Thereza Bonincontro Maciel Leme

 

P/1 - Boa tarde, Dona Thereza.

R - Boa tarde. Tudo bom?

P/1 - Tudo bem, e a senhora?

R - Vamos levando, né?

P/1 - Pra gente começar a entrevista, eu gostaria que a senhora dissesse o nome da senhora e a data de nascimento.

R - É Thereza Bonincontro Maciel Leme, 13 de novembro de 1927.

P/1 - E em que cidade a senhora nasceu?

R - Nasci aqui em São Paulo mesmo, no Bom Retiro, na Rua da Graça.

P/1 - O nome dos seus pais?

R - Meu pai era Lourenço Bonincontro e minha mãe chamava Vitalina Noveli Bonincontro.

P/1 - E a senhora conheceu os seus avós, a senhora sabe o nome deles?

R - Eu conheci só da parte da minha mãe, o meu avô materno chamava José Noveli, e a minha nona chamava Sabina Santosalvo, tudo junto.

P/1 - Santosalvo?

R - Santosalvo tudo junto. Eles eu conheci.

P/1 - Os seus paternos não?

R - Não, os paternos eu só conheci esse meu avô que eu falei pra você que eu vou contar a história, eu conheci mas assim, eu era menina ainda, ele viveu mais uns três ou quatro anos, eu tinha uns onze anos quando eu conheci, depois de uns três ou quatro anos ele faleceu.

P/1 - E qual o nome dele?

R - É Antônio Bonincontro.

P/1 - E a senhora sabe a origem da família da senhora?

R - Sei, paterno é Napoli.

P/1 - Itália?

R - É, e da minha mãe era Veneto, da parte da minha mãe era Veneto.

P/1 - E eles chegaram ao Brasil quando, a senhora tem idéia?

R - Olha, meu pai, como o meu pai nasceu aqui, ele que contava, ele calculava que eles tivessem chegado no final do século XIX, tipo 1897, 98, por aí, porque só um que era italiano, o resto nasceu aqui.

P/1 - Só um irmão do...

R - Só o mais velho que era italiano, então, como eles nasceram, então, meu pai que era dos mais novos nasceu em 1904, e tinha um irmão dele mais novo que deve ter nascido em 1906, por aí.

P/1 - E por parte de mãe?

R - Da minha mãe, então, como eu falei, eles eram venetos, aí eles vieram também nessa mesma época, um pouquinho mais tarde porque desses aí já nasceram todos aqui no Brasil, meus tios nasceram todos aqui no Brasil, a minha mãe está com 93 anos.

P/1 - A mãe da senhora está viva?

R - É, minha mãe vive ainda, só que ela está internado porque ela está com problema de cabeça. Então, eu calculo que esse meu avô talvez tenha até vindo antes, mas, talvez casou e veio pra cá, eu calculo assim, mas eles nasceram todos aqui, os meus tios.

P/1 - E a senhora sabe como o pai da senhora conheceu...

R - A minha mãe?

P/1 - A sua mãe?

R - Sei. O meu pai, ficou uma única irmã dele, ficou os quatro homens vivos e uma única irmã, aí ela casou e foi morar em Itú, e o meu pai como era muito ligado a irmã que era a mais velha ele ia sempre visitar, e a minha tia era vizinha desses meus avós maternos e conheceu a minha mãe, lá assim...

P/1 - Lá em Itú?

R - Lá em Itú, eles casaram... 1926, eles casaram, meu pai era rapazinho, uns 20, 21 anos, ia pra lá e conheceu ela, casaram. Até tem uma história muito engraçada que o meu pai contava, que o meu pai era de São Paulo, então, meu nono José não queria que ele namorasse com a minha mãe porque diz que os moços de São Paulo eram tudo perdido (riso), sabe, achavam que eles eram mais malandros, enfim, foi o genro que ele mais gostou.

P/1 - É?

R - É. Modo que a pessoa tem, né, "Os moços de São Paulo são tudo perdido", que eram mais ativos, mais inteligentes, criados numa capital, nascidos numa capital, no fim deu tudo certo.

P/1 - E aí eles se casaram e mudaram pra cá?

R - Aí é, casaram, meu pai já morava aqui, né, aí casaram o meu pai já trouxe a minha mãe pra cá. Mas lá em Itú era uma delícia, sabe, a minha nona morava numa casa enorme bem no centro da cidade, tinha 11 cômodos, então, tinha uma sala, vamos dizer que era do tamanho disso daqui, e os quartos assim, uma parte dava pro fundo e outra parte dava pra frente, mas na frente assim que você saía na janela já dava na calçada. Então, a gente ia passar as férias lá, é uma coisa que eu nunca esqueço, sabe, era uma delícia, a minha nona acordava a gente de manhã pra ver o leite que ela ia pegar que a vaca passava na porta.

P/1 - Ah, é?

R - Então, ela chamava, a gente gostava, era daqui, sempre morando lugar mais de asfalto, então, a gente nem tinha aquilo lá, então, ela acordava a gente, até a gente na cama assim saía na janela, que ela ia comprar o leite da vaca que passava na porta, então, a gente levantava. Aí quando tinha, lá é uma cidade muito religiosa, tem muitas igrejas muito bonitas, então, a gente ia assim, por exemplo, na Semana Santa, ela chamava pra gente ver a procissão que passava na porta, era lindo, nossa, era maravilhoso! E os meus tios moravam todos lá, só mesmo a minha mãe que morava pra cá, depois de alguns anos veio todo mundo. Então, eu lembro daquilo, até do sabor do café com leite, você acredita? Os pães que a minha nona fazia eram desse tamanho, ela punha no peito, assim, pra cortar, e era uma cozinha tão grande, tinha um forno a lenha aquela época, e tinha um forninho de tijolo dentro da própria cozinha de tão grande que ela era, e a minha nona ali assava as pizzas, os pães, aquele macarrão que ela fazia na mão, tudo feito na mão, então, eu lembro até do sabor daquela comida daquele tempo acredita? E olha que faz tempo, né?

P/1 - Pois é, e a senhora tinha quantos anos nessa época?

R - Ah, eu era novinha, eu desde pequenininha sempre fui pra lá, depois quando eu tinha acho que uns 12 anos é que eles mudaram aqui pra São Paulo inclusive vieram morar aqui na Fradique Coutinho, só que ali perto da Rebouças, que veio os meus tios mais novos que estavam solteiros, como todo mundo estava casando vindo pra cá, então, eles trouxeram os meus avós também.

P/1 - E em que ocasiões vocês iam pra Itú?

R - Sempre férias de colégio, de escola, pra passar Natal lá e tudo, e às vezes também na Semana Santa a gente ia, mas assim, meu pai levava e deixava e depois ele voltava porque ele tinha que trabalhar.

P/1 - E vocês iam de que pra lá?

R - Ah, de trem (riso), na Maria Fumaça, sabe?

P/1 - E como é que era a Maria Fumaça?

