Valter Cardoso

Projeto Acervo
Depoimento de Valter Cardoso
Entrevistada por: José Carlos (P/1) e Sandro Cajé (P/2)
Local de gravação: Museu da Pessoa
São Paulo, 20 de novembro de 1999


P/1- Bom, seu Valter, primeira pergunta é o seu nome completo, (riso) a data do seu nascimento e o local de nascimento.

R- Muito bem. O meu nome é Valter Cardoso. Eu nasci no dia 24 de outubro de 1941. Com exatidão, no Hospital da Cruz Azul, no bairro do Cambuci, aqui em São Paulo.

P/1 - Aqui em São Paulo ?

R - Aqui em São Paulo.

P/1 - Seus pais, o nome deles?

R - Meu pai, é Benedito Francisco Cardoso, minha mãe Ana Alves Cardoso, e os dois já são falecidos.

P/1 - E os dois faziam o que?

R - Meu pai, na ocasião, meu pai era militar e a minha mãe prendas domésticas. E quando eu nasci a gente morava lá no Ipiranga, e devido a situação do pós-guerra, não sei como é que era naquele tempo, a indústria estava em franco crescimento. Então meu pai saiu do militarismo e foi trabalhar na indústria.

P/1 - Trabalhar na indústria?

R - A minha mãe também aproveitou, porque naquela ocasião, a indústria cercava o operário na rua: "Vem trabalhar para mim!"

P/1 -Ah, é?

R - (riso) Exatamente o contrário de hoje

P/1 - De hoje, né, que você que...

R - (riso) É... Então meu pai foi trabalhar numa indústria de fiação e tecelagem, minha mãe também. Os dois faziam o mesmo trabalho.

P/1 - Eles já se conheciam antes?

R - Já se conheciam. Já se conheciam desde o interior. Que eles eram da cidade de Mococa. Meu pai se casou lá em Mococa, né? Dessa união nasceu mais quatro irmãos. Dois faleceram antes de eu conhecer. E ficou nós quatro, eu, mais um irmão e duas irmãs. Aí meu pai veio para São Paulo. Foi onde eu nasci. Nasceu meu irmão primeiro, né? Meu irmão que hoje já é falecido, aí depois nasceu eu, depois minha irmã caçula. E minha mãe e meu pai foram trabalhar na indústria. Meu pai trabalhava à noite para poder ganhar um pouco mais. O salário tinha um adicional, aquela coisa toda, né? E minha mãe trabalhava durante o dia. E foi muito sacrificado. Foi muito sacrificado. E naquela ocasião, eu morava ali no Ipiranga, na rua Lima e Silva, número 327. Não me esqueço até hoje.

P/1 - 327? A casa está lá ainda?

R - Não, a casa foi demolida, depois foi construída uma outra no local, né? Que nós tivemos que mudar de lá porque a proprietária, a proprietária da casa faleceu e a casa entrou em inventário, então precisou ser vendida. Só que nós não tivemos nenhum aviso de a casa já tinha sido vendida. Já chegou lá a pessoa pedindo a desocupação da casa. Que fosse desocupada em 30 dias porque a casa já não mais pertencia àquela família. Aí o meu pai saiu correndo. Meu pai estava dormindo. Ele saiu correndo, foi lá na Vila Santa Clara, no alto da Vila Prudente, com o compadre dele e falou da nossa situação. Ele falou: "Por isso, não. Vamos resolver já." Aí saíram dali e dali, quando foi duas horas depois, meu pai já havia comprado um terreno, no largo da Santa Clara. Naquele tempo era bem mais fácil, né?

P/1 - É !?

R - (riso) Isso foi em 1949.

P/1 - Todos os filhos pequenos, ainda.

R - Todos, todos. Só tinha a minha irmã mais velha, ela estava na ocasião com 13 anos de idade, entendeu? Aquilo pro meu pai foi um golpe tremendo: "Mas o que que eu faço com as crianças todas pequenas?" Mas aí o corretor falou: "Não senhor, aqui na rua você não vai ficar. "Já indicou pro meu pai lá um depósito, meu pai comprou material. No mesmo dia.

P/1 - Tudo no mesmo dia? (riso)

R - Tudo no mesmo dia. E se eu falar para você, acredite se quiser: foi só na palavra de homem.

P/1 - Só num pacto ?

R - Só, não tinha documento assinado nem nada. Foi só na palavra de homem. Porque o meu pai, felizmente, o meu pai passava muito disso, confiança para as pessoas. E depois também a época ajudava muito. Não era que nem hoje, né? A época também ajudava. Aí meu pai, sem dinheiro mesmo, ele comprou material, comprou o terreno, naquela mesma semana ele começou a construir a casa. Ele levantou a casa, cobriu, nós entramos. Em um mês.

P/1 - É mesmo? O senhor lembra da construção, participou?

R - Lembro. Eu tinha oito anos de idade e eu nunca tive porte físico, para poder competir com as coisas violentas da vida, né? Mas eu lembro que a minha função era pegar um tijolo, às vezes colocar ali, levar água para os trabalhadores. Isso era a minha função, né? E eu sei que meu pai, em um mês ele levantou a casa e cobriu. Aí nós entramos na casa. Todo domingo tirava as coisas para fora para dar segmento na obra. Isso foi mais ou menos, olha...

