Histórias inéditas | Luiz Weis

Luiz Weis nasceu em São Paulo, filho de imigrantes poloneses. Formou-se em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo e logo começou a atuar como jornalista. Estudou e trabalhou com Herzog, inclusive na TV Cultura, seu último emprego.

"Aí eu pedi emprego na Veja. O chefe de reportagem era o Paulo Totti, um sujeito formidável, falou com o Mino Carta, que era o diretor e fui trabalhar na editoria de política. E eu estava lá à noite, quando vieram pegar o Vlado na TV Cultura. Na mesma noite, por sorte eu tava no fechamento, aqueles fechamentos horrorosos da Veja, que terminavam quatro, cinco da manhã. Aí, toca o meu telefone. Eu já sabia que o Vlado tinha sido procurado na TV Cultura e que tinham feito um acerto pra que ele se apresentasse na manhã seguinte, 25 de outubro, no sábado.

E na sexta-feira de madrugada, to lá trabalhando, a empregada me liga e diz: -Olha, vieram umas pessoas aqui, disseram que acharam seus documentos, perguntaram pelo senhor. Falei: -Tudo bem, faz uma coisa, você é de Minas, né? Então vai embora, vai ver sua família, tira uma semana. E aí, bom, eu voltei pra casa acompanhado pelas pessoas, mas só para trocar de roupa.

Naquela época já tinham sido presos todos os meus amigos,  o Markun, o Jorge Duque Estrada, o Antony de Cristo, o Rodolfo Konder, enfim, todos jornalistas que formavam uma base do Partido, cuja importância era dar lugar à esquerda. Nós nos limitávamos a receber a Voz Operária, conversar um pouco e tocar a vida.

Eu morava na Rua Ministro Rocha Azevedo, morava numa vila, entre a Oscar Freire e a Lorena, do lado esquerdo de quem sobe. Essa vila existe até hoje, ao lado do que é o supermercado Pão de Açúcar. Eu não fiquei lá, peguei minhas coisas e fui pra casa de um amigo.

Me lembro que no meio da noite, de sábado pra domingo, eu tava com tranqüilizantes, mas eu ouvi tocando a campainha, gente chegando, falei: -Pô, me acharam aqui... dane-se. Eu sei que apaguei na hora. De manhã, quando eu acordo, tinha um meu amigo lá, um publicitário, ele olha pra mim: -Weis, você vai ter que ser muito forte agora...  Mataram o Vlado.

Aquele barulho todo de madrugada era gente que tinha vindo contar. A partir daí, acho desnecessário falar das emoções. É um tanto quanto óbvio como você fica. Você fica aterrorizado pelo que possa acontecer contigo. Você fica absolutamente querendo comer o fígado de todo mundo. Você pensa no teu melhor amigo, no André, na Clarice que foi tua colega de classe e a quem você apresentou pro Vlado. É o dia mais trágico da minha vida."

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