Geraldo Elias Martins, o Gegê, nasceu em 26 de maio de 1929, em Acaiaca, vila perto de Mariana (MG). Entre uma cidade e outra, descobriu o prazer da música e aprendeu vários instrumentos até se tornar maestro de banda e quase tocar para o presidente da República. A história ele contou ao Museu da Pessoa em 2002.
Uma das brincadeiras que gostava demais era de fazer bandinha. Eu tinha minha banda particular. Desde pequeno. Juntava aquela garotada toda e cada um tinha um instrumento. Com uma lata fazia também um xique-xique. Furava aquelas latinhas pequenas e fazia. Ia ao pé de mamão, cortava e fazia flauta. Mamona também dava. E saía todo mundo marchando, eu na frente. Já era o maestro. Desde pequenininho. Eu pegava a minha flautinha de mamão, sempre a maior. Porque o maestro tem que ser especial. Aquela flauta maior, eu pegava o talo maior do mamão e fazia uma caprichada para mim. E saía marchando. Saía abaixando a turma.
Naquele tempo eu era muito novo, ficava só por conta de escola e fazer arte. Nessa ocasião eu estava com 10 anos. Quando eu tirei a quarta série, minha irmã cismou que eu tinha que ser padre. A maior paixão dela era que eu fosse padre. Nessa altura já era casada e morava aqui, em Mariana e me trouxe para a casa dela para fazer a preparação. Então, com 11 anos, eu vim direto aqui para Mariana para me preparar e entrar no Seminário. Tinha que fazer um curso. As matérias exigidas eram religião e matemática - aritmética que se falava -, e português.
No nosso Seminário tinha uma bandinha dos seminaristas. Fazia parte do currículo. Porque a música ajuda muito o estudo. Aumenta o intelecto da pessoa. Facilita demais as outras matérias. E nós tínhamos um coral com o nome de Dom Helvécio, que era o nosso arcebispo. E os seminarista, que eram muitos, o padre, que era um grande musicista, escolheu aqueles que tinham mais entoação. Um bom ouvido. Porque o músico já nasce com o "ouvido absoluto", como chamamos. Eu fui escolhido. Acabei estudando cinco anos. Não, quatro anos e pouco. Eu resolvi que esse negócio de padre, para mim, não ia dar certo não. Tem que ter vocação, se não tiver vocação não dá não. Mas no Seminário não cheguei a aprender nenhum instrumento. Fui pegar depois, com meus irmãos.
A minha família toda era de músicos; sou o caçula, ficava assistindo à turma ensaiando. Toquei requinta, clarineta e fiquei no saxofone. Quando eu saí do Seminário, meus irmãos já tinham o conjunto deles, de fazer baile, essas coisas. Chamava-se Independente Jazz. Um tocava trombone, outro tocava requinta, outro tocava clarineta. Eu botei na cabeça do meu pai:
- O senhor tem que comprar para mim um saxofone.
- Não, você vai aprender primeiro na clarineta do seu irmão. Se você aprender...
Lá era assim. Depois que eu aprendi então ele comprou. Foi em São Paulo e comprou por 10 mil réis. Eu tenho esse sax até hoje. Novinho. Eu faço questão de conservar.
Em 1969, fui para Mariana. Lá, a centenária Banda União estava com um regente muito amigo, Álvaro Walter, que me convidou para participar. Em 1978, ele foi transferido para Uberaba e, desde então, assumi a regência. Fomos convidados para tocar na posse do Tancredo Neves, em Brasília, em 1985. Eram dez bandas, íamos fazer a “Alvorada” para ele. Dormimos em colchões distribuídos pelo chão. Às 4 da manhã levantamos, todos uniformizados, cada um com seu instrumento. Chegou a notícia: “Tancredo está passando muito mal, foi operado e não vai mais haver posse.” Uma frustração enorme, viagem de 12 horas, aquela euforia, tocar para o novo presidente, mineiro. A gente veio muito triste, sem nenhuma comemoração, e até hoje esse fato não saiu mais da nossa lembrança.
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