P/1 - Todo domingo tirava todo o mobiliário para fora?

R - Todo, todo domingo. Era aquela luta. Não tinha luz, a água a gente pegava no vizinho, está entendendo? E assim meu pai fez a casa. Fez a casa, a primeira parte da casa, né? demorou, mais ou menos, para ele concluir essa primeira parte, demorou acho que uns dois anos. Naquela ocasião, eu estava fazendo o segundo ano de grupo, no Grupo Escolar Visconde de Itaúna, no Ipiranga, ali na rua Silva Bueno.

P/1 - Eu acho que eu sei onde que é.

R - Entende? E não tinha condução, eu ia a pé de lá até em casa. A gente caminhava uma hora e meia para chegar lá.

P/1 - Para chegar na escola ?

R - Para chegar na escola. Fazia uma caminhada de uma hora e meia. Mas era feliz.

P/1 - Como é que era esse ambiente familiar, Valter? Seu pai, apesar de militar, pelo visto ele... Como é que, tinha essa coisa de militar dentro de casa?

R - Tinha, tinha. O meu pai, durante todo o período que eu conheci meu pai, ele tinha aquela autoridade. Apesar de não ser mais militar, ele tinha aquela autoridade, entendeu? Ele fazia prevalecer a autoridade dele. E com isso, ele segurou muito a gente. Ainda mais, que naquele tempo, quando eu mudei para aquela região, era uma região assim meio discriminada, porque orava ali muitos negros naquela ocasião, e tinha aquelas batucadas, sabe? E meu pai jamais ele queria que eu participasse daquilo.

P/1 - Ah, é?

R - é, porque e aí daquela época, rolava muito era bebida. Rolava muito era bebida. Então, a preocupação dele é que a gente ficasse viciado em bebida. Não tanto pelo camba, mas pela bebida que rolava ali. E rolava mesmo. Mas meu pai, com aquela autoridade dele, ele nos criou a mim e aos meus irmãos. A minha mãe também era autoritária, já em função do meu pai, ela era muito mãezona, né?

P/1 - É?

R - Mas em função do destino do meu pai, ela também fazia prevalecer a autoridade dela.

P/1 - A autoridade dela, né?

R - Lógico.

P/1- Não tinha conversa em casa, não?

R - Não, não.

P/1 - (riso)

R - Eu vou falar uma coisa para você. Eu acho que apanhei uma ou duas vezes, tanto do meu pai como da minha mãe. Porque as artes que eu fazia não era assim. Eram artes que você faz dentro de casa. Porque para começar o meu pai não deixava brincar na rua.

P/1 - Não podia brincar na rua?

R - Não. Você podia brincar em volta de casa. Mas não podia se afastar. E quando a gente se afastava um pouco, meu pai tinha um assobio, ele punha os dedos na boca, você ouvia assim a uns três quarteirões de distância.

P/1 - (riso) Sabia que estava te chamando?

R - Já sabia. Porque naquela época, José Carlos, não era como hoje. Não tinha barulho. Era carroça que passava na rua, não tinha luz elétrica no bairro, então não tinha som que pudesse desviar. Se ouvia muito canto de pássaro, canto de cigarra. Era tão gostoso!

P/1 - É, tinha uma sonoridade.

R - Nossa, muito gostoso. Tinha muita árvore ali naquela região, né? E eu fui criado ali, nesse ambiente. Meus colegas também. Meus colegas já eram mais soltos. Os pais não eram tão autoritários assim. E eu tinha um colega de nome Armando, nós fomos criados juntos. E isso até a idade de 18 anos. Dos nove aos 18 anos, era diariamente nós estávamos juntos.

P/1 - Sempre juntos ?

R - Sempre juntos. A gente só se separou depois quando ele foi para o Exército, né? Então quando ele voltou, já voltou com novas amizades e tal, e eu era mais novo. Eu era um ano mais novo.

P/1 - Um ano mais novo ?

R - É. Ele já voltou com novas amizades, com um bom emprego, né? A gente começou a se afastar. Mas durante nove anos, era a minha...

P/1 - Qual que era o lazer, o grande da família? Sair?

R - Eu vou começar pelo lazer nosso de criança, pode ser?

P/1 - Pode, claro!

R - De criança, o nosso lazer era futebol, aquele joguinho de terreno baldio, né? Jogar bolinha, estilingue. Eu era danado no estilingue. (riso)

P/1 -(riso) Andava quebrando umas vidraças ?

R - É isso. Sempre tive idéia passarinho, mas vidraça não perdoava. Onde eu apanhava.

P/1 -É com essas que você apanhava?

R - É. (riso) E tinha lá perto de casa, tinha umas lagoas e a gente ia tomar banho na lagoa. Meu pai batia na gente, porque ele não queria que a gente fosse lá, por medo da gente morrer afogado.

P/1 - Ah, tinha uma lagoa, perto?

R - Próximo de casa.

P/1 - Era um bairro super...

