|
|
|
||||||||||||||||||||||||
| Home> Histórias> Ontem e Hoje | ||||||||||||||||||||||||||
|
08.12.2006 A GUERRA NA BARRA DE GUARATIBA Um dos pontos conhecidos da gastronomia carioca teve sua origem remota nos ataques de submarinos alemães contra navios brasileiros durante a Segunda Guerra Mundial. A mãe de Palmira de Souza Leal, Palmyra, preparou refeições para soldados de um dos postos de observação montados na costa do Rio de Janeiro. Cerca de três décadas depois, Palmira, a filha, começou a servir comida simples para jovens surfistas famintos que muitas vezes deixavam a conta pendurada. Daí nasceu o Tia Palmira, restaurante de peixes e frutos do mar situado na Barra de Guaratiba, no extremo sul do território carioca. Hoje, funciona na Restinga da Marambaia o Centro de Avaliações do Exército, encarregado de avaliar materiais de emprego militar. Mas homens fardados haviam feito incursões por lá durante a Segunda Guerra. Em dezembro de 1941, o Japão, um dos países do Eixo – originalmente, uma aliança fascista da Alemanha de Adolf Hitler com a Itália de Benito Mussolini –, atacou a base naval americana de Pearl Harbour, no Havaí. Isso fez os Estados Unidos se decidirem a entrar na guerra, iniciada em setembro de 1939 com a invasão da Polônia pelo exército nazista. O governo de Franklin Roosevelt fez pressão para obter o apoio dos países americanos. Em janeiro de 1942, o Brasil aceitou romper relações com o Eixo. Em represália, submarinos alemães passaram a bombardear navios mercantes brasileiros. Estabeleceu-se na costa do país um sistema de vigilância anti-submarinos. Um posto de observação foi montado na Pedra de Guaratiba. Para o capitão Francisco José Corrêa Martins, chefe da Divisão de História do Arquivo Histórico do Exército, vigiar submarinos nessa altura da costa brasileira era “paranóia”. A palavra é forte, mas existe uma explicação: os ataques alemães ocorreram muito mais do litoral da Bahia para cima do que para baixo. O capitão Corrêa me disse isso em duas entrevistas telefônicas, feitas em agosto e novembro de 2006. Ele oferece explicações técnicas para essa preferência. Primeira, a distância marítima entre bases européias e a região entre o Saliente Nordestino e a Bahia era menor; ir até o Rio de Janeiro, ou mais ao sul, gastaria mais tempo. Segunda, os alemães buscam afundar os navios que participam do esforço de guerra, fossem navios com tropas, fossem navios com civis e com cargas. Entre 1942 e o fim da guerra, em 1945, foram bombardeadas 35 embarcações do Brasil, das quais 26 na costa brasileira e do Caribe. Estima-se que tenham morrido “845 pessoas, entre tripulantes, militares e civis, incluindo mulheres e crianças” Uma comparação inevitável é com o número de militares brasileiros mortos em combate contra a Alemanha. A mesma edição de Aventuras na História diz que houve 465 mortos, “número oficial computado entre soldados, oficiais e aviadores brasileiros na Itália. Mais de 2 mil foram feridos e muitos morreriam depois de voltarem para o Brasil”. As agressões alemãs iniciadas em 1942 foram chocantes também porque não houve tiros de advertência, que permitiriam uma tentativa de deixar o navio. Foram tiros sucessivos. (Não são freqüentes os registros de comportamento nobre, ou simplesmente decente, das forças armadas nazistas. E quanto mais se lê sobre o assunto mais se tem uma idéia do ponto a que pode chegar a barbárie.) Os episódios provocaram protestos com forte participação estudantil, em plena ditadura do Estado Novo, e fizeram Getúlio Vargas colocar o Brasil na guerra contra o Eixo, junto com os Aliados. Voltemos à gênese do restaurante. O capitão Corrêa, do Arquivo Histórico do Exército, explica que o comandante do posto de observação da Barra de Guaratiba não tinha como montar uma cozinha, mas gozava de autonomia financeira para comprar comida. Teria sido impossível mandar diariamente um veículo buscar o rancho para os soldados. A Barra de Guaratiba era tão longe da parte urbanizada da cidade que o pai de Palmira, Álvaro Ribeiro de Souza, gastava um dia inteiro para ir e voltar da Praça XV, no Centro, passando por Campo Grande, na Zona Oeste, onde pegava um trem. Viagem feita de seis em seis meses para renovar sua carteira profissional e as de outros pescadores sob sua responsabilidade. No depoimento de Palmira ao Museu da Pessoa, dado em 2003, esse primeiro momento de “cozinhar para fora” – não ela, mas sua mãe, Palmyra Teixeira Ribeiro de Souza – é referido assim (trecho editado): “Chegaram os militares na década de 1940, em 1941, porque era área de segurança nacional, ali era muito visado. É mar aberto. Ali, para o lado esquerdo nós temos o Japão. [....] Na época da guerra havia postos militares em diversos pontos estratégicos e um posto ficou lá no terreno da casa de mamãe. Ficou um posto militar ali, ficou um telégrafo. Mamãe cozinhava para os militares”. Leia
aqui o depoimento de Palmira de Souza Leal. Envie seu comentário: portal@museudapessoa.net |
|||||||||||||||||||||||||
![]() |
Mauro Malin participou da fundação do Museu da Pessoa. É jornalista desde 1966. Formou-se em História em 1979. É supervisor editorial do Portal Museu da Pessoa. | |||||||||||||||||||||||||
|
Rua Natingui, 1100 • São Paulo, SP fone: +55 11 2144-7150 • fax: +55 11 2144-7151 portal@museudapessoa.net |