Histórias inéditas
Para recontar a história de Vladimir Herzog,
o Museu da Pessoa e o Observatório da Imprensa coletaram
depoimentos inéditos de jornalistas que estiveram envolvidos
com o acontecimento. Para conferir suas histórias, clique
sobre o nome.
Alberto Dines
"Aí, logo no início de outubro de 75, recebo
um telefonema de amigos cariocas, ligados ao partidão me
dizendo: -Olha, o Herzog, o Vladimir Herzog tá sendo citado
com freqüência, também o Zé Mindlin (que
era Secretário da Cultura) e queria ver se você dava
uma nota aí na Folha, pra ver se esse negócio acaba,
é muito perigoso, extremamente perigoso. - Deixa comigo."
Audálio
Dantas "Os militares exibiram as fotos do Vlado morto,
cadáver, já com sinais da autópsia, aquela
foto que se tornou um símbolo do Vlado enforcado, com as
pernas dobradas. Naquele momento foi um choque muito grande ver
essas fotos e ao mesmo tempo reforçou nossa convicção
de que não tinha sido um suicídio. E o general Ferreira
Marques, que era um homem muito nervoso, um homem neurastênico
mesmo, disse: -Aí estão as provas! Estão as
provas!. Que provas? Pra nós, não era."
José
Vidal Pola Galé "Minha prisão deve-se mais
à atividade na universidade do que no meio jornalístico.
Era 75, eu tava no terceiro ano da ECA. Fiquei numa cela com outros
dois jornalistas, o Frederico Pessoa e o Luiz Paulo. Eu me lembro
que o Luiz Paulo tinha um problema na coluna, ele levou tanta pancada
que ele ficou inerte no chão. Então ele precisava
ser ajudado com tudo. E a gente ficava conversando baixinho, porque
se subisse um pouco a voz eles iam lá e reprimiam. Eram dias
intermináveis."
Luiz Weis
"Me lembro que no meio da noite, de sábado pra domingo,
eu tava com tranqüilizantes, mas eu ouvi tocando a campainha,
gente chegando, falei: -Pô, me acharam aqui... dane-se. Eu
sei que apaguei na hora. De manhã, quando eu acordo, tinha
um meu amigo lá, um publicitário, ele olha pra mim:
-Weis, você vai ter que ser muito forte agora... Mataram
o Vlado."
Rodolfo Konder
"Nós ficamos ali algum tempo e o Marechal foi nos chamar,
eu e o Duque Estrada. O torturador disse: -Olha, o Vladimir tá
aí com embromação, então é melhor
vocês dizerem pra ele abrir o jogo. Se não, ele vai
entrar na porrada. E nós: - Olha, Vlado, eles já sabem
que nós tínhamos uma base, quem eram os membros da
base, já estão sabendo. Eu até acrescentei,
achando que eu era esperto: - Olha, Vlado, eles sabem, inclusive,
que o responsável pela nossa base era o Miguel Urbano Rodrigues,
que o Miguel já tinha ido embora pra Portugal. E o Vlado
disse assim: -Eu não sei do que vocês estão
falando, eu nunca fui comunista, não sou comunista!"
No Observatório da Imprensa
O Observatório da Imprensa fez uma grande edição dos depoimentos coletados, num especial denominado: "Vlado, a memória necessária". Trata-se de um trabalho de recuperação histórica, buscando entender como a morte de Vladimir Herzog, teoricamente distante, ainda se encontra tão próxima de nós por suas consequências e repercussões.
As histórias foram publicadas em artigos diferentes, citados abaixo. Para lê-los, clique sobre seu título.
Introdução - A escola, o jornal - A militância política "
Nesta página e nas seguintes está contada uma história – trinta anos passados – que pode bem ajudar na compreensão do movimento havido em direção a este presente pós-mensalão. São memórias montadas a partir da transcrição de depoimentos de jornalistas que viveram, cada qual à sua maneira, todas elas dramáticas, os dias de medo e da morte de Vladimir Herzog. "
O sindicato, a represssão "Ele [Vlado] ia ao sindicato. O Vlado era uma pessoa, digamos, recolhida, ele não era muito de se expor. Era um sujeito tímido, arredio. Claro que ele apoiou e participou, mas ele aparecia lá principalmente em função da amizade que ele tinha com o Fernando Pacheco Jordão, que trabalhou com ele na BBC de Londres. Eram muito amigos, compadres, ele era padrinho de um dos filhos do Fernando, e o Fernando do filho dele, essas coisas." (Audálio Dantas)
Dias de tortura e morte "
E a outra caça começou contra o jornalismo da TV Cultura, com o pústula do Cláudio Marques escrevendo no Shopping News , e aquele outro pústula, o deputado Wadih Helou, da Assembléia Legislativa, da Arena [ Aliança Renovadora Nacional, partido de apoio à ditadura ]. Enfim, denunciavam que aquele era um ninho de comunistas, porque tinham passado um documentário sobre o Vietnã." (Luiz Weis)
Enterro de um 'suicida' "
Nós não estávamos sabendo de nada a essa altura, aí nos tiraram da sala de espera e nos levaram para o andar de cima, supostamente para reconhecer fotos. Nós não entendemos bem o motivo, mas ficou claro depois: o Vlado já tinha morrido e eles precisavam retirar o cadáver daquela sala e tinham que passar pela sala de espera e em que nós estávamos. Mesmo com o capuz você sempre vê alguma coisa e eles não queriam correr esse risco. Voltamos para sala de espera, mas o cadáver já não estava mais lá. Passamos a noite ali, que não tinha vaga nas celas ainda." (Rodolfo Konder)
A mobilização do sindicato "Aí começaram a chegar jornalistas ao sindicato. Eu fui à casa da Clarice [ Herzog ] e à casa do Fernando [ Pacheco ] Jordão e começamos a discutir várias providências, inclusive a nota sobre o caso, o assassinato, já absolutamente não aceitando a versão do suicídio que tinha sido divulgada no comunicado do 2º Exército e que foi distribuído no domingo também. Nós não aceitamos desde o início, mas tomamos as cautelas necessárias para que... Nós percebemos, e isso é um fato importante e fundamental, que devíamos preservar o sindicato como vetor daquele movimento que estava nascendo. E dizíamos que não aceitávamos a versão do suicídio nessa nota, mas dizíamos que a autoridade era responsável por ela, porque tinha sob a sua guarda o preso Vladimir Herzog." (Audálio Dantas)
O culto ecumênico "
Foi em seguida, logo depois do culto ecumênico do Herzog, que a Folha deu um passo à frente do processo e começou a ter sua voz própria, a voz do jornal, a opinião do jornal: começou os editoriais. A Folha teve um papel muito importante, porque era um jornal de São Paulo. A imprensa do Rio estava muito distante disso, distante nos dois sentidos: distante sob o ponto de vista geográfico, e distante também porque a imprensa no Rio naquele momento estava muito próxima dos órgãos de segurança e não ousava confrontar o sistema. A imprensa de São Paulo agarrou esse fato com muito mais força e criou uma grande comoção." (Alberto Dines)
O jornalismo, 30 anos depois "
Eu sempre procuro trabalhar para que aquilo que eu boto no ar, lá na televisão, seja útil para quem vê, seja útil para despertar a consciência, o espírito de solidariedade, a consciência crítica e a participação. Eu sempre tenho a preocupação de colocar no ar uma coisa conseqüente. E me dá uma satisfação quando eu consigo fazer isso. Meu sonho é que isso continue e vai continuar. Tem gente nova entrando no mercado profissional que também tem essa preocupação." (José Vidal Pola Galé)
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