R - Era, era. Tinha lagoa, tinha um riacho lá. E o riacho, ele fazia assim uma espécie de um delta, ele abria, então formava uma espécie de uma lagoa. E a gente ia tomar banho ali, todo dia. No dia que chovia, corria lá, porque aumentava o volume d'água, né? (riso)

P/1 - (riso)

R - A gente corria lá. Aí para disfarçar, nós íamos jogar bola. Então você vinha todo arranhado, e tal, porque... Mas o meu pai não era bobo. Ele percebia que a gente, sabe/ Meu pai era muito esperto nessa coisa. Ele foi moleque pior do que nós, né? Porque ele foi moleque de rua mesmo, entendeu? Então ele sabia de toda essa malandragem. Mas mesmo assim a gente às vezes conseguia ludibriar meu pai. E a gente jogava bola, empinava quadrado, e se tinha muito disso. Porque lá tinha muito terreno vazio. Tinha bastante espaço para esse tipo de brincadeira. Isso foi até os 13 anos de idade. Aí aos 13 anos de idade eu comecei a trabalhar, aí as coisas foram mudando. O próprio bairro foi mudando, se tornando mais residencial. Aí foi mudando, né? Isso foi por volta de 1954.

P/1 - 54?

R - 54.

P/1 - Você começou a trabalhar com que idade?

R - Comecei a trabalhar com 13 anos, em 54.

P/1 - Você continuou a estudar? Como é que foi esse período de escola?

R - Eu fugi da escola. (riso)

P/1 - Você fugiu? (riso)

R - Eu completei 13 anos de idade, nunca mais quis saber de estudo.

P/1 - Nunca mais?

R - Não. Eu fiquei muito rebelde nessa época, sabe? As minhas idéias chocavam com as idéias do meu pai. Então falei: "Também não vou estudar." Ele falou: "Então você vai trabalhar". Então com 13 anos comecei a trabalhar.

P/1 - Não foi a escola em si que fez você...?

R - Não, não foi a escola em si. Com 13 anos comecei a trabalhar. E eu trabalhava até numa fábrica que fazia assim conta-gotas. Essas coisas assim de moleques mesmo, né? Trabalhei nessa fábrica uns três anos.

P/1 - Onde que era?

R - Era lá no alto do Pari. Na rua Virgílio do Nascimento. Era até uma fabriqueta assim tipo fundo de quintal, sabe? Era uma coisa bem familiar mesmo. A gente era muito chegado lá com o dono da fábrica. Trabalhei ali por uns três anos. Aí depois eu saí de lá e fui trabalhar numa metalúrgica na Vila Prudente. Lá eu fiquei seis anos. Então lá eu aprendi a profissão de planador mecânico e ajustador mecânico. Mas como a gente aprendeu na casa, então eles nunca valorizaram a gente. Tem até na minha carteira registrado como ajudante.

P/1 - Entendi. E o senhor já tinha aprendido a técnica dentro da fábrica ?

R - Tinha, tinha aprendido a técnica dentro da fábrica. Tinha aprendido a técnica de plaina e ajustagem mecânica. Mas o meu registro sempre foi como ajudante. Eu também não ligava muito, eu sempre fui muito desligado. Não era a minha área, deu para entender? Eu não estava na minha praia, estava numa praia contrária.

P/1 - Mas o senhor almejava alguma, o que que você sonhava nesse momento em fazer?

R - Olha, neste momento, voltando um pouco, José Carlos, eu tinha idéia, quando eu estava no quarto ano de grupo, a entrar no seminário. Eu gostava, sabe, eu gostava de ir à missa, assistia ao catecismo, está entendendo? E eu gostava, eu pensava de um dia me tornar padre. Mas depois eu estive pensando bem, falei: "Não, não é isso que eu quero." Porque eu gosto de gente, eu gosto de estar envolvido com pessoas. Eu gosto de ver muita gente em volta de mim. Então eu achava que sendo padre eu ia ter sempre aquela coisa volta de mim, né? Mas eu falei: "Não, não é bem isso." Isso foi dos 11 até os 15 anos, eu tinha esse pensamento.

P/1 - Mas levou isso para casa? Contou isso?

R - Cheguei, cheguei até a travar correspondência com o Seminário do Verbo Divino, que era na avenida Santo Amaro, eu já estava já...

P/1 - Encaminhado.

R - Encaminhado. O padre já estava me dando o maior entusiasmo. Depois eu pensei bem, falei: "Não, não vou, eu não vou não." Porque os meus pais, eles não tinham estudo, então eles me falavam coisas assim, como se fosse, eu ia levar uma vida muito diferenciada do que é, sabe? "Ah, você vai embora, você vai sumir da gente." E tal. Então aquilo foi me marcando, eu falei: "Não, não vou fazer isso." Aí continuei trabalhando normal, fui trabalhando. Aí voltei a estudar. Naquele tempo a gente fez Admissão, né?

P/1 - Ah, na época depois da metalúrgica, né?

R - Da metalúrgica, eu já estava na metalúrgica.

P/1 - Ah, entendi.

R - Entende? Eu estava com 16 anos, voltei a estudar. Fiz Admissão, fiz o primeiro, segundo e terceiro colegial incompleto. Ginasial, incompleto. Aí larguei do estudo para casar.

P/1 - Ah, largou para casar?

R - É, conheci uma negra muito bonita, falei: "Ah..." Mas não que ela tenha me incentivado a largar do estudo, pelo contrário. Ela falou: "Não faça isso." Mas eu falei: "Não, eu quero me casar. Quero me casar, eu vou trabalhar para construir alguma coisa." E assim fiz, Zé Carlos.

P/1 - Você conheceu a...

