Marilda de Souza Leande nasceu em uma aldeia em Brasilândia, em 15 de Abril de 1967. Filha de João de Souza e Cândida Francisca, após um ano de idade foi morar com sua avó paterna Filomena de Souza, com a qual ficou até os 6 anos de idade. Quando da morte da avó, foi morar com os seus pais na Aldeia.
Falou apenas a língua de origem da etnia Ofayé até os sete anos, língua que era falada por todos da Aldeia, inclusive por seus avós. Aprendeu o português quando foi estudar em uma fazenda, mas não deixou de lado sua língua de origem, que tinha e tem um significado muito importante para manter viva a sua cultura original. Hoje, ela é passada de pai para filhos e falada mais entre seus irmãos e família.
Quando criança morava em casas simples de sapê e chão batido, e pouco tinha o que fazer para se divertir. Em suas horas vagas, ajudava os pais caçando, pescando e tirando mel, de modo que sobrava pouco ou nenhum tempo para poder brincar.
A escola que começou a freqüentar aos 7 anos de idade era em uma fazenda de propriedade do Sr. Loro Cardoso – sua esposa, aliás, era a professora dos alunos da região da fazenda. As aulas aconteciam em uma sala improvisada da casa que acolhia todas as crianças. A princípio, aprender outra língua foi muito estranho e muito difícil, porém com o tempo Marilda foi se acostumando e aprendendo a língua que lhe era ensinada. No entanto, Marilda nunca deixou de lado o Ofayé. Estudou nessa escola até o quinto ano quando, aos 12 anos de idade, toda a tribo foi enganada: um poderoso fazendeiro da cidade de Brasilândia lhes roubou as terras e os enviou em um caminhão para a distante cidade de Bodoquena. O povo da aldeia de Marilda acreditava estar indo para uma aldeia já formada, mas, ao chegarem na terra que lhes foi prometida, perceberam que se tratava de uma propriedade que fora invadida por posseiros. Não tinham nenhum tipo de assistência, já que o local era longe da cidade, e não tinham como se manter de outra forma a não ser viverem exclusivamente da caça, pesca e retirada do mel. Foi um período de sofrimento muito grande, já que antes, no município de Brasilândia, a Aldeia contava com alguns benefícios proporcionados pela cidade.
Aos 17 anos, enquanto estava em Bodoquena, teve seu primeiro casamento. Marilda conta que casar foi praticamente uma fuga do sofrimento que estava passando junto a seu pai. Devido a vida dura que encontrara no novo ambiente, passou a beber e bater nos filhos, o que levou Marilda a sair de casa e morar com um índio na mesma aldeia. O casamento durou um ano aproximadamente, e depois dele Marilda voltou pra casa de seu pai. Ele já tinha parado de beber, pois tinha ficado muito triste em saber que sua filha, que muito o ajudava, tinha saído de casa por causa de sua bebedeira. Assim que ela retornou, passado um tempo, seu pai não agüentava mais viver daquela maneira e resolveu voltar para a cidade em que tinha passado toda a sua vida, deixando assim os filhos na cidade de Bodoquena morando com seus tios.
Tempos depois, Marilda foi com a família para uma aldeia Guarani na cidade de Ponta Porá, onde após três se casou com Roni, que havia sido deixado pela esposa. Marilda vive há vinte anos com Roni e 4 filhos, sendo dois meninos e duas meninas. Há dezessete anos Marilda perdeu seu segundo filho devido a uma pneumonia dupla, e vive com os outros três hoje. Todos estudam na cidade e o filho mais velho, com 18 anos, trabalha nos serviços da roça enquanto não está estudando para poder ajudar no sustento da família.
Marilda hoje é professora da língua Ofayé em uma escola instalada dentro da aldeia, mantida pela Prefeitura Municipal de Brasilândia. Lá ela conta a história dos povos Ofayé e ensina a língua para 10 alunos, nos períodos da manhã e da tarde.
Em um momento emocionante da entrevista, Marilda nos conta que os fatos mais marcantes e difíceis de sua vida, foram a morte de seu filho quando ainda era bebê, no mês de dezembro de 1991, e, em janeiro de 1992, a morte de seu pai, que foi assassinado por um sobrinho, depois de um desentendimento por causa de uma garrafa de pinga – o sobrinho acabou matando-o com vários golpes de pau. Hoje, o sobrinho que matou seu pai vive na mesma comunidade que Marilda, mas ela não lhe dirige a palavra.
Em toda sua vida, os integrantes de sua família sempre foram as pessoas mais significativas para Marilda, a sua razão de viver, como ela diz. Seu maior sonho é que haja sempre a preservação de sua língua de origem, pois ela sente que com a interação direta do índio com o branco, isso está se acabando. Marilda quer que os alunos lembrem dela através da língua que ela tanto faz questão de ensinar. Outro sonho que Marilda tem é ver seus filhos formados, cada um na profissão que escolher, de advogado a enfermeira.
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