R - A Maria Fumaça a gente precisava fechar a janela porque o carvãozinho do trem entrava e furava a roupa das pessoas, aí quando chegava, aonde que era? Acho que era em Mairinque, a gente tinha que descer do trem, fazer uma espécie, que eles falavam de baldeação, pra pegar o ramal ituano, que ia pra Itú, porque era assim, em Mairinque o trem parava e seguia pra outro lugar, se não me engano era pra Bauru, pra Botucatu, e a gente descia em Mairinque tinha o ramal ituano, ó, eu lembro bem das coisas, e o meu pai levava, então, naquele tempo eles chamavam os ônibus de jardineira, aliás, nem era ônibus era uma espécie de microônibus, mas como a estrada era muito perigosa, que era tudo de terra, passava por Tietê, por um monte de lugares, então, o meu pai achava que era menos perigoso viajar de trem e a gente viajava de trem. Quando chegava no fim do ano o meu pai punha a gente no trem com a minha mãe e ele ficava e só ia... porque ficava trabalhando, aí a minha mãe ficava com a gente lá.

P/1 - E quantos irmãos?

R - Que ela tinha?

P/1 - Não, que a senhora tinha.

R - Eu, só três, mas o meu irmão já foi menos porque ele nasceu dez anos, ele é dez anos mais novo que eu.

P/1 - Então, era mais a senhora...

R - Mais eu e a minha irmã, mas depois o meu irmão chegou a ir também muito, até eu me lembro uma vez que ele veio perguntar, quando ele era pequeninho nós fomos pra lá, tem um primo lá, o Luir, chamou o meu irmão pra jogar fubeca, o meu irmão falou pra mim baixinho, que eu era a mais velha, "Therê, o que é que é fubeca?", eu falei "Eu também não sei", você não imagina o que é que era, era bolinha de gude.

P/1 - Bolinha de gude chamava de fubeca?

R - Bolinha de gude eles chamavam de fubeca, e o meu irmão não sabia porque era aqui de São Paulo, até achei uma coisa muito interessante não esqueci mais, fubeca, vamos jogar fubeca.

P/1 - E a família da mãe da Senhora era grande lá em...

R - Ah, era grande, eles eram em 11 irmãos, tem bastante. Agora vivo só está a minha mãe e um tio meu mais novo, os outros todos faleceram.

P/1 - Então, eu imagino que tivessem muitas crianças.

R - Tinha, nossa! Tanto tinha, que nessa sala que eu falei pra você que era enorme, falavam varanda nem falavam que era sala, tinha uma mesa enorme pra adulto e assim tinha uma mesa pras crianças porque o meu avô não admitia que criança sentasse na mesa, ele era assim bravo, sabe, só com o olhar dele a gente tinha medo dele, então, ele era duro, e ninguém podia dar uma palavra enquanto estivesse conversando, então, os meus tios faziam Liceu lá de Artes e Ofícios e fizeram uma mesa pras crianças, então, ele achava que primeiro servia as crianças, aí as crianças iam brincar, aí servia os adultos, e tinha aquele quintal enorme cheio de pé de fruta, sabe, até eu me lembro uma coisa muito engraçada que até hoje eu não como cabrito, porque o meu avô matava o cabritinho lá no quintal, mas a gente nunca tinha visto, mas criança muito curiosa, eu e as minhas primas mais velhas, "Ah, vamos ver como é que o nono faz", fomos espiar, num dos quartos ali espiar. Ah, menina, o meu avô amarrou o cabritinho assim pelos pés, ele ficou pendurado assim, aí ele tinha um punham comprido assim e ele enfiou, e a minha nona com uma frigideira apanhando o sangue, aquilo a gente comia e não sabia do que é que era, era gostoso a gente comia, ah, pra que, nunca mais nós comemos nem cabrito, nem aquele, até hoje, às vezes eu vou no meu filho lá em Curitiba ele gosta, ele compra, eu nem olho.

P/1 - E o cabrito não chora, não é?

R - Chora, ele geme, dá um dó viu, acho que mais por isso que nós deixamos de comer, eu e minha prima mais velha a gente não pode nem ver cabrito, eu não sei nem se a minha prima vive ainda porque ela mudou de Itú, não deixou endereço, então, eu não sei, da família eu não sei mais ninguém, primos, nada, não sei mais de mais ninguém.

P/1 - E, Dona Thereza, essa casa era uma casa na cidade?

R - Na cidade, eu não me lembro o nome da rua, se não me engano parece que essa caso hoje é um colégio, mas era enorme, então, tinha a porta assim com um corredorzão enorme, não fechava a porta, porque os meus tios tudo rapaz entrava e saía, entrava e saía, então, não fechava a porta, lá não tinha perigo também aquela época, tinha aquele corredor assim enorme, aí já tinha aquele salão e pra cá era a cozinha, e a cozinha era do comprimento da casa, então, tinha quartos que davam pra frente, quartos que davam pro fundo, e por incrível que pareça, naquilo tudo tinha um banheiro, porque naquela época...

P/1 - Devia ser uma briga.

R - Mas a maioria dos quartos ficavam tudo vazio, sabe, porque a maioria era casado, ficava vazio mesmo. Então, como eu te falei, eu me lembro daquilo assim uma coisa que ficou na minha memória. Aí agora as coisas do meu pai eram o que ele contava porque coitado deve ter tido uma vida sacrificada, sem pai, sem mãe, irmã morreu, as irmãs que podiam cuidar, depois só ficou essa irmã e dois irmãos mais velhos, e era ele e o mais novo, os dois eram pequenos, porque você vê, 1914, meu pai nasceu em 1904, tinha dez anos, e o que ele lembra foi só das desgraças.

P/1 - E quais eram as lembranças dele?

R - Não, ele contava isso, que eles sabem que eles vieram daquele jeito que, pra imigrante ali, né, mas como o meu avô não veio pra ir pra fazenda como, pras fazendas, ele ficou em São Paulo, como o outro que foi pra Itú, esse ficou em São Paulo, e foi morar na Bela Vista que era o bairro de famílias italianas, então, o meu avô e minha avó contava pro meu pai esse negócio do imigrante que chegava de trem, desembarcava em Santos, então, chamavam eles, como dizia na novela, de fedido, porque o tempo todo que eles ficavam dentro do navio eles não tomavam banho, não conseguiam trocar de roupa, porque era um montoeira de gente, então, quando desembarcavam, você já viu, você fica um dia sem tomar banho já viu, imagina dias sem tomar banho, ou meses, sei lá, aí foi pra lá, aí o meu pai falou que lá, até os sete anos de idade ele não falava português, ele só falava italiano, tanto é que o meu pai até morrer falava tudo italianado, e era brasileiro, porque os pais conversavam em italiano, os vizinhos eram todos italianos, então, ele foi aprender o português quando foi pra escola, que ele foi aprender o português, e o meu pai falava um pouco de francês também, porque parece que a minha avó, a mãe dele, se não me engano era descendente de francês, que ela chamava (Aiarda?) Thereza (Aiarda?), e a minha mãe também dizia que o meu avô, pai dela, tinha descendência de holandês, tanto é que ele tinha aquele olho azul, e a minha mãe tem também, e tinha aquele meu primo que foi deputado (Hélio Ansaldo?) também era assim, olho azul, sabe. É isso, eu sei o que o meu pai contava dos bondes puxado a burro, ele contava muito, ele contava da... contou da crise de 1929, aquele negócio que aconteceu do café, que já tinha eu com quase dois anos, e ele disse que trabalhava três dias por semana só, e que comeram não sei quanto tempo só feijão com macarrão porque não tinha nem comida, não tinha mesmo nem comida, era o que tinha era o feijão e o macarrão porque a minha mãe fazia em casa, então, passou um bom tempo comendo feijão com macarrão, a única coisa que não faltava era o leite pra mim que inclusive vinha a vaca na porta, eu fui criada com leite de vaca.

