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Histórias
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Minha
atividade principal foi a anti-circuncisão. Quando se suspeitava
que alguém era judeu, os policiais poloneses levavam para a
entrada de um edifício, calças para baixo e faziam uma
revisão. Encontrei um cirurgião e nós discutíamos
a possibilidade de recuperar a anatomia normal. Alguns cirurgiões,
ainda no gueto, já haviam tentado. Mas quando os alemães
souberam, deram um jeito para revisar se tinha algum sinal. Este médico
tinha uma idéia para fazer a operação de forma
que não se pudesse perceber. Eu fui a cobaia.
Adam
Edward Drozdowiczz |
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O navio
[que trouxe Claude Haguenauer da França para o Brasil] estava
cheio de refugiados: franceses, poloneses, belgas e argentinos que,
surpreendidos pela guerra na França, voltavam para seu país.
A primeira escala foi em Casablanca e depois Dakar. Quando íamos
deixar o porto, os alemães, que ocupavam a França, obrigaram
o navio a ficar em Dakar. Ficamos cinco meses ancorados, na base do
sim e não, do pode sair, não pode sair. Jogávamos
bridge das seis horas da manhã até às duas horas
da madrugada seguinte.
Claude
Haguenauer |
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Perto
do dia 1º de maio um amigo meu veio me dizer: "Dobola, você
tem que fugir, porque eu acho que antes do 1º de maio eles vêm
pegar todo mundo. E como você já é considerada
uma das intelectuais esquerdistas, é melhor você sair
da cidade". Munca mais voltei para Iedenitz. Três anos
eu andei. Trabalhei numa fábrica em Bucareste, para poder me
sustentar. E depois em 33, fizeram papéis para eu sair do país.
Eu não era a única. Centenas de jovens tiveram que fugir.
A situação estava agonizante, já havia um sentido
nazista
Doba
Zonenschain |
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Me lembro
de uma vez, que tinham fechado a porta na minha cara, me sentei na
rua, embaixo de uma árvore, eu chorava. Chorava, chorava: O
que aconteceu comigo? Chorava. Que vergonha. Se meus amigos
me vissem, eles também chorariam. Me lembro, sentado embaixo
da árvore. Pois, quem diria, em 1950, comprei um apartamento
na Barata Ribeiro, vis-à-vis daquela mesma árvore. Mas
isso já é um pouquinho de poesia.
Efraim
Süsie Reisner, [trabalhou como
vendendor ambulante quando chegou ao Brasil] |
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Não
tínhamos muita noção do que realmente significava
o fascismo. Não se lia um jornal estrangeiro, quase não
existia rádio. Sabia-se, no entanto, que o telefone era escutado,
que se se dissesse alguma coisa contra o governo poderia ir para a
cadeia. Mas então vieram leis terríveis. Me cancelaram
da União dos advogados e nossa filha, que tinha um ano, não
poderia freqüentar a escola. Então começamos a
estudar a idéia de emigrar.
Emilio
Raffaelo Milla |
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Eu já
estava preparado para entrar no navio em outubro ou novembro de 36,
quando eu recebi um telegrama de minha irmã para não
embarcar. Minha irmã já estava no Brasil desde julho
e mantínhamos uma correspondência muito grande. Para
conseguir o visto, tive que mudar, na Alemanha, meu passaporte. Porque
estava escrito Dr. Erwin Wegner, além da profissão
de dentista; e o Brasil não aceitava profissionais liberais
e nem estava interessado em doutores. Então me tornei agricultor,
fui contratado como operário rural.
Erwin
Wegner |
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E nós
começamos a ficar muito tristes com nossa vida, porque perseguiam
os judeus, porque judeus isso, judeus aquilo, os judeus não
podiam trabalhar, não podiam ter nada. Como tínhamos
duas tias na América do Norte, pedimos para que elas nos mandassem
a passagem. Mas era um sistema por cotas e não tinha mais lugar,
tínhamos que esperar dois anos. Nesse mesmo período
sempre recebíamos uns papéis chamando gente para o Brasil.
Operários, trabalhadores, quem tivesse ofício. E nos
decidimos pelo Brasil.
Eva
Nussenbaum |
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E eu só
fui a um baile na minha vida, que foi quando me formei. Tinha também
cinema na cidade baixa, mas nunca fui. Só dia de sábado
que eu ia com uma amiga tomar sorvete e escutar música numa
praça. Ficávamos algumas horas
e depois voltávamos para casa. Nunca saíamos à
noite. O costume era a família se juntar para jantar.
Hana
Sukerman |
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Tudo começou
mesmo em novembro de 38 quando foi assassinado um diplomata alemão
em Paris por um judeu. Foi o acontecimento que deu o pretexto aos
nazistas de se vingarem dos judeus alemães. E teve a Kristallnacht,
a noite em que quebraram todas as lojas de judeus. A sinagoga ortodoxa
de Munique foi incendiada. Nesse dia foi que começou de fato
a brutalidade.
