Redescobrindo o coração central do Brasil
Nós somos os expedicionários, Guitinho, de Recife, PE e Camila Drumond, de Lençóis, BA! No dia 4 de dezembro fomos a Pirinópolis, Goiás, com sede de aprender, descobrir e redescobrir um pedacinho do Brasil, o novo velho. Nos encontramos no aeroporto de Brasília, com Denísia, de Belo Horizonte. Luciana, da Guaimbê, organização coordenadora do Pólo Central - Pirinópolis, chegou para nos buscar. Entramos no ônibus debaixo de uma chuva leve, que anunciava junto à nossa chegança também o dia da Senhora das Tempestades! Era dia de Yansã, Santa Bárbara. E logo que colocamos o pé na estrada a chuva apertou e fomos abençoados pela Deusa do Tempo.
Neste dia todos foram chegando em Pirinópolis, pedacinho de um Goiás de chão fértil de histórias de ouro a serem garimpadas. Itamara, de Minaçu, trouxe a essência doce das almas guerreiras que vivem a tradição oral dos quilombolas de lá. Maria Vilma e Dailir marcaram a força das Dandaras, Grupo de Mulheres Negras no Cerrado. Silvio e Ronaldo saltaram do Picadeiro do Circo do Riso e nos alegraram muito. Luciana e Thiago, de Taguatinga, tiraram da bagagem a magia dos bonecos do Invenção Brasileira. Dalila dançou a formosura da Sussa da Comunidade Kalunga de Cavalcante. Adriana e Elsoni brincaram o sagrado e o profano da Caçada da Rainha, de Colinas do Sul. Willian compartilhou o olhar de um caminhante que vem convivendo, apoiando e aprendendo com os Kalunga. Teodora, da Associação Mãe Quilombo Kalunga, trouxe a voz e a simpatia do povo Kalunga de Monte Alegre. Sabrina, cheia de poesia, abriu as portas do Mato Grosso do Sul pela Fundação de Cultura do MS. Daraína, Luciana, Elias, Murcego, Emília e toda a equipe do encontro nos receberam com muito carinho e conforto, nos proporcionando fortes vivências culturais com os mestres da Guaimbê – Espaço e Movimento Criativo.
Na noite da chegada vivenciamos, com o Grupo Levanta Poeira, a Catira, uma linda dança da região, que soa a batida forte dos pés de crianças, adultos e velhos-jovens de até 91 anos de idade, como o mestre Sebastião de Chica. Ô dançar bonito que é a Catira! Nos dias seguintes trabalhamos bastante, compartilhamos histórias de vidas e podemos confessar aqui: a cada rodas dessas descobrimos pessoas maravilhosas e ricas. E vamos nos redescobrindo a partir do outro. É emocionante! Fizemos cortejo para conhecer mais sobre os trabalhos que realizam cada organização. Foi lindo! Vivenciamos a magia do Circo e dos brinquedos populares, a revelação de um Brasil que brinca com o sorriso das pessoas. Cantamos a Caçada da Rainha e embalamos os passos dos mascarados. Descobrimos um Brasil que mamulenga com seus bonecos. Os Kalungas contaram um Brasil cravado em suas quartinhas e panelas de barro, além de outros lindos artesanatos. As Dandaras nos contaram, em cada trança de seus cabelos, que as mulheres negras estão em uma luta crescente pelos seus espaços e são armadas de palavras e ações concretas. O Governo do Mato Grosso do Sul nos mostrou que trabalha para preservar e garantir os direitos dos povos indígenas e quilombolas desse Estado. E por a Guaimbê nos trouxe mestra Narcisa contando sua história de pessoas que como ela enxergavam a velhice como algo para esperar a morte chegar, quando tudo mudou depois do trabalho realizado na Guaimbê. Revelamos um pouco do pólo nordeste ao pólo central. Falamos das ações do Grão de Luz e Griô, instituição coordenadora do nosso Pólo Nordeste e das vivências de tradição oral que todo o Brasil vem tendo com os mestres da Ação Griô. Falamos também sobre todas as organizações que vocês podem conhecer melhor no álbum dos expedicionários de São Paulo.
Enchemos nosso Baú dos Expedicionários com cores e texturas diversas de objetos e peças que contam um pouco da história de cada instituição participante do Pólo Central. Assistimos uma apresentação de teatro belíssima e reveladora, preparada pela Guaimbê, que encheu nossos olhos de brilho e lágrimas e nossa bagagem cultural de histórias sobre Pirinópolis. O grupo também participou do Baile da Roça, no Quintal da Aldeia.
Entrevistamos o mestre Bastião de Chica e as mestras Guerreiras do Bonfim Dona Ana, Dona Helena, Dona Laurita e Dona Miuza. O Mestre Bastião de Chica falou poeticamente, espiritualmente, com palavras ranzinzas, mas leve como o tempo. Tempo que para este homem parece nunca passar. E lindo também foi ouvir as palavras fortes e emocionadas de quatro mulheres que desenharam os caminhos de suas vidas difíceis na roça e que, naquele momento, nos mostravam o rabiscado do anos, descortinando suas histórias de lutas que o tempo não leva. Voltamos ao nosso Pólo cheios de histórias para contar, com o coração palpitando do entusiasmo dessa gente forte e especial que compõe a região central do nosso Brasil! Redescobrimos... seres humanos lindos, fortes, simples, guerreiros e brincantes. Redescobrimos culturas ancestrais que constroem nosso caminhar no presente. E redescobrimos organizações que merecem todo o respeito e espaço para manifestarem suas ações, porque alimentam a sobrevivência, criação e reinvenção do nosso povo brasileiro. Obrigada a todos que compartilharam e vivenciaram estes momentos conosco!
Expedicionários Camila Drumond e Guitinho