Histórias inéditas | Rodolfo Konder

Rodolfo Konder é jornalista, nasceu em 1938, em Natal (RN), mas foi criado no Rio de Janeiro (RJ), onde ficou até o decreto do AI-5. Conheceu Herzog em 1971, quando trabalhou na revista Visão.

"Na manhã do dia 25, eu vi que Vlado chegou. Eu olhava assim por baixo do capuz e o identifiquei pelos sapatos que eu conhecia bem. Comprávamos sapatos juntos, ele era muito meu amigo, então eu sabia que era ele que estava ali. Logo depois ele foi levado. Ele ficou na sala ao lado da nossa, por isso depois eu pude ouvir os gritos.

Nós ficamos ali algum tempo e o Marechal foi nos chamar, eu e o Duque Estrada. O sujeito que o estava interrogando, o torturador, era o Pedro Mira Grancieri, um sargento da Marinha que depois morreu de maneira estranha, deve ter sido queima de arquivo. E ele disse: -Olha, o Vladimir tá aí com embromação, então é melhor vocês dizerem pra ele abrir o jogo. Se não, ele vai entrar na porrada. E nós: - Olha, Vlado, eles já sabem que nós tínhamos uma base, quem eram os membros da base, já estão sabendo. Eu até acrescentei, achando que eu era esperto: - Olha, Vlado, eles sabem, inclusive, que o responsável pela nossa base era o Miguel Urbano Rodrigues, que o Miguel já tinha ido embora pra Portugal. E o Vlado disse assim: - Eu não sei do que vocês estão falando, eu nunca fui comunista, não sou comunista!

Aí o sujeito mandou o Marechal nos levar de volta pra sala de espera. Passou-se mais algum tempo e ele começou a gritar. A gritar primeiro, levando porradas, socos e aquela coisa e depois levando choques elétricos. Os gritos são bem diferentes. Eu tinha passado na véspera pela experiência, sabia exatamente o que tava acontecendo. Inclusive um sujeito ligou um rádio no corredor, supostamente pra abafar o barulho, e o rádio tava dando a notícia de que o general Franco tinha recebido a extrema-unção. Aí, tudo cessou: os barulhos, os gritos.

Algum tempo depois, veio o Marechal e me pegou de novo, o Duque Estrada dessa vez não foi. O Vlado já estava assinando uma confissão do próprio punho, estava muito nervoso, trêmulo, mas já tava fazendo a sua confissão, que aliás começava assim "Fui aliciado pelo partido comunista pelo Rodolfo Konder". Quer dizer, uma confissão que a polícia  ditou ali pra ele, porque nenhum de nós usaria essa expressão "Fui aliciado". Aí o Marechal me levou de volta pra sala de espera e, aparentemente, estava tudo resolvido.

Só que, é claro, na hora de assinar a confissão, ele teve um momento de indignação. Ele era uma pessoa muito ética. E é um momento difícil, você entregar o papel em que você dá o nome de amigos. É muito chato, é um trauma, é um negócio difícil. E ele teve um momento de indignação e pegou o papel - ele já tinha escrito, já tinha assinado. Inclusive o exame da letra confirmava, era a letra dele. Ele pegou o papel e rasgou e jogou fora. Aí os caras foram pra cima dele, não mais com técnica, mas com raiva, porque era voltar tudo à estaca zero. E aí ele foi empurrado e bateu com a base da cabeça no parapeito de uma janela baixa que tinha lá de mármore e morreu do trauma."

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