Hans
Wilmersdorfer |
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Quando
o navio saiu de Le Havre eu chorava muito. Mas quando cheguei ao Rio,
em 30 de abril de 1934, eu já conhecia o pessoal do navio.
Eu tinha contato com eles, saíamos, fazíamos piqueniques
juntos. Eu procurava emprego.
Hermann
Zuckermann |
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A
cidade estava sempre cheia de acontecimentos. Quando tinha um noivado,
por exemplo, se juntava todo mundo para ir na casa da noiva, dançar,
faziam danças, festas; todo mundo sentava na sala, traziam
uma moça árabe de fora para cantar em árabe,
nossas mulheres cantavam junto. Era gostoso! Ofereciam limonadas,
refrescos, doces, frutas. Era farra naquele dia! Ficávamos
até meia-noite. Isso acontecia no Brit Milá, no Bar
Mitsvá e no casamento. Era assim que a gente passava o tempo:
na sinagoga, na rua, na praia.
Ibrahim
Belaciano |
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A vida
era difícil em Aleppo. Eu era vendedor ambulante também:
comprava fazenda e vendia por metro. Depois arranjei um emprego com
um primo numa loja, mas não dava lucro, sempre trabalhando,
sempre sem lucro; no fim resolvi viajar para o Brasil.
Isaac
Douek |
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Não
havia muita possibilidade de relacionamento entre os sefaradim e os
ashkenazim. Não havia tampouco hostilidade. Mas não
podíamos, por exemplo, nos juntar e formar um colégio,
um clube ou mesmo um cemitério comum. Porque um falava uma
língua, outro falava outra língua. Era como se fôssemos
dois povos diferentes.
Isaac
Emmanuel |
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A música
era o meu berço. Acho que nasci dentro de um violino, porque
não me lembro nunca de ter estado sem ele. No início
me ensinaram, não, não pega assim, endireita aqui, faz
assim com os dedos. E de resto: Olha, você tem que estudar
uma hora por dia. Era natural, fazia parte da vida. Mais tarde
então meu pai me disse: Olha, se você não
quer tocar o violino, não toca. Mas se quiser, tem que se sacrificar.
Tem que estudar pelo menos oito horas por dia. Você tem que
estudar violino como quem come. E aquilo ficou. Mesmo depois
do meu pai falecido, continuei estudando. Não oito, mas dez,
doze horas.
Jacques
Nirenberg |
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Quando
foi a Kristallnacht, quebraram nossa loja, os vidros, os grandes vidros
da loja. Eu estava em Gleiwitz, estudando para a minha profissão
como cantor e quando voltei, me prenderam. Prenderam meu pai, prenderam
todos os judeus da cidade e levaram para o campo de concentração
de Buchenwald. Foram uns cinco ou seis mil presos. Em Buchenwald já
estava tudo preparado para nos receber: cinco grandes barracas, para
algumas milhares de pessoas.
Josef
Aronsohn |
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Nas sextas-feiras
minha mãe mandava para uma padaria uma comida que ficava cozinhando
no forno a noite toda. Chamava-se dafina e era feita de trigo, ou
de grão de bico. Me lembro que quando levávamos para
cozinhar, nos davam um papel com um número. Sábado,
por volta das onze horas, íamos buscar. Ah, era uma delícia!
Joseph
Michaelovitch |
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Fui à
escola até o dia em que Hitler invadiu a Bélgica, em
dez de maio de 1940. Eu morava na casa do meu tio, em Anvers, mas,
naquele dia, meu tio estava na Inglaterra e eu estava sozinho. Eu
tinha duas bicicletas; peguei a melhor e me fui. Adeus Bélgica.
Fui até Lisboa de bicicleta.
Jules
Roger Sauer |
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1939.
Primeiro de setembro, às cinco horas da manhã, Varsóvia
foi bombardeada. Com isso começou a guerra mundial. Foi um
bombardeio tapete: duzentos, trezentos aviões,
um do lado do outro. Pedra sobre pedra não ficou. Noventa por
cento da cidade foi destruída.
Krystyna
Drozdowicz |
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Meu marido
ia dormir toda noite me dando um beijo, e dizendo: Se vierem
me prender, cuida da nossa filha. Então, numa dessas
noites de bombardeio, eu me ajoelhei e falei com ele: Marco,
não podemos continuar assim. Eu te juro, com todo o conhecimento
que eu tenho, com toda a minha instrução, se eu tiver
que lavar latrinas ajoelhada, te juro que não te recriminarei,
não farei recriminação nenhuma. Contanto que
a gente possa ir para um país livre, para criar a nossa filha.