P/1 - Aqui em São Paulo?

R - Aqui em São Paulo, é. Então, isso que o meu pai contava muito.

P/1 - A Senhora disse que o seu pai perdeu os pais muito cedo?

R - O meu pai, como eu estava contando já, foi na gripe, naquela peste que deu, 1914, da Guerra de 1914, a minha nona saiu com as duas filhas, não sei se fazer compra o que foi, e não voltava, aí o meu avô saiu atrás e não voltou também, aí o mais velho estava na guerra, os outros eram pequenos, aí esse meu tio que era mais velho, que era o Nicola, ele saiu procurar, morreu, enterrava, ele falava que vinham aqueles carroções de lixo, puxado a burro, e a pessoa morria eles colocavam, às vezes, acho que até enterrou gente viva, viu, e colocava naquilo e depois ia numa vala comum e jogava todo mundo lá e enterrava.

P/1 - Era a gripe espanhola que chamava?

R - A gripe espanhola, então, e aí, bom ficou sendo o que foi, eles morreram, morreram os três. Aí passou, o meu pai viveu sempre sozinho tudo, depois casou, fez a família dele e tudo, aí um tio meu, esse Nicola, ele foi com um amigo visitar um parente desse amigo no Juqueri, antigo Juqueri, que hoje é, tem outro nome, né, nem sei se existe também, e lá na hora de se identificar o moço que fez a identificação que trabalhava lá falou "Nossa, aqui tem um Senhor que tem esse seu sobrenome, a única coisa que ele se lembra do passado dele é o nome dele", aí o meu tio perguntou como chamava, aí ele falou "Antônio Bonincontro", aí o meu tio "Pô, meu pai chamava Antônio Bonincontro, né?", aí pediu pra ver, aí ele foi ver, foi ver e começou a conversar com ele, em italiano, né, em napolitano, e ele lembrava, mas só do passado porque desde aquele dia que ele levou aquele choque, perdeu a memória, ele não recuperou mais a memória, então, ele só lembrava do passado.

P/1 - E quando é que foi isso que o seu tio encontrou o seu avô?

R - Foi em 1938, por aí.

P/1 - Então, ele ficou 20 anos no Juqueri?

R - Ficou, então, porque não tinha os meios de comunicação que tem hoje, por exemplo, você vai numa delegacia "Sumiu meu marido, meu pai, meu filho", pelo nome às vezes a pessoa acha, você vai na televisão, aquele tempo não, nem por nome eles não procurava, morreu, morreu, pronto, sumiu, sumiu, nunca mais achava.

P/1 - E o que é que aconteceu com ele?

R - Então, ele naquele choque que perdeu a mulher e a filha, você vê que ele ficou desmemoriado, não falava coisa com coisa levaram pro Juqueri, falou "Esse aí é louco", levaram pro Juqueri.

P/1 - E a mulher e a filha morreram?

R - Tinha morrido as duas filhas.

P/1 - Saíram pra fazer...

R - Saíram pra fazer compra e não voltaram mais, você vê que morreram lá pela rua e enterraram, assim sabe, eles enterravam assim como faziam o Holocausto lá, os nazistas com os judeus, só que era claro outra coisa, e ele saiu procurando, não achou, falaram "Ah, morreu, morreu, deve ter enterrado, não sei o que", porque a turma não tinha, levou aquele choque, perdeu a mulher, as duas filhas, e pensando nos pequenos, como ele ia fazer pra criar os outros, né?

P/1 - Nunca mais voltou?

R - Nunca mais voltou, então, foi dado como morto, tanto é que alguns documentos do meu pai tinha pai falecido, que o pai era falecido, aí aconteceu isso. Final de 38 assim que o meu tio que foi lá, aí foi conversou com o meu avô, perguntou pro meu avô tudo, então, ele falava tudo do passado, o nome dos filhos tudo, mas quando o meu tio falava que fazia tantos anos ele não acreditava porque ele parou naquele tempo, aí a gente começou, o meu pai e o meu tio quis tirar ele de lá e levar pra casa, aí os médicos aconselharam que não fizesse isso que ele não ia conseguir viver fora daquele ambiente, ele estava ali já a muitos anos, ele não ia (viver?). Aí a gente ia visitar todo domingo, aí a minha mãe perguntava pra ele se ele tinha vontade de comer alguma coisa, então, a minha mãe fazia macarronada, fazia lasanha, que ali no Juqueri não tinha, levava a tal brachola que o italiano faz, aquela carne enrolada, então, ela fazia tudo o que ele pedia e a gente ia levava e almoçava com ele ali como um piquenique.

P/1 - E a Senhora e os seus irmãos  foram?

R - É, eu e o meu irmão era pequeninho, devia ter acho que um ano, nem um ano, eu com a minha irmã menor, a minha irmã é três anos mais nova do que eu, eu devia ter uns 11 anos, 12, por aí, e a minha irmã três anos mais nova, era bonito pra gente.

P/1 - Como é que era lá?

R - Ah, era bonito, tinha hortênsias tudo plantado assim na beirada que eles mesmos cuidavam, os internos, sabe, aquilo era muito bonito, muito bem tratado, aquelas árvores, tinha aqueles bancos, a gente sentava debaixo das árvores, tinha mesa pra família montar pra comer, a minha mãe levava toalha tudo, a gente punha ali, comia, eu com a minha irmã brincava, corria, sabe, ali, até que era uma coisa, pra gente aquilo não era, sabe, não estava ligada naquela desgraça que o meu pai estava passando, pra nós era tudo, era criança, pra nós era tudo festa, depois que passou que a gente vai lembrando, aí quando, acho que foi uns três ou quatro anos depois, meu pai recebeu uma carta que ele tinha falecido, e acabou enterrando lá no cemitério deles mesmo, ficou por ali mesmo.

P/1 - E o pai da Senhora qual era a atividade dele?

R - Como assim, eu te falei que ele era uma espécie de químico, tinha naquela época, hoje vocês conhecem por piso, então, naquele tempo existia um elemento que fazia o piso que chamava ladrilho, então, aquilo era feito numa fôrma com os desenhos, era uma fôrma de metal, de ferro, não sei, então, os desenhos, punha tinta, como você faz hoje, como direi, um doce, uma coisa, então, por exemplo, era amarelo com vermelho, com não sei o que, então, tinha cada caixinha daquela uma cor de tinta, e o meu pai era chefe, ele que misturava, a cor certa das tintas conforme o cliente tinha pedido, porque tinha mostruário, meu pai que bolava o mostruário, "Ah, vamos fazer com um desenho assim, assim, assim", aí tinha o que fazia a fôrma, então, eu me lembro que eu vi fazer, aí punha naquela caixinha, aquela fôrma, aí punha as cores e ia no forno, depois tirava do forno botava pra secar, aí quando tirava era o tal piso que vocês conhecem hoje, que a minha mãe ainda tem, na casa antiga da minha mãe ainda tem ladrilhos feito com aquela coisa, sabe, e aí que colocava como vocês falam piso hoje, agora hoje é tudo diferente, então, era isso que o meu pai fazia, uma espécie, eles falavam antigamente, ladrilheiro porque fazia o ladrilho.

