“Vivi muitos anos com a língua entortada,
porque fui obrigado a falar palavras estranhas de uma outra língua.
Queriam que eu falasse uma língua que eu não falava,
que eu dissesse o que não dizia, que eu calasse o que sabia.”.
Estes são os primeiros versos de Duas Línguas, poema criado por professores guarani e agentes indígenas de saneamento em uma oficina ministrada pelo professor José Ribamar Bessa Freire no Rio de Janeiro. O poema, escrito em português e guarani, retrata a experiência indígena em conviver com dois idiomas e também com duas diferentes tradições lingüísticas: o guarani, língua indígena sem escrita, e o idioma português trazido pelos colonizadores.
Duas Línguas foi inspirado em Dues Lhénguas, escrito por Amadeu Ferreira em mirandês. Os falantes do idioma mirandês, atualmente a língua oficial de 31 aldeias portuguesas, também vivem a experiência da comunicação cotidiana em uma língua minoritária. A memória da convivência cotidiana, às vezes conflituosa, às vezes harmônica, com o português é o elemento que une Duas Línguas e Dues Lhénguas. Por isso, o poema original foi traduzido também para o português e alguns de seus versos para o guarani.