O Projeto
  Por Susane Worcman

É certo afirmar que a presença dos judeus no Brasil remonta ao período colonial, pois eram judeus muitos dos colonizadores portugueses e holandeses. Esta presença, porém, pouco tem a ver com o perfil da atual comunidade do Rio de Janeiro, formada por levas imigratórias mais recentes. O fluxo imigratório judaico foi bastante irregular, dependendo de situações externas - fechamento de fronteiras e criação de sistemas de cotas na Argentina e nos EUA - assim como da política brasileira que ora favorecia, ora dificultava a entrada de judeus no país.

Em termos de números oficiais é muito difícil determinar quantos judeus entraram no Brasil, pois as estatísticas não apresentam dados por religião, mas sim por nacionalidade. Mas, é possível identificar algumas levas significativas, estipulando como início a vinda de alguns judeus da Alsácia em meados do século passado, seguidos por uma corrente numerosa de imigrantes da região Báltica (Lituânia, Estônia e Rússia). Na década de 20, chegaram judeus oriundos da Ilha de Rodes, Turquia, Grécia, Marrocos, Síria, Líbano e um grande número da Polônia e Rússia. Houve também migrações internas, como a dos judeus vindos das colônias do sul (colônias agrícolas patrocinadas pelo Barão Hirsch) e do norte do país para o Rio. Até a década de 30, as causas de emigração foram, primordialmente, a procura de melhores condições de vida, as dificuldades causadas pelo anti-semitismo e o sonho de "fazer a América".

A imigração judaica deste período não se deu de forma organizada, tendo um caráter aleatório e familiar: vinha primeiro um irmão, um pai de família, seguidos ou não por outros membros da família. Era uma emigração sem retorno, pois nem as primeiras gerações nem as seguintes pensavam em voltar.

A década de 30 e os ano 40 foram marcados pela vinda de judeus poloneses, alemães, austríacos, tchecos, húngaros, iugoslavos e dos outros países europeus atingidos pelo nazismo. A partir dos anos 50, iniciou-se um fluxo migratório de judeus do Egito, Síria e Líbano, em função da crise no Oriente Médio, Em menor escala, vieram também alguns húngaros.

Em traços gerais, essas são as origens daqueles que foram a comunidade judaica carioca, que se compõe basicamente de dois grupos: os judeus sefaradim (oriundos dos países árabes e da Península Ibérica) e os judeus ashkenazim (da Europa Central e do Leste). Esta divisão, porém, não caracteriza suficientemente a diversidade intrínseca deste grupo, marcado pela pluralidade de costumes, língua e culturas. À riqueza das diferenças, contrapõe-se a unidade em torno das crenças fundamentais, do calendário festivo e dos ritos de passagem.

Este site é resultado do material presente no livro Heranças e Lembranças. Tal material foi coletado no contato direto com o imigrante, privilegiando o período ligado às suas origens. Suas narrativas, constituídas de palavras, fotografias e objetos que trouxeram consigo, representam a última possibilidade de conhecer diretamente a experiência coletiva de indivíduos que, neste século, iniciaram no Brasil uma nova existência.
Durante três anos a equipe do projeto Heranças e Lembranças pesquisou, através de depoimentos orais e documentação e de objetos de cunho judaico, a imigração de judeus para o Rio de Janeiro.

No setor de história oral, foram entrevistadas 90 pessoas e catalogadas cerca de 600 fotografias e documentos - alguns disponíveis neste site. A lista dos entrevistados resultou de um levantamento geral feito em inúmeras instituições judaicas (sinagogas, bibliotecas e clubes) da cidade. Ao selecionar os entrevistados a partir de uma relação de 200 nomes, procurou-se abranger a diversidade de origens e levas imigratórias. A partir da coleta desses depoimentos, foi organizado um arquivo de memória com 200 horas de gravação, e mais de 6 mil páginas manuscritas, indexadas e catalogadas. Todas as fotos e documentos foram identificados e classificados.

Deste material foram editados para o livro - e estão agora no site - alguns depoimentos que, no seu conjunto, formam uma narrativa única e de múltiplas visões. Houve um especial cuidado, na edição, em respeitar o ritmo e a visão pessoal de cada narrador. A seleção de fotos e documentos evidencia as diferenças e as semelhanças - ambas formando o traço de união do grupo.

As palavras estrangeiras poderão ser consultadas no glossário, auxiliar importante para a compreensão dos termos oriundos dos vinte e dois países que constituíram o universo dessa pesquisa.

Finalizando, quero registrar um fator que acompanhou todas as fases desse trabalho e deixou sua marca em todos que nele se envolveram: a emoção.

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