P/1 - E qual era o lugar, tinha um lugar específico que ele trabalhava?

R - Ah, ele trabalhava ali na, com a família Martinelle, era na Avenida Santa Marina, fábrica beirando a estrada de ferro e a gente morava na Lapa, então, meu pai ia até a pé, era pertinho, então, era na Avenida Santa Marina beirando a... eu nem sei o que é que é lá hoje, e aquela fábrica era dono do Martinelle, da família Martinelle, tinha Vicente Martinelle, aí não me lembro do outro, não me lembro o nome do outro, e eles também moravam ali na Lapa na Rua Martim Tenório, esses Martinelle, tinham casa ali tudo, agora demoliram tudo.

P/1 - A Senhora chegou ir alguma vez com o pai da Senhora?

R - Eu ia, às vezes eu ia lá, a gente ia lá com o meu pai, a gente levava almoço pra ele, sabe, ia eu e a minha irmã, a gente levava almoço pra ele, quando estava maiorzinha, levava almoço e ficava lá, ele mostrava, meu pai sempre gostou de mostrar as coisas como fazia, então, mostrou como é que fazia, por isso que eu estou sabendo explicar, mostrou como é que fazia o tal ladrilho, ele trabalhava (ali?). Tanto é que o meu pai tinha uma asma que ele passava mal, sabe, precisava ficar na frente de ventilador que ele não conseguia respirar, o peito dele chiava, não sabia do que é que era, fizeram tudo quanto era exame não sabia do que é que era, bom, é asmático. Quando ele se aposentou a asma dele sumiu, aí o que descobriram os médicos? Que era daquele pó, chamava acho que amianto, aquele pó, ele era alérgico aquele pó por isso que ele tinha aquela asma, olha, depois que estava aposentado, depois logo depois ele morreu, morreu com 64 anos, morreu novo, ele teve um câncer no estômago. Então, mas ele era bom pra contar história, a minha mãe já era mais fechada, ela não contava muita coisa, alguma coisa que a gente sabe assim os meus tios, eu tenho esse meu tio que ainda é vivo, ele deve ser uns 12 anos mais velho que eu só, naquele tempo era assim, né, mãe e filha tinha filho junto (riso), é, eu acho que ele deve ser uns 12 anos mais velho do que eu, eu vou fazer 73, ele deve ter uns 85, não, perto dos 90 eu acho, porque a minha mãe está com 93, é, ele deve ter uns 87, por aí, 86, 87, não me lembro muito bem. Mais alguma coisa?

P/1 - Então, que rua a Senhora falou que a Senhora nasceu mesmo?

R - Na Rua da Graça, no Bom Retiro.

P/1 - E vocês moraram no Bom Retiro quanto tempo?

R - Bom, deve ter morado pouco tempo porque a minha irmã mais nova do que eu ela já nasceu ali na Água Branca na Rua Clélia, então, e o meu irmão também nasceu ali na Rua Clélia.

P/1 - E a Senhora tem lembrança do Bom Retiro?

R - Do Bom Retiro não porque eu saí pequenininha de lá, agora o que eu me lembro bem é quando a gente morou na Rua Guaicurus e atrás passava o trem, então, na Revolução de 30 eu ficava olhando, passava o trem cheio de soldados, abanava a mão pra gente e tudo, isso eu me lembro bem, mas teve uma coisa que eu me lembro, que o me pai contou, e dava risada, disse que eu tinha uns três anos, a minha irmã acho que nasceu ali na Rua Guaicurus, tinha uns três anos o meu pai disse que vinha vindo do serviço e eu ia indo com a boneca, pro caminho da onde ele vinha vindo.

P/1 - Sozinha?

R - Sozinha, ______ que a minha mãe estava ocupada lá com a minha irmã e eu vi a porta aberta (riso), criança, né, aí o meu pai falou "Aonde você vai?", então, meu pai falou "Você estava de chinelinho", "Onde você vai?", eu falei "Eu vou na Lapa", falei pro meu pai (riso), e o meu pai vinha da Lapa, aí ele falou "Não pode ir na Lapa sozinha", aí pegou na minha mão e me levou pra dentro de casa, e ele sempre contava essa história. Imagina, pequerrucha assim queria ir na Lapa sozinha, então, me lembro muita coisa assim, meu pai contava muito da Bela Vista que ele nasceu e foi criado ali, nasceu ali na Rua 13 de Maio, aí ele lembra da Igreja da Querupita, ele conta que ele ia brincar aonde era Morro dos Ingleses, tem a Rua dos Ingleses, aquela parte alta chamava Morro dos Ingleses porque os ingleses que estavam no Brasil, que eles que fizeram a Estação da Luz, várias coisas aí, né, e eles jogavam golfe ali, então, o meu pai ia brincar lá no Morro dos Ingleses, pegava bolinha pros ingleses, quando estava de folga ia brincar lá, e ele sempre conta isso, diz que os ingleses eram muito mão aberta, dava dinheiro pra eles, mas acontece que como eles davam dinheiro deles o meu avô achava que não valia nada (riso), sabe?

P/1 - Porque a moeda era diferente.

R - Era diferente, como o meu avô, coitado, acho que era mais ignorante, vamos dizer o português claro, apesar que sabia ler e escrever tudo, então, ele achava que o dinheiro não valia aqui como era, acho que era libra já, não é?

P/1 - Já.

R - E o meu pai diz que acabava ficando por lá e jogando fora, falei "Olha só!" Agora tem uma coisa que o meu pai sempre contava, o meu pai falou "Olha, o meu pai não foi uma pessoa ambiciosa", porque tinha acho que, tem uma família árabe os (Aldeses?) acho que chamava, um nome assim, (Aldra?), diz que eles chegaram no Brasil eles cercavam os terrenos e registrava, e o meu avô quando veio podia ter feito isso, podia ter sido dono de um monte de terras ali na Bela Vista, mas nunca se interessou, sabe, pegar terra, porque naquele tempo era assim, essa gente toda que ficou rica aí, vamos dizer, Matarazzo, Martinelle, eles faziam isso, terra ali não era de ninguém, então, eles cercavam e registravam no nome deles, quer dizer, que desde que o mundo é mundo o poderoso comendo o pequeno, isso aí é...

P/1 - E aí o seu pai não...

R - É, o meu pai era criança e o meu avô nunca pensou nisso, nunca se interessou, tanto é que sempre foi pobre, ele morreu pobre e sempre foi pobre, e o meu pai também, não éramos miseráveis, mas pobre.

P/1 - E a Senhora tem lembrança dessa segunda casa que vocês foram morar?

R - Qual casa?

P/1 - Na Guaicurus, né?

R - Tenho.

P/1 - Como é que era?

