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por Mauro Malin

 

 



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22.12.2006

HÁ 40 ANOS NA MARÉ

Toda vez que a Linha Vermelha é palco de tiroteios – e isso é cada vez mais freqüente –, a paisagem da Maré entra no noticiário. A Maré é uma favela do Rio de Janeiro que tem a peculiaridade de ser vista do alto por quem usa a Linha Vermelha, via expressa de tráfego intenso.

É um lugar para lá de sofrido. No I Fórum Brasil Memória em Rede, realizado no início de dezembro, o historiador Antônio Carlos Pinto Vieira fez uma apresentação sobre o Museu da Maré, onde trabalha. Relatou que os moradores se sentiram agredidos quando, em 1994, a área foi transformada em bairro inteiramente constituído por favelas e conjuntos habitacionais. Partes que antes pertenciam a Manguinhos, Bonsucesso e Ramos, por exemplo, agora integram o “bairro da Maré”. Bairro que o Guia Quatro Rodas de Ruas do Rio de Janeiro (2006), por exemplo, desconhece.

Antônio Carlos falou também da recuperação da memória das lutas dos antigos moradores da Maré, promovida pelo Museu, onde foi construída uma réplica de palafita. Na minha memória, as palafitas ficaram como sinônimo de miséria. Já conto por quê.

Luís Antônio de Oliveira, também historiador e outro dos coordenadores do Museu da Maré, explica que “diante da intervenção do poder público, entre 1980 e 1982, houve resistência dos moradores, porque não se tinha clareza da dimensão dessa intervenção, e também porque não se sabia quantos moradores em casas de alvenaria, da parte seca, seriam atingidos”.

Oliveira diz que os moradores das palafitas queriam água tratada, saneamento, casas sólidas. Mas as habitações construídas para os removidos eram pequenas e quentes. Um dos conjuntos – onde as casas tinham cores diferentes – ficou conhecido como Inferno Colorido.

Foi o Projeto Rio, no último governo da ditadura militar, o do general João Batista Figueiredo. Um dos novos conjuntos se chamou, bajulatoriamente, Vila do João. Essa e outras histórias estão contadas no site do Ceasm (Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré).

Agora conto eu a minha história.

Em 1966 minha turma na Faculdade de Arquitetura da UFRJ, na Ilha do Fundão, estava no primeiro ano do curso. Uma de nossas atividades escolares foi visitar a vizinha Favela da Maré para fazer um trabalho de planejamento urbano. Provavelmente ligado a um dos projetos de aterro e urbanização que já existiam na época.

A impressão que nos ficou da visita foi dolorosa. Eu conversei com uma mulher que me apontou uma falha grande entre as tábuas do assoalho da palafita e disse: “Perdi uma criança ali. O menino caiu e se afogou”. Uma de minhas colegas, Viviane Perrone, relata que, para não ofender uma mulher que a atendeu, aceitou um copo de água e pegou hepatite.

Sheila Pereira também se lembra da nossa visita à Maré. Mas a lembrança que lhe ficou foi de uma escola próxima:

“Eu era professora primária, na época, e tinha vários aluninhos de lá (1ª série, Escola Ten. Antônio João, Ilha do Fundão).

Um dia, ao chegar nessa escolinha para dar aula, meus alunos correram para mim dizendo que a mãe do Severino tinha morrido atropelada na Avenida Brasil naquela manhã. Surpresa minha quando vi o Severino, de 7 anos, magrinho, de sandálias havaianas azuis e uniforme surrado, com a barriga de vermes aparecendo, sentado no degrau do pátio, como se não tivesse acontecido nada, talvez contente por ser o alvo das atenções.

Perguntei-lhe por que tinha vindo à escola, então. Ao que respondeu: ´Vim para almoçar´. Naquele tempo a escola pública oferecia, como merenda, um prato fundo de arroz, feijão, carne e legumes cozidos, com sobremesa de goiabada ou doce de banana.

Hoje em dia o Severino deve estar com 47 anos. Ele tinha muitos irmãos e morava na Maré”.

Visões e memórias diferentes. De quem passa pela favela, de quem vive lá, de quem a visita. Todas necessárias para manter uma grande conversa sem a qual a cidade não superará seus abismos.

* * *

Reminiscências de uma favela carioca estão no depoimento ao Museu da Pessoa de Irany Damasceno, antigo morador da Praia do Pinto, incendiada para dar lugar ao conjunto de prédios chamado Selva de Pedra, no Leblon. Muitas famílias que foram engrossar o contingente da Maré saíram da Praia do Pinto e de outras favelas eliminadas da Zona Sul do Rio. Irany não foi. Escapou da remoção porque seu pai tinha comprado um apartamento na Cruzada São Sebastião, do outro lado da rua.

Clique aqui para ler o depoimento de Irany Damasceno.


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Mauro Malin participou da fundação do Museu da Pessoa. É jornalista desde 1966. Formou-se em História em 1979. É supervisor editorial do Portal Museu da Pessoa.
   
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