Eu na verdade estou em São Paulo, agora está
fazendo 40 anos. Dia 15 de novembro, fez 40 anos que
eu estou em São Paulo. Eu e meu marido, com
duas crianças viemos pra cá. Em 1960.
E o terceiro nasceu aqui, que é a Zilda. Cheguei
numa casa que o Moisés tinha alugado que era
um sobrado na Vila Mariana, no fundo de uma rua lá
embaixo. Hoje em dia aquilo foi urbanizado, está
lindo de morrer. E ainda descia mais um monte de escadas
para ir para o quintal.
A imagem que eu tive da cidade
foi quando eu cheguei de trem, (naquele trem que
tinha até bem pouco tempo e que era chamado
de prata) com duas crianças pequenininhas.
Eu não queria vir. Nunca tinha vindo para
cá. Eu chorava, eu andava pelas ruas chorando:
"Quero minha mãe." Eu não
sabia nem se era só minha mãe que
eu queria. Eu queria tudo de lá do Rio. Eu
vim pra cá com um menino de um ano e quatro
meses e outro de dois meses, três meses. Foi
muito difícil. Muito difícil. Eu andava
pelas ruas e
chorava dia e noite.
Com duas crianças
pequenas, fraldas. As fraldas não eram descartáveis.
Sem telefone. Não tinha carro. Que carro!!
Gente, que difícil que foi aqui. Minha sogra
veio comigo e nós moramos juntas durante
23 anos.
E foi muito difícil.
Quando eu vim para São
Paulo, meus pais continuaram morando no Rio. E eu
fui muito ao Rio. Senti muito a separação
deles. Foi horrível. E a minha mãe
que era toda fortona dizia assim: "Minha filha,
para de chorar. Mulher tem que ir atrás do
marido. Que história é essa de ficar
chorando por causa da mãe e do pai. Para
de chorar!" - Era muito dura. Minha mãe
era muito dura. As mães eram duras naquele
tempo.
Meu pai ficou doente muitos
anos antes de morrer, ficou fora do ar. Foi muito
difícil. Esse negócio de morar longe
é muito ruim, para você dar assistência
para os seus pais. Você não dá
direito. Minha mãe era muito auto-suficiente,
não se deixava cuidar. Mas isso tudo foi
rápido. De repente, eu já estou no
lugar da minha mãe. Você está
lidando com os pais velhos, de repente a
velha é você.
Eu vim morar naquele
lugar, ao lado de um buracão e veio uma vizinha,
bateu palmas e disse assim: "Olha, o meu nome
é Mariana, eu tenho três filhos. Você
tem duas crianças pequenas. Se você
precisar de alguma coisa, uma farmácia, o
meu filho vai buscar de bicicleta num minuto. Se
você quiser uma comida, uma coisa no armazém...
Você fique sossegada que você não
está sozinha". E isso pra mim é
a imagem da cidade. Quando o pessoal diz: "Ah,
paulista é seco, paulista é frio."
Paulista não é nada disso. É
gente. É gente boa. Essa vizinha foi maravilhosa
comigo. Maravilhosa. E os outros vizinhos da rua
também. Foi muito bom
Fany
Kessel