R - Era assim, tinha um portão grande, e naquela época, hoje chama cortiço, e eu acho que naquela época também, então, tinha várias casinhas, que geralmente, antigamente vivia assim, então, entrava naquele portão grande, era uma espécie de uma vila, hoje se fala vila com várias casinhas, mas era tudo separadinho, não era tanque junto, banheiro junto, isso não, isso eu me lembro que eu era pequena eu lembro que a minha mãe me levava no banheiro, fechava a porta e uma bacia grande pra dar banho, isso eu lembro bem. Aí depois dali a gente mudou pra Rua Clélia, que lá que nasceu o meu irmão, e o meu irmão é sete anos mais novo que a minha irmã, era sete anos mais novo que a minha irmã, e eu dez anos, e nessa, aí quando a gente estava ali na Rua Clélia que o meu pai comprou o terreno na Lapa e construiu a casa, aí a gente, a casa está lá até hoje, aí a gente foi morar pra lá, depois eu só saí de lá quando casei, aí vim morar no Planalto Paulista, nós compramos uma casa ali no Planalto Paulista, aí depois o meu marido morreu, fiquei com os três filhos pequenos, não dava, era pra pagar, né, por mês, aí fui levando a minha vida com as crianças, trabalhando, graças a Deus ninguém saiu da escola, está todo mundo aí com a família deles, isso é o principal, e todos bem, não são ricos mas eles estão, vamos dizer, numa classe média média (riso), não digo numa classe média, mas numa classe média média, vivendo do próprio trabalho.

P/1 - Dona Thereza e quando a Senhora entrou na escola, com quantos anos?

R - Ah, com sete anos. Naquela época era só com sete anos.

P/1 - Vocês moravam na Guaicurus?

R - É, morava na Guaicurus e o colégio era, ai como é que chama aquela rua, não me lembro da rua agora, eu trouxe, acho que eu tenho aqui, acho que eu trouxe a foto.

P/1 - A foto da escola?

R - Da escola, é, olha, só que não tem o nome do colégio.

P/1 - Não tem problema.

R - Ah, tem aqui, Grupo Escolar Thomaz Galhardo, eu é essa de cachinho que está sentada aqui, olha.

P/1 - E como foi entrar na escola, conhecer as crianças?

R - Então, a gente morava na Rua Clélia e esse colégio, eu não sei se tem endereço atrás, tem?

P/1 - Não tem. R - Eu não lembro o nome da rua lá, era perto daquela Praça João (Vianei?), aquela igreja lá que tem lá. Eu lembro que a gente vinha, eu morava mais pra lá, então, a gente vinha pro colégio e tinha uma casa que tinha uma árvore enorme, às vezes a gente perdia a hora olhando o bicho preguiça mudar de galho (riso).

P/1 - Tinha um bicho preguiça?

R - Tinha um bicho preguiça, era uma casa enorme e tinha uma árvore, nessa árvore tinha um bicho preguiça, então, a gente ficava tão encantada com aquilo que a gente acabava ficando olhando o bicho preguiça e perdendo a hora da escola, chegava em casa já viu, né, aí a minha mãe falava assim "Você vê o bicho preguiça quando voltar, não quando ir", aí eu me lembro bem.

P/1 - E tinha uniforme ________?

R - Tinha uniforme direitinho. Depois daí, nós mudamos pra Lapa, aí eu fui terminar no Guilherme Kuhlmann lá na Lapa.

P/1 - E era uma escola do estado?

R - Colégio do estado porque naquele tempo era colégio do estado, e era muito bom, viu, meus filhos ainda pegaram colégio do estado bom, sabe, o meu mais novo entrou na faculdade sem fazer cursinho, sem nada, experimentou fazer, entrou, a minha sobrinha, filha do meu irmão também, estudou lá na Lapa no Pereira Barreto e ela não queria fazer mais nada, aí o meu irmão falou "Bom, então, vai ser dona de casa", falou pra ela, aí ela com uma amiga falou "Ah, vamos tentar entrar numa faculdade?", só pra ver, e não entraram? Nas três que elas fizeram elas entraram, ela hoje ela é economista, casada, ela tem 30 e poucos anos, então, a escola era tão boa que o pessoal entrava na faculdade sem precisar fazer cursinho.

P/1 - E vocês iam a pé pra escola, sempre foram a pé?

R - Sempre a escola foi perto de casa, sempre perto, dois quarteirões no máximo.

P/1 - Tanto essa quanto a...

R - É, quanto a outra, sempre foi perto.

P/1 - E a Senhora ia com quem, com os amigos?

R - É, tinha as amigas, os amigos, antigamente a escola não era mista, até que eu me lembre não era mista.

P/1 - A Senhora nunca estudou em escola mista?

R - Não, nunca estudei em escola mista.

P/1 - Sempre escola pra menina?

R - Sempre escola só pra menina.

P/1 - E os professores eram homens ou mulheres?

R - Eram tudo mulheres, os diretores é que eram homens, aliás, esta professora aqui a única que eu gravei, porque ela era ruim, de puxar a orelha da turma, a meu Deus, olha, nem do nome dela eu não me esqueci, ela chamava Dona Elza, mas era viu, vou te contar, gente tinha pavor dela, hoje os alunos é que batem nas professoras, né, pelo que eu vejo e tenho visto por aí, a gente tinha um respeito pelos professores, hoje...

P/1 - Hoje não tem mais.

R - Hoje não tem mais esse respeito.

P/1 - E aí a Senhora estudou nessa escola...

R - Nessa escola até, está escrito aí, não?

P/1 - 18 de setembro de 1937, é isso? Dez anos?

R - 37, é. Aí depois eu fui lá pro outro, então, aqui eu devia estar na terceira série por aí.

P/1 - Aí a Senhora mudou pra lá.

R - Aí mudei pro outro, terminei lá no outro. Eu faço aniversário no fim do ano, sabe, então, acho que eu fiz 12 anos em novembro, é foi, acho que foi isso aí.

P/1 - E como é que chamava, primeiro grau, ensino fundamental?

R - Não, era primeiro ano, segundo ano, terceiro ano, falava assim, primeiro ano, segundo ano, terceiro ano.

P/1 - E quarto ano?

R - _____ como agora, primeiro grau, não era, primeiro ano, segundo ano, perguntava "Que ano que a sua filha está?", "Está no segundo ano" ou "Está no terceiro ano", era o que falava.

P/1 - Entendi. E aí até que ano? Até a oitava?

R - Não, quatro.

P/1 - O quarto. R - Aí não tinha mais no colégio do estado.

P/1 - Ah, era só até...

R - Aí você tinha que ir pro colégio particular. Aí como eu tirei nota alta eu ganhei o primeiro ano do ginásio de graça, que era um sorteio que eles faziam lá, fui eu e mais uma, nós ganhamos.

P/1 - Na escola particular?

R - É, no Campos Sales. Aí a gente foi fazer, aí o meu pai fez um esforço e deixou terminar, que é o único estudo que eu tenho.

P/1 - E os seus irmãos estudaram também o ginásio na escola particular?

R - Não, a minha irmã fez escola de comércio, agora o meu irmão fez, o meu irmão fez no Campos Sales, antigamente era o científico que falava, não é?

P/1 - Tinha o clássico e o científico, né?

