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15.12.2006
MEMÓRIA E EMOÇÃO
O professor Ivan Izquierdo, da PUC do Rio Grande do Sul, diz que a memória fixa melhor emoções do que fatos. Fatos aos quais estão associadas emoções provocam uma impressão mais profunda e duradoura. É o que me ficou na memória de uma entrevista ouvida no rádio. O leitor curioso encontrará no Google muito material sobre o trabalho do professor. Encontrará, por exemplo, a entrevista intitulada “A Memória”.
Atestar cientificamente a hipótese está fora do meu alcance. Mas empiricamente posso reunir exemplos tirados de depoimentos dados por colaboradoras da Natura ao Museu da Pessoa. Por certo não emocionam igualmente todos os leitores. Isso depende da sensibilidade e do momento de vida de cada um. Já chego lá. Antes, preciso dar uma explicação.
Tenho feito uma leitura crítica da transcrição e da edição de depoimentos de diferentes projetos do Museu com o objetivo de sugerir padrões que garantam ao mesmo tempo, tanto quanto possível, a fidelidade ao que foi dito pelo depoente e a recepção do texto.
A escuta da fala coloquial é tolerante com redundâncias, ênfases, pleonasmos, hesitações, repetições, expressões usadas para ganhar tempo enquanto se pensa. O ouvinte seleciona automaticamente o que lhe interessa reter. Mas o leitor tende a ser pouco tolerante, porque está diante de signos indeléveis. Aplica-se o Verba volant, scripta manent, conhecido provérbio em latim. “As palavras voam, a escrita fica”, na tradução de Paulo Rónai (Não Perca O Seu Latim).
Toda impureza da fala, caso não seja filtrada, se transforma em obstáculo a uma boa leitura. O filtro é subjetivo. Para algumas finalidades técnicas muito específicas, é indesejável (recorre-se então ao áudio, ou, quando houver, ao vídeo). Mas é altamente desejável quando se quer que o maior número possível de pessoas tenham acesso ao maior número possível de histórias, e, melhor ainda, sintam-se encorajadas a contar suas próprias histórias.
Se muita gente o fizer, estará criado um problema de grandes proporções, porque é necessário um gigantesco tempo de trabalho para tratar depoimentos. Mas é um bom problema. O pior problema seria o silêncio, a ausência de vozes, o ensimesmamento, o desinteresse em compartilhar.
Editar não consiste apenas, necessariamente, em tratar o texto como uma seqüência contínua. Consiste também, e isso é cada vez mais patente em jornais e revistas, que agora competem com a internet, em criar “iscas”, destaques capazes de atrair o leitor.
Volto ao tema da emoção, anunciado no primeiro parágrafo. Dou dois exemplos tirados de depoimentos do projeto Memória das Comunidades Natura. Um é de Dolores Aniceto Testai, Lola, Lolita, nascida em 1935, Consultora da Natura desde 1995.
Dolores diz que em 1950 morava com a mãe, Francisca Nievas Aguelar, na Vila Piauí, bairro que fica no distrito de Jaguara, colado em Osasco, fronteira oeste da cidade de São Paulo. Seu namorado, César Testai, morava em Guarulhos, a leste da cidade. Muito longe. A futura sogra convidou-a: “Por que você não vem morar aqui comigo? Vamos, você dorme comigo, no meu quarto”. A mãe concordou e Lola foi. E conta:
“Eu é que fazia comida para eles, porque eles tinham olaria e minha sogra ia para lá bater tijolo. Lavava a roupa deles todos. Eles me querem como se eu fosse irmã deles e eu não os considero cunhados, eles são como meus irmãos - os que eu não tive pelos meus pais, eu tive nos meus cunhados, nas minhas cunhadas”.
Fabíola Assunta dos Santos, também Consultora, nascida em 1964, narra episódio que combina solidariedade com trabalho. Renata, filha de um amigo de Fabíola e de seu marido, João, estava com leucemia. A operação custaria 60 mil ou 70 mil dólares. João trabalhava na Ford, em São Bernardo do Campo. Ele já havia tentado vender lá produtos da Natura, mas era proibido. Cosméticos eram considerados produtos perecíveis. Poderiam causar alergia a funcionários.
Diante da situação da menina, a Ford concordou com a montagem de um posto de vendas. Nessa época a fábrica tinha, segundo Fabíola, de 12 mil a 15 mil empregados, com padrão salarial médio elevado.
Ela descreve como foram as vendas:
“Nós daríamos entre 25% e 30% de doação e 5% de desconto para o funcionário, e nós empataríamos no zero a zero. Na pior das hipóteses seria uma aventura (....) Ninguém quis dinheiro, mesmo porque nós não sabíamos se ia sobrar dinheiro. E de repente sobrou na minha mão. Eu fui no shopping, comprei sapato, bolsa, roupa, para todas as meninas que trabalharam conosco; aquelas coisas de sair cheia de sacolas, uma delícia. Fui no banco e comprei mil dólares em traveller-checks”.
E o resultado humano:
“A Renata fez a operação no Sírio-Libanês. (....) Ela ficou superbem. Também teve a mão de Deus no meio, porque era impossível ter as funções dela como mulher, pela quimioterapia, e no entanto ela superou na adolescência, ficou mocinha, hoje é mãe”.
São passagens que, entre tantas outras, me ficaram na memória mesmo longo tempo depois da leitura dos depoimentos.
Clique aqui para ler o depoimento de Dolores Testai.
Clique aqui para ler o depoimento de Fabíola Assunta dos Santos.
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