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por Mauro Malin

 



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25.01.2007

UM HOMEM SAÍDO DAS ESTATÍSTICAS

No dia 16 de novembro topei na rua com um homem saído de duas estatísticas, se é verdadeira a história que ele me contou para pedir dinheiro. (Se não é "verdadeira", não tem importância; aqui ela passa uma verdadeira história.)

- Deixei mulher e filha no Ceará - e mostra uma fotografia miúda.
- Para que você quer dinheiro?
- Para comer.
- E depois?
- Estou procurando emprego.
- E se não achar?
- Se eu tiver cem reais na mão, pego o ônibus de volta agora mesmo, nem passo para pegar minhas coisas.
- Onde estão suas coisas?
- Na Aclimação. Estou dormindo do lado do Parque da Aclimação, num cantinho de um posto de gasolina Shell.
- Você veio assim, sem saber direito o que ia encontrar?
- Já trabalhei aqui, até 1993, numa padaria de Santo Amaro, no Largo Treze.
- Voltou lá?
- A padaria não existe mais. Nem o lugar existe. Fizeram uma obra na rua.
- Só foi lá?
- Estou procurando por aqui - faz um gesto amplo -, obra, padaria, bar, para ser garçom. Não achei nada.
- Você sabe que a Prefeitura tem um serviço para encaminhar quem quer voltar para casa?
- Me disseram que se eu estivesse com mulher e filho me colocariam num ônibus. Homem sozinho, não. "Você pode trabalhar, pode se virar".
- Quanto custa a passagem?
- É cara. Não dá para juntar 140 reais, de jeito nenhum. Também fui na agência de ônibus clandestino, na Avenida ..., custa só cem reais, o ônibus vai por estrada de terra, nada de BR, até Piripiri, no Piauí, é perto da minha cidade. O homem disse para eu catar papelão e juntar esse dinheiro.

José Ribamar tinha boa aparência. Camisa limpa. Calça jeans surrada. Não olhei para o calçado, a parte mais cara da roupa. Do bolsinho da calça tirou uma aliança embrulhada em papel.

- Sou casado, moço, tenho até aliança. Mas tirei do dedo. O senhor sabe...

Se a história é verdadeira, José Ribamar saltou de duas estatísticas para a calçada da rua onde eu estava.

A primeira estatística constata que São Paulo agora tem migração negativa. Está numa boa reportagem publicada em 19 de janeiro de 2007 no caderno Eu& do jornal Valor: "De eldorado a caminho de passagem". A autora é Ediane Tiago. Com dados do IBGE, ela diz: "Entre 1995 e 2000, a capital paulista recebeu 551.683 pessoas e mandou perto de um milhão para outras cidades". A explicação básica está no subtítulo da reportagem: "A cidade de São Paulo ficou mais exigente na qualificação que espera de quem chegou de fora à procura de vida melhor".

Por telefone, Ediane me explica a situação específica do Ceará, mencionada na reportagem: a entrada de pessoas no estado cresceu 33,9% entre o período de 1986/1991 e o período 1995/2000. O volume de saídas caiu 23,8%. Em números absolutos, a tradução é a seguinte: no primeiro período, saíram 123 mil pessoas. No segundo, 23 mil. Cem mil deixaram de sair.

A segunda estatística é a dos moradores de rua, se é que José Ribamar era mesmo um deles. Pela aparência, não seria. Mas explicou: "Acordo, tomo banho, faço a barba. Com a cara suja (ele pronunciava "chuja") não dá para pedir emprego". A Prefeitura diz que o número está chegando a 11 mil. Há quinze anos, eram 4 mil.

Na reportagem de Ediane Tiago é ouvida a presidente da Associação dos Nordestinos do Estado de São Paulo, Francis Bezerra. A repórter descreve: "Bezerra saiu do Maranhão, divorciada e com três filhos, veio de pau-de-arara para São Paulo, desembarcou na Estação da Luz, em agosto de 1970, dormiu as três primeiras noites na rua com as crianças até encontrar um quarto de pensão na região de Santo Amaro e um emprego". Francis encontrou trabalho, formou-se em direito, um dos filhos tem PhD nos Estados Unidos.

Dei vinte reais para José Ribamar. Ele estava de olho nos cinco de troco que eu havia recebido depois de comprar chicletes numa banca de jornais. Mas isso daria para quê? Uma refeição? O homem me agradeceu. Espero que tenha tido alguma sorte.

Lembrei-me de um dos vários personagens entrevistados pelo Museu da Pessoa que relatou ter morado na rua. É Milton Tertuliano Barros, nascido em Princesa Isabel, Paraíba, em 1940. Veio para São Paulo há mais de 50 anos. Dormiu 61 dias na rua...

"(....) E aí conheci uma pessoa aí, apanhava papel...
P - Como era o nome dela?
R - Se não me engano era Teresa. Ela apanhava papel e eu dormia em cima do papel dela. E ela falou pra mim que ia me arrumar um emprego. E foi indo, foi indo, ela um dia me trouxe um cartão. Que era para eu ver esse emprego. Mas como eu não tinha um calçado, uma roupa, nada, ela comprou um chinelo pra mim, e comprou uma camisetinha, da Hering... (choro)"(....)


Milton passou alguns dias numa fábrica de plásticos, mas não tinha força para manejar a prensa manual. Ganhou o suficiente para alugar um quarto de pensão perto do Mercado Municipal, onde trabalhou como carregador e depois, em meio a muitas peripécias, chegou a ser dono de seu próprio negócio.

No intervalo de uma conversa de pescadores com um freguês que entrou na barulhenta loja, Jorge explicou que passara do trompete ao contrabaixo, antes de parar de tocar. Ouça aqui.

Leia aqui o depoimento de Milton Tertuliano de Barros.

José Ribamar, de Mucambo, quer voltar. Milton, de Princesa Isabel, ficou. Como ficou em São Paulo o pai da jornalista Ediane Tiago, baiano, metalúrgico aposentado, mais dois filhos, um dentista e um fisioterapeuta.

Histórias de migrantes, histórias de gente sem teto e de gente com teto.


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Mauro Malin participou da fundação do Museu da Pessoa. É jornalista desde 1966. Formou-se em História em 1979. É supervisor editorial do Portal Museu da Pessoa.
   
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