R - É, ele fez o científico, e a minha irmã fez escola de comércio, né, que falava até, aquele Álvares Penteado era escola de comércio, não é? Ela fez taquigrafia, fez um monte de coisa, ela mora em Campinas com o filho, a minha sobrinha, a filha dela ela trabalha na Fiesp já, nossa ela entrou lá com 18 anos, ela vai fazer, fez 44, está quase se aposentando lá.

P/1 - Dona Thereza e como era o Campos Sales?

R - Olha, não mudou muito, agora é uma faculdade também, ele ficava na Rua 12 de Outubro e era, subia umas escadas assim, depois tinha as salas de aula, era pequeno, agora hoje é uma faculdade, aliás, muito boa, muito famosa, era uma escolinha particular de hoje ele era.

P/1 - A Senhora fez muitas amizades lá?

R - Olha, eu fiz mas não me lembro muito, você sabe que uma coisa que eu me lembro, que meu irmão contava, que ele fez o científico e o Delfim Neto era um colega dele lá no científico, morava no Alto da Lapa.

P/1 - É mesmo?

R - É, estudou com ele no científico, não sei se o meu irmão estava mais atrasado, mais adiantado, eu acho que ele regula de idade com o meu irmão, e tem muita gente assim, mais famosa assim, que a gente, conheceu, vamos dizer, teve uma coisa assim, mas eu não posso falar nomes que eu não me lembro.

P/1 - Como era o cotidiano nessa época, vocês iam pra escola, o que faziam à tarde?

R - A gente ia, olha, eu era assim, quando tinha uns 11 anos, né, que eu já morava lá na Lapa, estava nesse colégio, assim, eu de manhã ia pra escola, entrava acho que sete e meia, depois eu voltava pra casa, como era a mais velha ajudava a minha mãe no serviço da casa, olhar o meu irmão, que era o irmãozinho, olhava o meu irmão, aí depois ela me mandava pra casa de uma costureira pra mim aprender a costurar, que naquela época, como disse uma delas aí, a gente era preparada pra pegar marido, então, tinha que aprender a cozinhar, lavar, passar, costurar, fazer tudo, era espera marido, que ela falava, espera marido.

P/1 - Quem que falava?

R - Hoje, aí, muitas delas falaram aí nesse livro, não é, que a gente era preparada pra esperar marido porque os homens...

P/1 - Já falava isso na época?

R - É, os homens só casava com as moças que eram prendadas, então, ela precisava saber costurar, cozinhar, lavar, passar, essas coisas aí, então, era isso, então, a minha mãe mandava, era uma Senhora lá, Dona Rosa, eu me lembro dela era um amor de pessoa, e ela me ensinava ali, então, aprender a costura que era, falava antigamente chulear, que era arrematar, hoje tem o zigue-zague, naquela época era tudo na agulha, então, ela me ensinava primeiro a fazer os acabamentos, aí quando ela já me dava um vestido cortado, que eu já estava mocinha, e conseguia montar aquela vestido, aí ela falou pra minha mãe pra me pôr numa escola de corte e costura porque ela era uma costureira antiga e ela cortava a roupa por outra roupa, ela não cortava por medida, então, ela achou que a minha mãe devia por numa escola pra mim aprender a cortar por escalas, por gráficos, aí a minha mãe pôs, a escola também era perto da casa da gente.

P/1 - Onde que era?

R - Era ali mesmo na Lapa, nunca me esqueço a professora chamava Dona Ivani, ela falava assim mansa, delicada, sabe, ela era assim muito paciente, ela era um amor de pessoa.

P/1 - E tinham muitas alunas?

R - Tinha, tinha várias alunas, e ela ensinou muito bem, então, ela ensinava a fazer a escala, a gente fazia, pequenininha primeiro, aí mandava cortar no papel crepom e a gente montava no vestidinho pequeno no papel crepom.

P/1 - Igual de boneca?

R - É, igual de boneca, aí quando a gente já sabia no papel crepom ela mandava que levasse retalhos e a gente começava a montar, aí quando a gente já sabia bem ela mandava a gente fazer um vestido pra gente, tanto é que eu tenho da minha formatura fui eu que fiz o vestido, você quer ver?

R - Aliás todos os meus vestidos fui eu que fiz, o primeiro foi esse aqui, oh, que foi o da formatura.

P/1 - Que lindo, foi o primeiro vestido que a Senhora fez?

R - Foi o primeiro vestido. Então, ela mandava a gente fazer um vestido pra gente pra ver como que é, aí eu fiz, aí quando fui trabalhar, eu trabalhei na casa Vogue, trabalhei primeiro numa que chamava (Avadis?), Madame (Avadis?), era uma francesa, aí eu trabalhei lá, aprendi muita coisa lá porque ela tinha a sessão de, alfaiate não era, que fazia tailleur hoje, tailleur, ali cliente era Matarazzo, Madane (Crespe?), tudo essas famílias ricas, eram embaixatrizes, sabe, era uma coisa fina, depois lá fechou, que a Senhora morreu e fechou. Aí eu trabalhei na Madame (Rosita?), trabalhei no Vogue, por isso que eu fui costureira de alta costura, porque eu trabalhei com grandes costureiros.

P/1 - Começou pelo seu primeiro vestido.

R - Pelo meu primeiro vestido, mas sempre fiz pra mim, pra minha irmã, pra minha sobrinha.

P/1 - E onde a Senhora escolheu esse modelo?

R - Não, ela que deu o modelo e fez todos iguais.

P/1 - Ah, de todas as...

R - De todas foram iguais. E, ela que deu o modelo, "O modelo é assim", mostrou o modelo e a gente fez, lá na escola mesmo, levava pra casa, pra passar na máquina.

P/1 - E a luvinha comprava?

R - A luvinha comprada.

P/1 - E esses babadinhos a Senhora que fez?

R - Tudo eu fiz, tudo, inclusive...

P/1 - E que cor que era?

R - Era salmão, inclusive a beiradinha, hoje você passa zigue-zague, a gente fazia tudo na mão, enrolava a bainha assim e fazia na mão.

P/1 - E pelo que eu estou vendo vocês começavam do difícil porque...

R - Não, cheguei a fazer roupa mais simples assim, né...

P/1 - Antes do vestido?

R - Antes do vestido, agora, vestido de gala mesmo, como se falava antigamente, o primeiro foi esse. Bom, aí depois eu casei não costurava, tinha as crianças tudo, não costurava, aí a situação ficou meio apertada eu falei pro meu marido "Eu vou costurar pra fora", aí o meu filho mais velho estava, eu morava no Planalto Paulista, e ele estava num colégio lá no jardim da infância, pago, aí eu falei, fui lá e falei pra ela que eu não podia mais deixar o menino na escola porque eu não ia poder pagar porque nós estávamos numa situação meio apertada, aí falou "O que é que a Senhora vai fazer?", "Ah, vou fazer o que eu aprendi fazer, pra ajudar ele vou costurar", aí, naquele tempo tinha aqueles uniformes bonitinhos, tanto é que o meu filho tinha a calcinha cinza, a camisa branca e a gravatinha do mesmo tecido e eu fazia, eu que fazia tudo.

P/1 - A Senhora que sempre costurou?

