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por Mauro Malin

 



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19.01.2007

O CASTIGO DAS CHUVAS

Minas Gerais sofre sob chuvas torrenciais e prolongadas neste mês de janeiro. Quarenta e um anos atrás houve outra grande chuva mortífera no Sudeste brasileiro. No Rio de Janeiro, provocou muitas mortes. Foi um episódio terrível. Eu tinha 19 anos e me lembro da Rua das Laranjeiras, onde morava, transformada em verdadeiro rio. Tão caudaloso que desciam carros pela correnteza, esbarrando em postes de concreto e em árvores.

Ainda vejo a cena dos primeiros pingos. Era um sábado. Meu pai, Manoel Malin, havia me levado para almoçar no excelente restaurante Capri, no início de Copacabana, perto da praia. À saída, corremos para entrar no carro. Chuva de verão. Cai grossa e passa logo.

Que nada. Não conseguimos ir além da Praia de Botafogo. O velho Jaguar se afogou. Água quase pelas janelas. Da Praia, papai telefonou para um reboque do Automóvel Clube. Mas não acreditávamos que ele chegasse: não se distinguia mais a água do mar, na enseada, das águas acumuladas na rua e nos canteiros arborizados. A rua, o logradouro Praia de Botafogo tinha virado uma espécie de passeio à beira de um grande lago. Lá longe, o carro como que boiava.

E não é que, muitas horas depois, já escuro, o reboque chegou? Fomos para casa e de lá não saímos por dias a fio. A chuva parecia querer durar um verão inteiro.

Um prédio desabou no bairro de General Glicério, dezenas de moradores morreram. Sem contar tantos barracos nos morros e beiras de rios. A TV Globo, que tinha sido inaugurada no ano anterior, conquistou o coração dos cariocas: passou a transmitir ininterruptamente o drama da inundação, com câmeras colocadas na rua.

Em Minas, essa chuva foi o cenário de um romance notável, Jorge, Um Brasileiro , de Oswaldo França Jr. O protagonista vai liderar a viagem de um comboio de caminhões carregados de milho, atolados no nordeste de Minas, para os lados de Governador Valadares, ou Montes Claros. Era preciso chegar a Belo Horizonte a tempo de inaugurar uma refinação.

Essa chuva não poupou São Paulo. Em seu depoimento no projeto Memórias do Comércio de São Paulo, dado em 1994, Romeu Fiod conta:

“(....) Veio a inundação de 1966 [ Romeu disse 68 ]. Choveu sete, oito dias consecutivos e a água chegou a um metro e 80 em toda a zona cerealista! (....) A água começou a subir, a gente dentro do estrado, a água corria a 20, 30 por hora naquela Avenida Senador Queiroz, que saía da Avenida Mercúrio. Absurdo! Aquela água contaminada, suja de óleo, todos esses detritos de armazém do ABC, porque ela vinha de lá, o Tamanduateí começa lá. Três dias nós ficamos ilhados lá dentro, um problema danado, foi a pior inundação, todos os armazéns daquela região perderam em torno de 70% dos seus produtos armazenados ”.

Leia aqui o depoimento de Romeu Fiod.

O que mais perturba, no caso brasileiro, é a repetição da imprevidência, o incessante deixar acontecer novamente o que se sabe prevenível, no mínimo atenuável. É desprezar sistematicamente uma bela lição do Príncipe de Maquiavel:

“(....) Para que não se anule o nosso livre arbítrio, eu, admitindo embora que a fortuna seja dona da metade das nossas ações, creio que, ainda assim, elas nos deixa senhores da outra metade ou pouco menos. Comparo a fortuna a um daqueles rios que, quando se enfurecem, inundam as planícies, derrubam árvores e casas, arrastam terra de um ponto para pô-la em outro: diante deles não há quem não fuja, quem não ceda ao seu ímpeto, sem meio algum de lhe obstar. Mas, apesar de seu isso inevitável, nada impediria que os homens, nas épocas tranqüilas, construíssem diques e canais, de modo que as águas, ao transbordarem do seu leito, corressem por esses canais, ou, ao menos, viessem com fúria atenuada, produzindo menores estragos ”.

(Texto extraído de Pensadores italianos. Tradução de António Piccarolo e Leonor de Aguiar. Rio de Janeiro, 1952, apud Os Clássicos da Política , org. Francisco Weffort, São Paulo, Ática, 1995.)

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Mauro Malin participou da fundação do Museu da Pessoa. É jornalista desde 1966. Formou-se em História em 1979. É supervisor editorial do Portal Museu da Pessoa.
   
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