R - Conheci ela dos bailinhos da vida, das caminhadas que a gente fazia, né? Eu conheci minha esposa assim. Aí a gente começou a namorar, namorou uns dois anos, né? e casamos. Com um ano de namoro, um ano de noivado.

P/1 - Um ano de namoro, um ano de noivado?

R - E um ano de noivado. Aí nós nos casamos.

P/1 - Foi pedir a mão?

R - Foi, aquela coisa de enfrentar o paizão, sabe? Então fui lá falar com ele, e quando olhou assim: "Esse cara é um moleque, pô." Também não tinha altura, era mais alto que eu, eu não tinha altura, era magrinho, miudinho, sabe? Ele não queria, não.

P/1 - Ele não queria?

R - Não queria. Mas depois com...

P/1 - Foi dobrando o velho... (riso)

R - Fui dobrando o velho, sabe? (riso) Fui conversando com ele, ele pegou e cedeu. Cedeu, aí eu me casei com ela. Me casei, trabalhava... Assim logo que eu me casei, eu trabalhava numa metalúrgica, logo que eu me casei eu tinha prestado um concurso para ingressar no funcionalismo público. E passei. Aí eu fui trabalhar na Secretaria de Obras e do Meio Ambiente. Naquela ocasião, a gente fazia o controle do consumo de água, era feito a lápis, ainda. Num caderno especial, então a gente escrevia a lápis o consumo de água...

P/1 - De cada...

R - De cada residência.

P/1 - Você ia?

R - Ia de casa em casa. Distribuía a gente num setor num determinado setor, e a gente ia lá fazer a leitura de água. Trabalhei nesse serviço durante, acho que uns 15 anos.

P/1 - 15 anos? Sempre no mesmo setor?

R - Sempre. Não, aí a gente rodava a São Paulo inteira.

P/1 - Você conhece a cidade de cabo a rabo.

R - Ah, conheci a cidade de cabo a rabo. Eu conheci os quatro cantos da cidade.

P/1 - Olha só!

R - E foi aí, Zé Carlos, que gozado, eu tomei muito mais gosto ainda dessa coisa de conhecer pessoas. Então eu tomei muito gosto, falei: "Poxa, isso aqui é o meu mundo."

P/1 - Tocava campainha, batia um papo com a dona da casa.

R - Batia um papo com a dona da casa. Com a dona da casa, fugia de cachorro, que o cachorro vinha atacar a gente, enfrentava chuva, frio. Mas eu sempre gostei deste trabalho, é gozado. Eu sempre gostei, nunca quis sair fora. Aí o que eu fiz. Quer saber de uma coisa? Eu vou aprender uma profissão paralela a esse trabalho para que eu possa aumentar o meu rendimento e construir minha casa, melhorar minha casa, educar meus filhos. E assim eu fiz. Eu fui aprender a trabalhar de pintor de parede. E, modéstia à parte, eu me saia bem porque...

P/1 - Caprichava.

R - Procurava caprichar, né? E assim eu criei meus filhos. Aí nasceu minha filha, logo em seguida ela faleceu. Depois nasceu o meu filho mais velho, que hoje já está com, constituiu família. Depois veio a minha filha, depois um outro filho. E eu sempre trabalhando assim.

P/1 - Você foi morar aonde com a esposa?

R - Em princípio, fui morar na casa de meus pais. Depois eu construí uma casa na Sapopemba, aí a casa não ficou numa situação boa, eu saí de lá construí na casa do meu sogro, no terreno da casa do meu sogro. E ali eu fiquei até construir uma casa para mim. Até construir uma casa, aí, eu construí uma casa mas eu fiz umas coisas meio erradas em termos de financiamento, acabei perdendo a casa. Mas não desanimei não, viu, Zé Carlos? Não desanimei não. Fui sempre à luta e minha esposa sempre junto comigo. Até que por fim eu fui morar, saiu um apartamento para mim da Cohab, eu mudei para a Cohab. Heliópolis, né?

P/1 - Ah, Heliópolis.

R - É. Daí, eu moro hoje na Cohab Heliópolis.

P/1 - Sua esposa trabalha também?

R - Trabalha, ela é cozinheira.

P/1 - De mão cheia, ou não?

R - Não, ela é aquela cozinheira que faz a comida bem feitinha e que agrada os patrão, mas ela não é aquela cozinheira mesmo classe A, você está entendendo? Inclusive ela veio aprender a cozinhar com a minha mãe, que também era uma cozinheira assim que fazia aquelas comidas deliciosas, mas não personificadas, como fazem muitas cozinheiras por aí. Mas agradava a população. (riso)

P/1 - (riso)

R - tem, e tem até hoje. Apesar de, a minha esposa, nossa, lá no serviço dela, todo mundo admira a maneira que ela cozinha. Ela cozinha muito bem, modéstia à parte. E quando a gente estava nessa correria de casa, aquela coisa toda, meus filhos já estavam crescendo, aquele negócio todo, a gente começou a fazer, visitar escolas de samba. Visitei várias escolas de samba a gente sempre gostou de samba. Uma coisa que já está na...

P/1 - E da onde que surgiu isso, Valter, o samba surgiu como na sua vida?

R - Ah, foi tão gozado, Zé Carlos. Sabe como é que surgiu? Quando em 54 eu vi as festividades do IV Centenário, aquele povão, aquela festividade, aquela coisa bonita, né? O carnaval, falei: "Puxa, mas olha que coisa linda." Mas o meu pai não deixava eu ir.

