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por Mauro Malin

 

 



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05.01.2007

SEDUÇÕES DA FEIRA

Descem juntas a ladeira, em meio às barracas da feira, duas empregadas domésticas em roupa de passeio. Uma grande, mais de metro e oitenta, outra miúda. Inevitável: um dos feirantes diz qualquer pilhéria apimentada – e um tanto agressiva – para a grandona, que tem formas redondas. A resposta vem de bate-pronto. Mas, como as duas não param de descer a rua, é o feirante da barraca seguinte que recebe o troco e se faz de ofendido. “Não foi para você, foi para o outro”, esclarece a baixinha, como se fosse porta-voz da grande. Não é, mas como segue atrás, e o comboio não pára, sente-se na obrigação de falar.

Tudo na base do bom humor. A feira quase sempre tem um ar alegre, ainda que às vezes seja pintada com tintas algo melancólicas, como numa crônica de Rubem Braga chamada “A Feira”, de agosto de 1953. A ele a feira não incomodava (sabemos que morava no início de Ipanema, no Rio de Janeiro), mas, imagina, devia incomodar o poeta Carlos Drummond de Andrade (morador no final de Copacabana, onde fica até hoje a feira). Braga atribui a Drummond a tarefa de ouvir “exclamações patéticas”, como “os tomates estão pela hora da morte”.

E segue:

“Além disso, deve subir até sua janela a fragrância das verduras e de todas essas coisas nascidas na terra, ainda frescas e vivas, coloridas. É bom que ele veja as quinquilharias ingênuas, as ervas misteriosas, as pequenas, inúteis e preciosas coisas do mar e do sertão, os cavalos-marinhos e as sementes escuras. Só ele poderá entender as coisas de barro e de palha, a glória dos tomates, o espanto de pedra no olho dos peixes eviscerados, e o constrangimento amarelo desses abacaxis sem sabor que amadureceram no meio do inverno”.

Além da alegria dos feirantes, espontânea ou ajudada por um tanto de bebida, que é duro acordar todo dia de madrugada, a feira tem seus truques. Como contou em depoimento ao Museu da Pessoa, em 1994, o feirante Vicenzo Salemi, nascido em 1924:

“A gente enfeita a fruta. A mulher não se enfeita, não se pinta? Uma pintinha aqui, uma pintinha ali. Você tem que saber colocar a fruta para ficar vistosa: o lado mais colorido para fora, o menos colorido para baixo”.

Mas não é só truque. É, também, cuidado:

“As frutas mais leves, mais delicadas – morango, pêssego, figo, cereja, quando é tempo de cereja –, pego no Mercado Municipal e ponho na caminhonete, porque são muito perecíveis, e se eu deixo no caminhão da tarde de um dia para a manhã de outro, elas perdem o visual. Carregando de manhã, chegam fresquinhas da lavoura, ficam mais bonitas na banca da feira”.

As frutas se enfeitam para ir à feira. Muitas mulheres, também.

Leia aqui o depoimento de Vicenzo Salemi.

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Mauro Malin participou da fundação do Museu da Pessoa. É jornalista desde 1966. Formou-se em História em 1979. É supervisor editorial do Portal Museu da Pessoa.
   
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