Porque dessa maneira não pode.
Lydia
Dassa |
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Quando
entramos no campo, fomos para uma sala e umas moças nos fizeram
tirar tudo e nos disseram: Depois vocês vão vestir
de novo suas coisas. Só ficamos com a escova de dentes,
na outra sala nos cortaram o cabelo. Isso que ficamos horríveis,
sem cabelo, nós todas. Eram todas mulheres. Depois entramos
numa grande sala onde tinha chuveiros e ficamos três ou quatro
debaixo das torneiras, água!
Maria
Yefremov |
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Quando
chegamos em Recife, todo mundo desceu do navio e a gente nada, nada,
nada. Então, meu irmão, que estava nos esperando, subiu
e perguntou: O que é que há? Eles têm que
desembarcar aqui. Sim, mas não vão poder
desembarcar porque são judeus.
Mathilde
Lajta |
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Meus avós
já nasceram em Salônica. Somos descendentes de espanhóis,
da época da Inquisição. Falamos o espanhol antgio,
do tempo de Cervantes. Nós conservamos a língua do Século
XV, desde quando estávamos lá.
Mimi
Saporta |
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Meu pai
tinha os estudos de um rabino, só não possuía
o título. Ele estudou muito em Ieshivá , e ele permanentemente
estudava comigo também. Me pegava para estudar um pouco Chumash,
um pouco Rashi, um pouco Guemara, um pouco Mishná . Era obrigado
a estudar. Depois tinha que ir ao templo, ficar sempre sentado ao
lado dele, obrigatoriamente. Inclusive apanhei muito porque fui sábado
jogar futebol, e isso era a pior coisa que poderia existir.
Moriz
Lax |
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"Finalmente
meu pai admitiu minha partida, e uma razão forte foi a de que
eu já estava em idade de servir o exército e ele não
queria isso. Para meu pai fazer o serviço militar era simplesmente
virar um goi, porque se comia treif, não tinha shabat. Isso
era um problema generalizado, tanto assim que quando chegava a hora
de se apresentar, vários rapazes ídiches faziam dieta
de emagrecimento; passavam uns três meses comendo só
semente de abóbora; quem tinha menos de quarenta e nove quilos
era recusado."
Moszek
Niskier |
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Em 1917
nos preparamos para voltar ao Marrocos. Mas a guerra de 14 ainda não
tinha acabado, e uma sobrinha da mamãe nos escreveu, avisando
que não fôssemos ainda, que a guerra não tinha
terminado. De maneira que ficamos morando em Belém. E meu pai
voltou para o rio Madeira, e depois foi para o Rio de Janeiro. Ele
nunca mais voltou para o Marrocos.
Moysés
Lasry |
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Em 1934,
de repente, ninguém esperava, resolvi em dois meses viajar
para o Brasil. Na década de 30 começou a crescer o anti-semitismo
na Polônia, principalmente sob a influência do partido
que se chamava ND, que dizer, Nacionais Democratas; e também
sob a influência dos acontecimentos na Alemanha, depois que
Hitler tomou o poder. Mas também não posso dizer que
foi por medo que saí, porque ninguém podia prever o
que iria acontecer.
Pejsach
Tabak |
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Minha
irmã também estudou música. Ela estudava canto
em Munique. Um dia, ela escreveu uma carta: ontem fui assistir o discurso
de um homem chamado Hitler.
Rudi
Feitler |
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Minha
mãe disse: Você quer ir a Paris estudar? Pode ir.
Mas apenas você tem que saber uma coisa: quando você chegar
em Paris, você vai receber uma notícia de que tua mãe
morreu. Ah!, eu disse, Eu não quero
ver nem Paris nem bolsa. Não vou deixar a minha mãe.
Samuel
Avzaradel |
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Casamento
era coisa decidida pelos pais. Não era a voz do noivo ou da
noiva que contava, tinha que agradar as famílias. O que pesava
muito, além do noivo ter que conhecer o Talmud ou o Torá
era a descendência familiar. Se eram pessoas honestas, se praticavam
boas ações.
Samuel
Feigenbaum |
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Cheguei
no Rio em dezembro de 1922. Cheguei com uma roupa bem quente, quente.
O clima do Brasil mudou. Naquela época era uma coisa louca,
um deserto, e chorei como uma criança. Mas que podia fazer?
Não podia voltar.
Simão
Fraifeld |
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A cidade
de Frankfurt tinha quinhentos mil habitantes, onde vinte por cento
eram judeus. Mas não havia diferenciação nenhuma.
Os judeus estavam completamente entrosados na sociedade. Me lembro,
inclusive, quando terminou a Primeira Guerra, que meu pai passou noites
em claro por causa dos acordos de Versailles. Ele ficou muito preocupado,
com pena da Alemanha.
Therèse
Bierig |
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