P/1 - Você não podia ir, né?

R - Não. Então eu fiquei com aquilo assim, sabe, gravado na minha memória. Falei: "Um dia eu vou fazer isto."

P/1 - E você via aonde, Valter, essas festas?

R - Essas festividades? No Vale do Anhagabaú.

P/1 - No Vale do Anhagabaú?

R - Era tudo feito no Vale do Anhagabaú. Parada militar, carnaval, era tudo ali. Meu pai levava a gente para assistir mas não gostava que a gente participasse do carnaval. Aí eu falei: "Meu Deus, um dia ainda vou participar do carnaval." Então quando o meu filho, já adolescente pediu para sair, eu falei: "Vai." Vai, porque era uma coisa que eu tinha vontade de fazer e meu pai nunca deixou. Aí meu filho foi um ano. Quando foi no ano seguinte a minha cunhada foi, entende? Estava meu filho e meu sobrinho. Aí minha esposa falou: "Eu também quero ir." Falei: "Ah, meu deus do céu! Está bom, então vamos." Então ela falou assim: "Nós vamos, mas queria que você fosse também." Falei: "Eu vou." E fui. Nós já fomos direto na Vai-Vai.

P/1 - Primeiro o seu filho e sobrinho, tudo?

R - Vai-Vai. Tudo Vai-Vai, entendeu? Depois eles tiveram também uma experiência na Nenê de Vila Matilde, mas sempre foram Vai-Vai. E a minha esposa começou gostar e tal, mas ela queria sair numa ala... Ela saiu na ala de baiana da primeira vez. Primeiro e segundo ano e eu junto. Mas ela moça ainda naquela ocasião, então ela queria sair numa ala que saía mais à vontade. "É, mas com as pernas de fora." Eu falei: "E daí? Vamos embora, agora já estamos no embalo mesmo." (riso)

P/1 - (riso)

R - Aí ela foi sair numa outra ala lá, ala da dona Penha, né, que tem uma ala muito boa na Vai-Vai. E eu ficava sempre por ali dando apoio, né? apoio de ala, diretor de harmonia de ala.

P/1 - Você já conhecia as pessoas quando você foi, né? Ou você chegou lá e falou: "O que que eu faço aqui agora?"

R - Olha, quem conhecia mesmo era a minha cunhada. Eu não conhecia ninguém. Então eu fiquei assim que nem quando a gente cai da condução. Fiquei meio perdido, é um estouro e tal. Mas graças à minha maneira de ser, Zé Carlos, eu fui me enturmando logo com o pessoal. Então comecei a ver quem eram as pessoas para que eu podia estar me relacionando e fui selecionando aquelas pessoas. Fui fazendo a minha turminha ali. Olha, pra te dizer, eu cheguei na Vai-Vai em 1979, 79. Dois anos depois eu já estava parte da diretoria. Fui convidado a fazer parte da diretoria. E naquele tempo, era o seu (Chiclé?) que era o presidente da Vai-Vai.

P/1 - Seu (Chiclé?)?

R - (Chiclé?). Gozado o apelido, era (Chiclé?), não era Chiclets, era (Chiclé?). Aí ele falou assim para mim: "Valtinho, você que me dar uma força aí na diretoria? Estou precisando de uma pessoa para ficar no caixa do bar, você vai ficar como se fosse assim um segundo tesoureiro, somente para você poder ficar no caixa do bar. Está bom?" Falei: "Está bom. Mas não vou fazer nada de tesouraria, não, porque eu não sei." Ele falou: "Não, não tem importância." Então eu ficava ali no caixa do bar. Mas em conseqüência disso, as baianas tinham um problema lá, falta de uma pessoa que pudesse ficar junto com elas ali organizando as coisas. Aí o seu (Chiclé?), eu falei assim: "Vocês fazem um abaixo-assinado e eu entrego para o presidente para ele selecionar uma pessoa para vocês." Peguei e entreguei. Era uma quarta-feira. Quando eu cheguei lá no domingo, ele falou: "Toma, é pegar ou largar." Eu falei: "Mas espera lá, eu não sei." Ele falou: "Não me interessa. Você hoje é o novo diretor da ala de baianas." Isso foi em 1982.

P/1 - Em 82.

R - 82. Aí começou a minha luta. Porque, Zé Carlos, numa escola de samba, é difícil para qualquer pessoa, seja ela quem for, chegar e já assumir um compromisso dessa natureza. Principalmente com ala de baiana. Porque existe, além do ciúme dos mais antigos, existe também aquela barreira: "Pô, o cara não é do samba, não conhece nada, como é que vai dirigir uma ala dessa natureza?" Porque a ala de baianas é tradicionalíssima no samba. Uma das mais importantes, vamos assim dizer.

P/1 - Tem idéia de por que isso?

R - Ah, por causa da tradição, porque tudo nasceu da baiana, né? Tudo, tudo. Porque elas são mães de santo dos terreiros de candomblé, do candomblé surgiu o batuque, do batuque surgiram os blocos carnavalescos, os cordões carnavalescos, e da união do bloco e do cordão gerou a escola de samba. E a baiana sempre presente.

P/1 - Baiana passando por tudo.

