios, eu vou entrar para a associação que eu era lá de São Paulo, vou procurar e eu encontrei aqui em São Paulo, aí eu comecei a freqüentar e o nosso diretor espiritual e que dirigia a Juventude Operária Católica aí já não era, já não fui para a operária porque aí eu já tinha feito o curso na Universidade Cruz vermelha, aí eu fui para Juventude Universitária Católica, aí eu conheci esse padre que era Salesianos ali da, onde hoje é a praça Princesa Isabel, aquele colégio, não sei se ainda tem aquele colégio ali que agora fechou ali, não sei se ainda tem colégio ali, era o Colégio Coração de Jesus, ali e ali tinha o padre que nos dirigia aí quando aconteceu isso a minha tia me aborrecendo tal, eu falei: "não, eu não sou mais, eu tenho 24 anos agora eu sou uma mulher adulta eu sei o que eu quero eu não vou desviar o caminho que meus pais me ensinaram mas ela também não tem nada ver agora, ele que era o irmão da minha mãe, ela casou com ele, respeitava, como respeitei até ela a 10 anos atrás, que ai ela faleceu, primeiro foi meu tio depois ela, aí eu falei: "Olha, não vai dar mais para eu ficar com a senhora, a senhora tem sua vida, eu vou ter a minha", aí fui lá para o colégio e falei para o padre, chamava-se padre Roberto na época que também é falecido e ele tinha um pensionato de madres aqui na Alameda Itu, aqui, lá na Alameda Itu, aí ele falou: "Oh, Nilza o que resta é o seguinte eu te apoio só que eu acho que tem que você não quer voltar à Florianópoles, conversar com seus pais, eu falei: "mas de jeito nenhum, se eu for lá ele vai querer que eu volte, eles vão querer que eu volte para lá e eu não quero" eu falei: "Eu vou esperar se eu entrar nesse serviço público que eu prestei." Aí nessa altura eu já tinha prestado o concurso, eu entro e depois quando eu tiver férias eu vou lá e falo com eles. Ah, não deu outra aí eu falei: "só que eu quero, tenho 24 anos mas eu quero que o senhor relate tudo ao meu pai o que esta acontecendo e à minha mãe." Aí ele mandou, catou a caneta escreveu e mandou dizer para eles que eu estava morando no pensionato eu ia continuar minha vida de estudo minha vida, sabe? De trabalho, eu tinha prestado um concurso para o serviço público federal e que eu não queria ir e ele também não achava uma boa eu ir que papai achava, o papai catou aí já tinha o ônibus, avião, já tinha mudado, né, a situação de Florianópoles daí ele veio, aí chegou eu estava no pensionato, falou com as madres que ia me levar embora, aí elas conversaram. Fizeram uma reunião com meu pai e eu e falaram: "Olha seu Cunha, ela não tem nada que des abone, ela é uma moça, ela quer galgar outros degraus, outras cidades, não quer mais voltar para lá." Aí eu pensava, vou voltar, aquilo tudo de novo, o racismo, aquela coisa, eu não quero ver o Nésio, o Nésio já tá casado, namorando, sei lá o que, não quero mais isso para mim. Aí acho que eu fiquei até com frustração disso que no fim acabei não casando, né? Aí eu falei: "sabe o que mais, eu vou ficar aqui papai, o senhor não pode me tolher, eu tenho 24 anos, não estou desobedecendo o senhor." Aí outra vez com o dedinho no meu nariz falou: "Só que vai ser aquele mesmo método Nilza de quando você saiu de casa." Aí eu falei assim: "o senhor pode ficar tranqüilo que eu nunca vou desabonar ao senhor e a mamãe aos meus irmãos as minhas irmãs, nunca vou desabonar. Eu vou ficar sempre naquela linha reta como o senhor me ensinou como o senhor me criou, fique tranqüilo, pode ir embora tranqüilo." Aí ele ficou mais três dias aí, e foi embora. Aí eu fiquei. Ai foi duro, tinha de pagar, aí eu queria fazer canto, violão, é como eu te falei, eu não queria parar, mas aí sabe o que eu fui fazer? Aí fiz o concurso, passei, aí fui, primeiro hospital quando você desce a Brigadeiro que sai da Paulista, agora é Hospital do Estado, aquele foi meu primeiro hospital público que eu trabalhei - federal. Aí fiz concurso, passei, aí o, até o presidente, o conheci o presidente Getúlio Vargas que foi ele quem inaugurou, veio do Rio para cá para inaugurar tudo, né? Comecei, e vou te falar; entrei lá, lavei chão, tudo, não fui já ficar de enfermeira não. Depois que lavamos tudo, a sala cirúrgica, tudo, ai o diretor falou assim: "Olha você passou muito bem." Passei com, na época 8, 9, 10 eram as notas que eles davam na prática e na escrita. E eu não sei. "Você vai começar no centro cirúrgico comigo" - chamava doutor Décio Pedroso Paxeco primeiro diretor desse hospital. Hoje houve uma fusão com o estado e eu acho que o presidente Fernando Henrique, pra num antes dele, o outro presidente, não sei se foi o outro presidente que agora eu não me lembro o nome que achou que tinha que dividir, ficar os hospitais públicos, coligar com a saúde estadual. Então, ali agora é hospital SUDS que agora ficou SUDS todos os postos de saúde de hospitais federais, estaduais. Coligaram-se, né, então é tanto que eu sou aposentada pelo Ministério da Saúde e a qualquer hora que eu quiser ser atendida eu tenho minha carteirinha de convênio. Eu posso ir no Hospital das Clinicas me tratar lá internar lá, posso usar. Aí eu falei não, eu vou ter que fazer umas coisas, aí comecei a trabalhar e pagar lá mas ganhando aquele salarinho que mal dava para pagar o pensionato, mas nunca fiquei devendo, às vezes quando não dava pra comer e ir também ao curso de enfermagem aí era comer sanduíche de mortadela, era comer pão - nós brincamos muito, as colegas do passado, né? Chegávamos do hospital e dizíamos: "estou tão cansada, fazer estágio e não ter o que comer." Porque agente não podia se alimentar no hospital, na minha época, ainda tem mais essa Samir. Não se alimentava não, nem no Hospital das Clínicas e nem agora quando eu prestei concurso, foi para o federal, você tinha que trabalhar oito horas, doze horas, dobrar o plantão com um copo de leite e um pãozinho francês pequenininho sem, agente brincava, as colegas de trabalho, as profissionais que era pão virgem. Ah hoje não está bom não, é aquele pão virgem, melhor esperar, chegar em casa...

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