
No Brasil, estima-se que, além do português, coexistem cerca de180 línguas indígenas, além de outras 30 línguas de imigrantes provenientes da Europa, Ásia, Oriente Médio e até de outros países do continente americano.
Muitas dessas línguas estão em vias de extinção. A campanha Cada pessoa uma história, cada história uma língua busca sensibilizar e mobilizar organizações e pessoas para o respeito e preservação dessas formas de expressão, que representam práticas, visões de mundo e conhecimentos de comunidades de grande valor para a sociedade brasileira.
Este é o depoimento de Vera Popygua colhida durante o VIII Encontro Nacional de Culturas Populares, na 2ª edição da Aldeia Multiétnica, que ocorreu de 19 a 25 de julho. Pedro Mirim de Delano ou Vera Popygua, em Guarany, seu nome na cultura indígena significa Relâmpago. Pedro nasceu em Laranjeiras do Sul, Paraná, e veio para São Paulo no ano de 2000, ficando aqui para cursar pedagogia na Universidade de São Paulo, convertendo-se professor com o objetivo de ajudar seu povo. Durante sua formação ele aprendeu o português e reforçou seus conhecimentos sobre o Guarany que lhe foram originalmente ensinados por sua avó ao longo de toda a sua infância. Alvo de preconceitos na cultura branca, Pedrinho percebeu que ensinar era a melhor forma de resistir.
Veja mais“Vivi muitos anos com a língua entortada,
porque fui obrigado a falar palavras estranhas de uma outra língua.
Queriam que eu falasse uma língua que eu não falava,
que eu dissesse o que não dizia, que eu calasse o que sabia.”
Estes são os primeiros versos de
Duas Línguas, poema criado por professores guarani e agentes indígenas de saneamento em uma oficina ministrada pelo professor José Ribamar Bessa Freire no Rio de Janeiro. O poema, escrito em português e guarani, retrata a experiência indígena em conviver com dois idiomas e também com duas diferentes tradições lingüísticas: o guarani, língua indígena sem escrita, e o idioma português trazido pelos colonizadores.
Duas Línguas foi inspirado em Dues Lhénguas, escrito por Amadeu Ferreira em mirandês. Os falantes do idioma mirandês, atualmente a língua oficial de 31 aldeias portuguesas, também vivem a experiência da comunicação cotidiana em uma língua minoritária. A memória da convivência cotidiana, às vezes conflituosa, às vezes harmônica, com o português é o elemento que une Duas Línguas e Dues Lhénguas. Por isso, o poema original foi traduzido também para o português e alguns de seus versos para o guarani.