R - Por tudo, porque quem era os sambistas da época? Eram os filhos dela. Filho, afilhado, sobrinho, neto. Como é até hoje na sua maioria, né? e então por isso que existe uma barreira muito grande, porque quando você está envolvido com a ala de baiana, você está envolvido com a escola inteira. A gente tem que tomar um cuidado extremo neste sentido, porque nunca sabe quem é a pessoa que está por de trás da baiana. Eu, pelo menos penso desta forma, eu não sei quem está por de trás dela. Então eu vou tentar tratar ela da melhor maneira possível, para quem está atrás dela também me trate bem. E assim eu fiz. Assim eu fiz e assim fiquei nove anos direto na ala de baianas.

P/1 - Diz uma coisa para mim, Valter, como é que é, como é que funciona a escola de samba, como é que é esta estrutura? Trabalha o ano inteiro? Toda semana? Como é que se trabalha numa escola de samba, como é que as pessoas freqüentam ela?

R - Eu posso falar, responder para você esta pergunta, baseado na escola de samba, no Grêmio Cultural escola de samba Vai-Vai. Que é uma escola grande, crescendo cada dia mais. Então eu posso falar pelo que eu conheço de dentro da Vai-Vai. A Vai-Vai, praticamente, ela trabalha 365 dias do ano.

P/1 - Todos os dias.

R - Todo dia. Porque mesmo a gente não freqüentando, principalmente quem tem direção, quem tem uma responsabilidade dentro da escola, mesmo você não indo lá na quadra, você está sempre em função do trabalho da quadra, da escola. Deu para entender?

P/1 - É para lá que tudo...

R - É.

P/1 - Trabalha em função da quadra.

R - Então, você faz o teu serviço particular, hoje, amanhã, mas você está sempre procurando se relacionar com pessoas, com alguma coisa que pode lhe dar subsídio para você estar trabalhando na escola de samba. E isso são as escolas de grande porte. E a Vai-Vai não foge à regra. Por que? Porque, você vê bem, a Vai-Vai tem, na ala de baianas, ela tem 100 componentes. 100 componentes. Para você estar trabalhando com 100 senhoras, tem que se dedicar, senão você não conseguem. Tem que se dedicar e muito. Mas eu fui feliz, fui muito feliz. Por que que eu fui feliz? Porque me relacionei muito bem com elas, né, e foram nove anos ali trabalhando, sabe? Todo carnaval me empenhando, procurando buscar conhecimentos fora através de depoimentos de colegas mais antigos, através de leitura, que eu fui fazer muita pesquisa e faço até hoje. Entende? O que é a baiana, o que é a escola de samba, eu não paro. Aliás, não tem como parar. Até a própria tradição de como surgiu, a vestimenta da baiana, a dança da baiana. Tudo isso eu fui pesquisar. Porque eu acho que para se fazer um serviço bem feito, você tem que conhecer ao menos um pouco. E esse conhecimento a gente não consegue nunca a chegar num ponto maior porque é muita coisa e ela se renova a cada dia. E como eu já falei de início, até estava falando com o Sandro também, né, hoje ainda se busca escrever a memória do samba. Mas o samba não tinha memória. Então aquelas pessoas que tinha algum conhecimento, que sabia, ele passava assim para o próximo, e quem recebia não tinha preocupação de estar anotando, está entendendo? Então era uma coisa boca a boca, só que cada um acrescentava ou então tirava uma informação. A coisa ficou muito distorcida. Quando eu percebi que tinha essa dificuldade, eu comecei, falei: "Não, eu vou buscar alguma coisa escrita." Porque se está no papel já dá uma maior credibilidade.

P/1 - Você encontrou isso?

R - Ah, encontrei muito pouco. Muito pouco. Mas tem algumas literaturas por aí, importantíssima, uma das que eu vi melhor foi o J. Muniz Júnior. Eu não lembro agora o nome do livro. Como é que é? Samba e Batuque, qualquer coisa nesse sentido. José Ramos Tinhorão, entendeu? Enfim, tem outros aí que agora, no momento, não me ocorre na memória. Eu não tive assim a preocupação de anotar, trazer anotado.

P/1 - Mas junto com o livro você conversava com as pessoas?

R - Ah, conversava, conversava. Não só da Vai-Vai como nessa altura do campeonato eu já tinha me relacionado com quase todas as escolas de São Paulo. Então comecei a me relacionar com as pessoas de outras escolas: "Como é que é a sua escola? Como é que deixa de ser?"

P/1 - O pessoal da Vai-Vai não ficou bravo?

R - Olha, ficar, fica. Mas...

P/1 - (riso)

R - ... a gente tira de letra. E nessa caminhada, vai escutando só que coisa interessante: nessas minhas caminhadas, eu fui convidado por uma diretora do Departamento da Terceira Idade, naquela ocasião ela era diretora na secretaria de Esporte e Turismo da Cidade, a montar o bloco da melhor idade. Falei: "Poxa, mas eu vou trabalhar com a terceira idade, será que vai dar certo?" Mas eu fui. Fui, gostei, montamos o bloco, o bloco desfila aqui na Folia na Faria, entendeu? Fiz parte da formação do bloco. E por dois anos consecutivos eu desfilei com o bloco aqui na Folia na Faria. Aí eu quis montar no bloco uma ala de baianas.

P/1 - Dentro do bloco?

