Filho de Vicente Leande e Odete Martim, assim que nasceu Rony foi separado de seus pais, sendo levado para uma aldeia na cidade de Amambay, para morar com uma tia (Odete) e os avós maternos (Ramona e Pedro). Aos três anos de idade voltou a morar com seus pais que se mudaram da fazenda para a aldeia.
Em sua casa ele falava a língua Guarani e o Português. Aprendeu
a falar ambas as línguas com sua avó paterna Maria Maricota,
que falava em Guarani e instantaneamente já traduzia para o Português.
O Guarani para ele tem um significado histórico, já que
hoje pouco se fala a língua nativa entre os índios de quaisquer
tribos.
Hoje em dia Rony fala Guarani apenas com os 3 filhos que moram com ele
e com sua esposa que é Ofayé; porém, a língua
mais utilizada mesmo ainda é o Português.
Morando sempre em Ocas de sapê, nunca teve muito tempo para brincadeiras de nenhum tipo - sua única ocupação foi ajudar nos trabalhos de casa e na lida no campo.
Freqüentou a escola da Aldeia por apenas uma semana, quando tinha 9 anos. Isso porque ele brigou com a professora que lhe aplicou um corretivo de palmatória. Rony conta que não admitiu isso: derrubou a professora e saiu em disparada com seu cavalo. Chegando em sua casa, deixou o cavalo amarrado na cerca e fugiu para a estrada, onde encontrou um fazendeiro que passava e ia pra região de Campo Grande. O fazendeiro perguntou-lhe o que ele estava fazendo ali naquela estrada, e ele disse estar procurando alguém que lhe desse trabalho. Rony então foi embora com esse fazendeiro, sem avisar ninguém de sua família, deixando-os preocupados a lhe procurar. Um ano depois ele retornou à sua casa, com alguns trocados no bolso, e foi uma alegria para sua família. Quando falou que iria retornar para a fazenda para poder dar continuidade ao seu trabalho, o pai o seguiu, e trabalhou por algum tempo com seu filho na mesma fazenda. Trabalhou lá até os 12 anos.
Aos 13 anos foi pra Aldeia de Dourados, onde perdeu o pai, que se suicidou, enforcando-se por ciúmes da esposa que flagrou com outro homem. O pai, no entanto, nada lhe contou. Um dia ao cortar o cabelo do filho, o pai apenas disse: “Filho, o pai vai embora trabalhar pra bem longe, acho que você não vai ver mais o pai. Porque o pai, não quer confusão, e antes que o pai faça alguma besteira, é melhor o pai ir embora.” Na manhã seguinte o pai, Vicente Leande, pegou uma corda e um arame, coisas que sempre usava pra trabalhar, discutiu com a esposa, e saiu.
Naquela noite ele não teve mais notícia de seu pai, e dois
dias depois saiu em busca dele, pois achava que tinha ido até uma
fazenda vizinha. Chegando lá Rony descobriu que seu pai não
tinha ido à fazenda, mas que precisavam de alguém pra cortar
aroeira. Rony ficou na fazenda três dias, com outro índio
fazendo o serviço que era para o seu pai ter feito, e no terceiro
dia, chegou o fazendeiro falando que precisava falar com ele, e levá-lo
com sua mãe até a delegacia. Apareceram três índios,
que os escoltaram. Porém, ao chegar próximo de um rio, armaram
uma emboscada: os índios acreditavam que a mãe de Rony e
seu amante teriam mandado matar o pai de Rony, e assim queriam tirar a
vida dos dois e jogá-los no rio. Levariam apenas as orelhas de
Rony e sua mãe como garantia de justiça. Com sorte, chegou
o fazendeiro e impediu tal crime. Rony foi levado então com sua
mãe à delegacia da cidade e relatou seu último dia
com seu pai. No depoimento de Rony, a polícia achou que ele sabia
de todo o ocorrido e o pressionou com uma arma. Ele disse não saber
de nada de seu pai, e que, pelo contrário, gostaria muito de saber
onde ele estava. Depois foi a vez da mãe de Rony ser ouvida, e
quando lhe apontaram uma arma ela se assustou e disse ter sido a mandante
do crime, fato que em seguida foi investigado e descoberto que na verdade
não havia sido um assassinato e sim um suicídio.
Depois disso, Rony saiu da aldeia, foi para o Paraguay, morou em várias
fazendas. Aos 17 anos retornou para a aldeia e ingressou no exército,
do qual desertou por medo da guerra, voltando então para os trabalhos
em fazendas, até retornar para a Aldeia aos 22 anos.
Rony teve cinco esposas, a primeira com 14 anos e está há 20 anos com a mesma mulher. Ele tem 5 filhos: 3 moram na aldeia atual (Ofayé) trabalhando no campo, e 2 moram na cidade e trabalham como pedreiro.
Hoje em dia, por estar impossibilitado de exercer algumas atividades devido a um problema na perna que o prende a uma cadeira de rodas, ele apenas faz artesanatos indígenas, como arcos, flechas, penachos, baracás etc, e vende tais produtos nas feiras na cidade ou para turistas que visitam a aldeia.
Ensinou o Guarani para os filhos e esposas, apesar de ser uma língua muito pouco falada nos dias atuais. Fez isso por achar importante preservar a cultura guarani que aos poucos vai se acabando.
Quando perguntado sobre qual é o seu maior sonho, Rony responde: “Que haja mais união entre os índios da comunidade em que vive, tendo todos um único interesse, e que todos possam receber tudo em partes iguais, e não apenas um ou outro receber valores mais elevados, aproveitando de sua condição social, dentro da aldeia. E que os índios, se envolvam mais em resgatar a sua cultura, não se envolvendo com coisas ruins, que tanto mal faz a todos”.
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A história de Rony Leande foi contada por Márcio de Sousa Sicilio, Diretor de Cultura de Brasilândia - MS