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por Mauro Malin

 

 



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29.12.2006

TRANSIÇÕES TECNOLÓGICAS

Cada vez menos gente se lembra da maneira como eram feitas as ligações telefônicas interurbanas no Brasil até a década de 1960. Pudera. A geração que foi testemunha disso já anda na casa dos 50, 60 anos de idade.

Cada pessoa dependia de uma telefonista: na cidade de origem e na cidade à qual se destinava a chamada. Como havia mais chamadas do que linhas e telefonistas, o tempo de espera era longo.

Antônio Carlos de Oliveira se lembra da demora entre Uberlândia e São Paulo na década de 1970, antes de começar a funcionar o sistema de DDD e DDI: mais ou menos seis horas.

Antônio Carlos trabalhou com tecnologia de telecomunicações na CTBC (Companhia de Telefones do Brasil Central) durante mais de vinte anos. Em seu depoimento ao Museu da Pessoa, dado em março de 2001, ele descreve a passagem do sistema antigo de ligações interurbanas para o que chamou de ligação semi-automática, que era o DDO (Discagem Direta Operadora)/ODD (Operadora Discagem Direta), depois para a Discagem Direta a Distância:

Nessa época, a demora mínima para falar de Uberlândia a São Paulo era de seis horas, isso quando se realizava ”.

Então veio o que ele chama de “ligação semi-automática”:

A operadora discava direto de Ribeirão Preto para São Paulo. De Ribeirão também para Uberlândia, e esse foi praticamente o início do DDD hoje existente; o pré-DDD. De um lado a operadora acessava direto uma Central. E vice-versa. Do outro lado, a operadora acessava a Central dessa estação de cá. Sempre com a intervenção da telefonista. Em um período de tempo bem menor ”.

Antônio Carlos fala de um momento que a empresa ainda sonhava em ampliar seu circuito de linhas físicas, mas a transmissão por satélite já havia se iniciado no Brasil. E faz um comentário que serviria para dar mais juízo a muito administrador de empresas:

A linha física foi ficando para trás, mas continuou operando durante um longo tempo ainda. Porque não tinha sentido desativar uma estrutura dessa, que tinha uma certa qualidade e estava prestando um serviço ”.

(Clique aqui para ler o depoimento inteiro.)

Em maio de 2006 o patriarca da Folha de S. Paulo , Octavio Frias de Oliveira, aos 94 anos de idade, foi homenageado com o prêmio Personalidade da Comunicação daquele ano. Os organizadores da premiação passaram um vídeo sobre a trajetória de Frias. Como era de se prever, apareceram fotos da fachada do prédio do jornal, na Alameda Barão de Limeira. É o mesmo há décadas. A Folha permanece nas mãos da família Frias, enquanto a família Mesquita, do Estado de S. Paulo, que inaugurou em 1976 um prédio gigante na Marginal do Tietê, chegou a ser afastada recentemente da gestão do Grupo Estado, devido a dificuldades financeiras.

No Rio de Janeiro, O Globo permaneceu na Rua Irineu Marinho e O Dia ficou na Rua do Riachuelo. Com altos e baixos, passam bem, enquanto concorrentes deles construíam novos e suntuosos prédios hoje abandonados, porque as empresas ou estão cambaleantes, como o Jornal do Brasil , ou naufragaram, como a Editora Bloch, que publicava a revista Manchete e operava a Rede Manchete de televisão.

A causa de uma derrocada empresarial dificilmente pode ser atribuída a um único fator, mas faz todo o sentido o conceito de que um equipamento ou um sistema deve ser usado enquanto presta bons serviços. As transições tecnológicas, sempre saudadas com alarde, têm preço: em investimentos feitos, em aprendizado, principalmente em pessoas cujas funções se tornam desnecessárias.


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Mauro Malin participou da fundação do Museu da Pessoa. É jornalista desde 1966. Formou-se em História em 1979. É supervisor editorial do Portal Museu da Pessoa.
   
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