R - Dentro do bloco. Eles não permitiram. Então falei: "Vou sair do bloco e vou ver o que eu posso fazer pela vida." E, por coincidência, nesse mesmo período teve uma eleição na Vai-Vai. E eu, por ter vestido a camisa, a camiseta da oposição, eu fui desligado dos quadros da Vai-Vai. Mas nessa ocasião, aliás o que acontece todos os anos, eu recebo muito convite de escolas, para trabalhar noutras escolas. Até escolas do interior. Aí eu fui para a Nenê da Vila Matilde. Fiquei dois anos lá na Nenê. Com ala de baianas também.

P/1 - Com ala de baianas também.

R - Ih, aí criou um clima. A mesma coisa do cara que, o marido que sai, vai morar noutra casa, depois quer retornar para a primeira casa, então cria aquele clima, né? "Não, aqui você não entra mais, ninguém quer você mais aqui." Falei: "Mas eu quero vocês." Então foi aquela luta, eu vim, pedi desculpa para o presidente, peguei... "É, mas você não vai tomar conta das baianas." Falei: "Tudo bem, eu estando aqui já é um passo."

P/1 - Eu quero é ficar aqui.

R - - Eu quero ficar aqui, é. Mas aí eu falei assim: "Bom, o que é que eu vou fazer?" Enquanto eles não me davam oportunidade, eu montei para mim um grupo cultural de senhoras, então eu coloquei: Grupo Cultural Tias Baianas Paulistas. Então comecei a trabalhar na terceira idade e lá na Vai-Vai. Até que um dia eu fui chamado lá na Vai-Vai: "Valtinho, vem cá." "O que é?" "Você vai voltar para a ala das baianas outra vez." Falei: "Opa!" "Você aceita?" Falei: "Lógico que eu aceito, né?" Aí assumi esse ano novamente a ala de baianas da Vai-Vai.

P/1 - Esse ano agora?

R - Esse ano aqui. Assumi novamente. Mas juntando todos, eu tenho já, só com ala de baianas, eu já tenho 12 anos completos de trabalho. Direto. Eu, desde quando eu comecei em 1982, não, 84 eu peguei ala de baianas. Não parei até hoje. Direto, não paro mais. E não quero outra coisa mais, né?

P/1 - O que que é dirigir a ala de baianas, como que é o trabalho? Como é esta questão da direção? Você dirige...

R - Não, é simples, porque começa pelo cadastramento. Então você vai cadastrar as pessoas que estão pretendendo a sair na ala de baianas. E vai travar com aquela pessoa, né, buscar se realmente ele está interessado em participar da ala ou se ele quer apenas ser mais um. E eu observo muito isso. E quando ele quer ser mais um, eu falo: "Olha, aqui não vai dar para a senhora. Porque nós queremos realmente quem está interessado em participar. Aí eu convido as pessoas a fazer um ensaio. Chega nessa época, por exemplo, nós já estamos ensaiado. Então aparece candidatos todo domingo.

P/1 - Todo domingo?

R - Todo domingo. Todo domingo aparece candidato. E todo domingo eu dispenso candidato.

P/1 - E é uma ala concorrida?

R - Super.

P/1 - Aquela ciumeira.

R - Principalmente na Vai-Vai, né? Porque a escola, a fantasia, como é que a gente fala assim, a popularidade, entendeu? Então isso aí desperta muito entusiasmo nas pessoas e por esse motivo eu seleciono mais ainda. Porque veja bem. A Vai-Vai hoje, em 1999, a Vai-Vai hoje ela está praticamente entre as primeiras de São Paulo. Ela ainda não está assim a nível de Rio de Janeiro, porque eu não conheço Rio de Janeiro, não sei comparar. Mas em São Paulo ela está entre as primeiras. E por ela estar entre as primeiras, eu tenho por norma que se a escola hoje tem toda aquela estrutura, uma belíssima quadra, um belíssimo barracão de trabalho, entendeu, e outras coisas mais que ela tem, uma popularidade imensa, uma freqüência de pessoas, já não é aquela... pessoas realmente interessadas no progresso da Vai-Vai, a baiana trem que acompanhar tudo isso, ela não pode ficar à parte desse sistemas. Ela tem que acompanhar. Em todos os sentidos. Então eu seleciono muito. Ela tem que saber dançar, cantar, ter postura. Antes, durante e depois do desfile de carnaval. Porque o desfile de carnaval não quer dizer que finalizou tudo. Foi mais um trabalho que realizou, aí depois a gente vai fazer a avaliação, o que se pode melhorar e os problemas que trouxeram, que a gente não deve repetir. As falhas, a gente não deve repetir. Então a gente fica o ano inteiro, sabe, conversando. Vai fazer apresentações, durante as apresentações, que a gente vai fazer visitas, né, a gente já começa a estar melhorando alguma coisa. Olha, para falar a verdade, é um trabalho interminável. É interminável. Mas tem um detalhe: não basta querer, tem que ter vontade. Que a mesma coisa, é trabalhar com o pessoal de terceira idade: não basta querer, tem que ter vontade. Entendeu? Porque as pessoas são assim muito melindrosas, muito sensíveis. Às vezes, até a maneira de, por exemplo, se eu estou conversando com a baiana do meu lado esquerdo e não olhar para o lado direito, a do lado direito vai ficar zangada, porque não estou dando atenção para elas. Só para vocês terem uma idéia de como é difícil. Se eu chegar cumprimentando uma componente, pegar na mão dela e tal, eu vou ter que pegar na mão de todas. Senão elas vão achar que eu estou fazendo pouco caso.