R - É. Então, ela gostava, mas não fazia pra ninguém, aí ela falou pra mim "Que tal começar por aqui, fazer os uniformes daqui?", porque era assim, cada uma levava na sua costureira, ela falou "Eu dou o seu endereço pra cada uma", era pertinho da minha casa, "E elas vão lá", a foi, todo mundo foi, porque todo mundo gostava, fazia aquelas calcinha justinha, ficava bonitinho, todo mundo foi. Aí elas começaram ver o meu trabalho, começaram querer fazer roupa pra elas, aí levou cunhada, levou não sei quem, Planalto Paulista é um bairro nobre, de gente que tem dinheiro, mas passou. Aí depois eu mudei de lá, meu marido morreu, mudei de lá, fui morar na Rua Luís Góis, perto da 23 de Maio, num apartamento, aí eu falei "Ah, não vou costurar mais pra freguesa", estava cansada, tinha freguesa que você precisava abaixar a cabeça pra agüentar porque elas tinham o dinheiro, então, você tinha que, eu cansei daquilo, aí eu falei assim, e os meus filhos tudo estudando, falei "Quer saber, eu vou trabalhar pra loja, pra qualquer coisa assim", aí peguei o jornal, peguei o jornal mas eu queria trabalhar com uma costureira fina também, aí estava lá no Pacaembú, a moça precisando de costureira que trabalhasse em casa pra trabalhar, porque eu queria em casa por causa dos meninos, fazer roupa infantil, aí eu fui lá, na Rua Ilhéus, nunca me esqueço, peguei e fui lá, fui lá a moça um amor de moça, chama Elisabete, sabe, até o pai dela era deputado, tudo, aí ela falou que ela era estilista da Giovana Baby, você já ouviu falar na Giovana Baby?

P/1 - Sei, aquele que tem o perfume, é isso?

R - É, ela tinha confecção infantil que era exclusividade, as lojas eram caríssimas as roupas lá.

P/1 - São lindas, até hoje, né?

R - É. Então, aí ela falou que precisava que a costureira fosse fina, boa, e eu tinha acabado de comprar uma máquina moderna, Elgin Genius, ela falou "A Senhora tem zigue-zague?", eu falei "Tenho", aí ela falou "Vou dar um vestidinho pra Senhora fazer pra mim conhecer o seu trabalho", claro, ela não ia dar um monte de roupa assim, aí eu fiz o tal vestidinho, levei e ela gostou, aí ela estava cortando um, falou "Não tem nada assim cortado pra loja, eu vou dar esse daqui pra Senhora fazer que é pra uma freguesa particular", peguei e fiz o vestidinho, levei e ela gostou, aí ela começou a levar de monte pra mim, ganhei muito dinheiro com ela, depois ela deixou de trabalhar pra Giovana Baby e ela abriu a loja dela junto com uma prima, na Haddock Lobo, como é que chamava a loja dela? Esqueci o nome, as duas eram muito boas pessoas, sabe, aí comecei a trabalhar pra elas e teve um ano que elas me deram, você sabe os hebraicos judeus?

P/1 - Sei.

R - Eles fazem, quando as criança tem assim 12, 13 anos, os meninos, pra nós é a primeira comunhão, e pra eles é mitzva, parece que chama, então, elas faziam o vestidinho branco, tudo, como a gente fazia, só que não era aquele negócio de igreja tudo, era deles lá, e ela tinha umas freguesas da Rua Augusta, aquelas lojas ali da Rua Augusta, ela falou "Será que você consegue fazer?", eu falei "Ah, manda elas lá em casa, né?", e era meio a meio, aí elas foram todas lá em casa.

P/1 - Meio a meio do dinheiro?

R - Do dinheiro. Ela dava material, ela dava tudo, você não acredita, elas escolhiam os vestidos tudo no figurino de noiva, aí uma das primeiras que foram ela escolheu, naquela época estava usando assim vestido de corpo comprido, a sainha rodada e aquela faixa assim de outra cor pregada, aí ela falou "Faz assim, eu gosto de roupa simples", peguei e fiz, aí a menina foi experimentar, eu fiz o vestido, pendurei ali, fiz das outras tudo, aí ela chegou lá e olhou os outros vestidos ela falou "Mas o da minha filha está muito simples", ela falou "perto das outras está muito simples", eu falei "É, mas foi o que a Senhora escolheu", aí ela falou "Ah não, eu quero outro", peguei fui lá, liguei pra menina, falei "Olha, ela não gostou do vestido, não é que ela não gostou do vestido, ela achou que estava muito simples", aí ela falou "Mas eu fico com esse também", quer dizer ela não descartou o vestido, falou "Eu fico com esse também, mas eu quero um outro", aí escolheu um outro lá, aí também...

P/1 - _______

R - É.

P/1 - E como a Senhora disse que chamava essa máquina moderna que a Senhora comprou?

R - Eu comprei a Elgin Genius.

P/1 - Gin Genius?

R - Elgin Genius.

P/1 - Elgin Genius?

R - É.

P/1 - E que ano que foi que a Senhora adquiriu essa máquina?

R - Foi em 76.

P/1 - E antes costurava com que tipo de máquina?

R - Foi com uma Singer.

P/1 - Uma Singer?

R - Só que era Singer comum, só fazia costura reta, aí...

P/1 - Aí tinha outra mais moderna?

R - É, aí quando saiu essa mais moderna eu comprei essa mais moderna que tinha, que arremata, caseia, pregava botão, faz tudo, então, aí eu comprei essa mais moderna e comecei a trabalhar pra loja assim, porque com aquela de costura reta eu não podia trabalhar pra loja.

P/1 - Era só mais caseira?

R - É, que se eu fosse arrematar na mão eu não ganhava nada.

P/1 - Por que demorava?

R - É demora na mão, mas ali era zigue-zague, você vai na máquina num estantinho você faz, tanto é que gastava o carvão da minha máquina de tanto passar zigue-zague.

P/1 - De tanta roupa que a Senhora costurava?

R - É. Então, aí quando essa moça também fechou a loja, também teve problemas lá, ela precisou fechar a loja, não sei qual foi o problema, parece que uma delas se separou do marido, eu não tenho muita certeza, então, acabou, aí eu comecei a trabalhar com freguesa outra vez, e elas mesmo me mandaram freguesa, elas mesma mandaram freguesa pra mim, e tudo com dinheiro, sabe, tinha uma que tinha fazenda até lá nos Estados Unidos, no Texas.

P/1 - Então, era sempre roupa de alta costura?

R - Sempre alta costura, fiz vestido de noiva, vestido de baile, como elas eram, uma morava ali na rua, uma travessa da Tabapuã, outra no Alto de Pinheiros, aqui na, como é que chama Diógenes Ribeiro de Lima, numa travessa ali, tinha aquela casa, gente de dinheiro, mas gente muito boa, sabe?

P/1 - E como essas clientes escolhiam os modelos, a Senhora ajudava ou elas já levavam?

R - Às vezes elas já traziam o modelo.

P/1 - Elas levavam de revista? Tinha...

R - É, revistas estrangeiras, que elas viajavam muito.

P/1 - Como é que chamavam as revistas?

R - Eu lembro que era Burda, Burda que eu lembro bem das outras eu não me lembro muito bem não, tinha uma que chamava (Femile?), era uma francesa, elas levavam e ás vezes escolhiam do meu próprio figurino, e eu fazia, mostrou pra mim eu faço igualzinho.