P/1 - (riso)

R - É incrível, né? Mas eu me dou bem com essas... (riso)

P/1- Tem que ser super diplomático, né?

R - Tem, super diplomático. Eu aprendi muito. Olha, vocês podem crer, eu aprendi muito com isso. Aprendi, mentira. Estou aprendendo muito. Porque graças a esse meu relacionamento com essa gente, eu até estava falando para o Sandro pouco tempo atrás, estou conseguindo assim um bom relacionamento inclusive com algumas autoridades relacionadas à terceira idade. Até o próprio gabinete do prefeito, hoje, tem pessoas lá dentro do gabinete que me recebem de uma maneira, sabe, pelo trabalho que eu faço, com a terceira idade e com as baianas.

P/1 - Ah, porque as Tias Baianas, você continua trabalhando com elas?

R - Ah, essa aí é meu cartão de visita. (riso)

P/1 - (riso) É?

R - É, porque é um trabalho que saiu da minha imaginação e conseguiu os adeptos, as pessoas seguidoras, né? E está crescendo dia a dia. O que está me segurando é a falta de condições financeiras para tocar o trabalho e falta de espaço para a gente estar ensaiando. Que na hora que eu conseguir isto aí, eu vou me expandir.

P/1 - E já desfilou?

R - Não, a gente se apresenta assim em festas regionais, festas de bairro, eu me apresentei no Memorial da América Latina por duas vezes. Ainda ontem, nos apresentamos no saguão da Casa de Portugal, entende?

P/1 - Liberdade, né?

R - É, avenida Liberdade. Sempre fazendo assim nossas danças, cantos, entende? P/2- ô Valtinho, e a origem dessas mulheres, das baianas da escola, qual é a origem delas, de onde elas vêm?

R - Da escola de samba mesmo?

P/1 - É.

R - Interessante que hoje está muito diversificado porque as escolas cresceram. Mas, no princípio, era de mãe para filha. Era de mãe para filha. Então, a baiana tradicional mesmo, ela surgiu dos terreiros de candomblé. Tinha os terreiros de candomblé, onde se fazia a sessão do candomblé, né? Terminava aquele culto religioso, então eles iniciavam o batuque. Isso foi muito comum. E daquele batuque foi onde surgiu os sambistas, surgiu os blocos, depois em seguida vieram os cordões, e daí eles saíram para a rua. Então eram aquelas mães de santo, aquelas filhas de santo, é que foram as primeiras baianas. Mães de sambistas, mães de passistas, de compositores. Todo compositor, todo grande sambista antigo, todos eles eram filhos de baianas, netos de baianas. Todos eles. Então aquilo passava de mãe para filha, as primeiras baianas. Aí os blocos se juntaram aos cordões, formaram as escolas de samba. Voltando ao caso da Vai-Vai, então cresceu muito. E desse crescimento começou a surgir gente até da sociedade, da alta sociedade. Pessoas que nunca desfilaram: "Ah, meu sonho é desfilar na ala de baianas." Eu enfrento muito isso.

P/2- - Mas ainda tem este vínculo das mulheres da ala da baiana com a religião, como candomblé?

R - Este vínculo hoje, Sandro, ele está mais ou menos assim, eu vou falar por alto, mas, está com 60%, para não dizer mais. Para não dizer mais. 60% têm este vínculo. Eu sei porque causa que elas vêm e falam para mim, me convidam para conhecer a casa de candomblé delas, o terreiro delas. E quando eu tenho oportunidade, eu vou. Eu não discrimino, não. Apesar de não fazer parte, não discrimino. Porque para mim, também é fonte de conhecimento. É assim que, hoje a ala de baianas estava nesse pé, vamos assim dizer. E tem muita gente já, inclusive, da alta sociedade, freqüentando a escola de samba para sair na ala de baianas.

P/1 - Para sair na ala de baianas?

R - Para sair na ala de baianas.

P/1 - E pressiona você para entrar na ala de baianas?

R - Pressiona. Elas vêm: "Ah, eu quero sair de baiana." É pedagoga, advogada, professora, assistente social. Tem demais na minha ala. E todas elas recebem o tratamento iguais, não faço diferenciação de tratamento. Tanto aquela senhora que é diarista, que trabalha de diarista, como aquela que é advogada, o tratamento dentro da ala de baianas é o mesmo. Eu não faço diferenciação de tratamento. Pelo contrário, viu? Eu até falo para que elas são todas iguais ali dentro, e que umas devem respeitas as outras. A mais velha deve respeitar a mais nova, para que ensine à mais nova o segredo ser baiana. E a mais nova que se enturme com a mais velha para dar seguimento a essa tradição. Que elas já estão desaparecendo. Nós temos aqui ainda fazer força para segurar. Mas eu acredito que para 2001, nós já não vamos mais ver uma ala de baiana tradicional nas escolas de samba. Não vamos mais. Porque hoje ela já não é mais. Ela está longe da baiana tradicional. Hoje ela é assim, vamos dizer assim, uma dama, uma ala de damas, não é uma ala de baianas mais.

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