P/1 - E tinha revista brasileira?

R - Tinha, tinha muita revista brasileira, depois saiu esse Manequim, aquele, como é que chamava, a Revista Fom Fom, você já ouviu falar?

P/1 - Já ouvi falar.

R - Trazia muito modelo, tinha a Desfile também trazia muito modelo, a Cláudia ainda não tinha não, que eu me lembro são essas aí. E elas escolhiam, "Olha, eu quero essa aqui", aí eu tirava a medida, e a minha medida que eu aprendi com aquela professora, mas a medida dela é tão certa que a pessoa experimenta não tem um defeito no vestido, porque a medida bem tirada dá certinho no corpo da pessoa, e eu experimentava por, às vezes precisava alargar um pouquinho, apertar um pouquinho, a única coisa que acontecia, mas defeito mesmo era muito difícil viu, vestido de noiva, o último vestido de noiva que eu fiz, foi mil, acho que foi agora em 1991, 92, por aí, era uma menina que era prima da namorada do meu filho, ela escolheu o vestido, a manga toda de casinha de abelha, e o laço atrás também, grande assim, todo de casinha de abelha, aí a mãe dela e a tia se prontificaram a fazer, porque não dava pra mim fazer, fazer a casinha de abelha, e eu...

P/1 - O que é uma casinha de abelha?

R - Casinha de abelha é um bordado que usava muito em vestidinho de criança que você pega o pano e ela fica assim ó, fica uma casinha assim, então, chama casinha de abelha.

P/1 - Nossa, fazia na mão aquilo?

R - Fazia na mão, era preso tudo na mão, e a mãe dela e a tia sabiam fazer, então, ela escolheu por causa disso porque eu falei "Oh, casinha de abelha eu não vou fazer se não eu vou perder um tempão", "Ah, não, a gente faz", aí ela escolheu o vestido, corpo de renda, bicudinho assim, com a manga de casinha de abelha, decotinho assim princesa e a saia o rodê bem rodada com bastante tule embaixo, depois ela quis uma cauda com seis metros e o crisã da renda pra aplicar na volta toda da cauda, ainda colocar aquele plissê, ainda hoje vende pronto já, colocado em toda a volta da cauda e na beirada do vestido, ah, me deu um trabalho, eu fiz sozinha, eu fazia sozinha porque ajudante fazia depois tinha que desmanchar, então, eu fazia tudo sozinha.

P/1 - E a Senhora bordava também?

R - Não, não bordava. Aí ficava vendo televisão e cortando aquelas flores da renda e depois preguei tudo a mão com pontinho, na volta toda, aí a minha irmã foi lá e falou assim pra mim assim "Mas você é boba perdendo tempo?", falei "Por que perdendo tempo?", ela falou assim "Você não sabia que agora existia aquela cola de tecido?", eu falei "Eu sei que existe mas aí não vai ficar um serviço fino, a pessoa não vai querer pagar o que eu estou pedindo se eu vou colar com cola, vou pregar na mão, fazer o serviço certo." E eu fazia isso assim à tarde, à noite, às vezes vendo televisão preguei a volta toda, tudo com pontinho escondido, ficou lindo o vestido, fiz dela, fiz da mãe dela, fiz de uma tia e de uma prima, a roupa de todo mundo, ela casou no Mosteiro de São Bento.

P/1 - E a Senhora ia nos casamentos?

R - Ia, elas me convidavam, eu tinha que ir pra ajudar arrumar, mas também meu filho era namorado da prima dela.

P/1 - E nos outros casos dessas Senhoras chiques que a Senhora falou que a Senhora vestia, elas convidavam a Senhora pra ir pra festa?

R - Ah, não, essas eram muito, essas não, elas tinham uma coisa, elas não discriminavam a gente, sabe, tinha uma que morava ali perto da Tabapuã, esqueci o nome da rua, ela morava num prédio de apartamento, não sei se ainda mora, Regina, uma pessoa também, certas pessoas de mais dinheiro são mais legais com a gente do que o emergente.

P/1 - Ah, é?

R - É, quem nasceu pobre e subiu, a que nasceu de berço já são mais, e ela era muito legal, uma vez até almocei lá na casa dela, tudo, então, se ela não podia ir na minha casa experimentar o vestido ela mandava o motorista dela me buscar, e ela dizia pro motorista "E a Dona Thereza é pra entrar pelo elevador social", sabe, não fazia diferença de você entra pelo...

P/1 - De serviço?

R - É, eu descia na entrada social aí depois o motorista entrava pra garagem, e muito legal, cheguei almoçar com ela na mesa, depois mandava o motorista me levar, sabe, muito legal, e tinha um outra prima dela também, até ela era paraguaia, até eu achei engraçado que ela contava que ela conheceu o marido dela, ele era viúvo e tinha duas filhas, até uma das filhas dela eu vi outro dia aí, não sei o que é que ela faz aí que ela apareceu numa revista, então, ela diz que conheceu o marido dela porque a fazenda dele era vizinha da fazenda do pai dela, fazenda da família dele era vizinha..., aliás, era dele que ele já era viúvo, e ela andando a cavalo e ele andando a cavalo se conheceram através da cerca da fazenda, achei interessante, né, se conhecer assim, ele também era muito legal, e foi assim, e aí eu cheguei aqui aonde eu estou.

P/1 - Está certo. Dona Thereza, vamos falar um pouquinho do marido da Senhora agora, como a Senhora o conheceu e com quantos anos?

R - O meu marido trabalhava na Sabrico.

P/1 - Sei, o que é que era a Sabrico?

R - A Sabrico hoje ainda é uma concessionária Volkswagem, mas quando eu trabalhei lá, tenho até aqui a Sabrico, deixa eu ver se tenho mais algum... tem o meu primeiro emprego deve estar lá no caderno, era Dodg, eles eram representantes dos carros Dodg, você já ouviu falar?

P/1 - Já.

R - Eles eram representantes do Dodg, e o presidente da Sabrico era, o que é que ele era? Chileno... _____ se lembra, era Ortis, até o irmão dele era presidente acho que da Bolívia ou do Chile? Era Ortis também, e ele era irmão do presidente, e ele era presidente da Sabrico e o vice-presidente era um alemão, aí o seu Ortis se afastou da firma por doença, não sei, foi embora, não sei o que aconteceu, e esse Senhor, como ele era alemão, ele deixou o Dodg, e a Volkswagem tinha se instalado no Brasil e eles ficaram representantes da Volkswagem. E eu trabalhava lá porque eu tive um problema, inchou o pé, de rim, não podia mais trabalhar muito sentada, então, o médico mandou que eu trabalhasse num lugar, aí eu fui ser vendedora na Sabrico, isso eram discos, olha, está vendo, na sessão de discos.

P/1 - Disco de que Dona...

R - Disco, esses discão assim (long play?), que existia naquela época, foi antes de 1950.

P/1 - Sei, mas aqui a Senhora não costurava ainda?

R - Não, já.

P/1 - Já costurava?

R - Era solteira, costurava pra nós assim lá em casa.

P/1 - Não profissionalmente?

R - Não, aí era solteira, aí que eu conheci o meu marido, nessa firma.

P/1 - Ah, então, foi o primeiro emprego esse?

 

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