23.2.2007
BAGUNÇA ESTUDANTIL UNIA ESQUERDA E DIREITA
O depoimento do barbeiro Julio Fombellida Pita ao Museu da Pessoa deu e dá pano para mangas. Colhido em dezembro de 1997 na sua barbearia da Rua Barão de Tatuí, em Santa Cecília, bairro da capital paulista, foi, por exemplo, o ponto de partida do documentário “O Mundo Cabe Numa Cadeira de Barbeiro”, dirigido pelo jornalista e escritor José Roberto Torero em 2002 e muitas vezes exibido na TV Cultura de São Paulo.
Há três anos, eu assinava uma coluna quinzenal no Diário de S. Paulo e usei uma das histórias de Julinho. O texto terminava assim: “Quem sabe ajude a entender o sucesso duradouro de Paulo Maluf compreender que o fascismo teve força ideológica na colônia italiana, de longe a imigração mais importante na cidade. Ainda em 1953, relata Julio Fombellida Pita, imigrante espanhol, seu patrão, Nicola Cencini, dono de uma barbearia na Avenida São João, mostrava a um canto o manganello, bastão usado para bater em comunistas trazido da terra natal que, dizia, teria o maior prazer em usar novamente. Para horror do barbeiro Julinho, em cujo coração morava o avô, republicano que a perseguição de Franco obrigara a se exilar na França”.
Recentemente, perguntei a Julinho se Cencini tinha uma roda de amigos simpatizantes do fascismo. “Tinha, é claro. Falavam italiano, não falavam português”. “Você se lembra de algum deles?” “Deixe-me ver... Sim, um construtor muito conhecido chamado Mario Buchignani. Construiu a Igreja da Paz, na Rua do Glicério. Cortava cabelo comigo. E eu me casei nessa igreja, em 1960”.
A informação se articulou a outra, que eu ouvira dias antes. Um amigo meu se lembra de ter visto na missa pelo falecimento de Andrea Hipolito, algumas décadas atrás, amigos do morto que fizeram questão de comparecer vestidos de camisas pretas e fazer a saudação fascista. Onde foi a missa? Na Igreja da Paz.
Mas havia também quem perturbasse e provocasse o fascista Cencini (além de barbeiro, fotógrafo famoso no início do século e pai do pintor Ítalo Cencini). Eram estudantes que moravam na Casa do Estudante Onze de Agosto. Alguns desses alunos da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco (USP) eram simpáticos à esquerda e depois do Golpe de 1964 foram presos. Um deles, Julinho não se lembra do nome, só da imagem, um jovem de olhos claros, foi morto. Outros eram de direita.
A Casa do Estudante fica até hoje na esquina da Alameda Nothman com a Rua General Júlio Marcondes Salgado. A barbearia ficava bem pertinho, na Avenida São João, número 1973. Hoje existe no lugar uma loja de móveis usados, comércio típico da região arrasada pelo Minhocão.
Os estudantes faziam todo tipo de bagunça, lembra Julinho, de quem vários eram fregueses. “Quebravam tudo, levavam mulheres... Andavam pelados no teto do prédio, tomavam cerveja e jogavam tudo na rua”.
No dia 11 de agosto, celebrizado até hoje como Dia do Pendura em restaurantes, o dono de uma padaria vizinha, na Alameda Nothman, costumava dar chope de graça para a rapaziada. “Teve um ano em que ele não deu. Sabe o que eles fizeram? Lembra-se daqueles triciclos de entregar pão que ficavam na porta das padarias? Pegaram o triciclo e jogaram do alto do prédio”.
“E quando chamavam a Polícia”, completa Julinho, “jogavam baldes de água na Polícia”.
Da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco saíram esquerdistas e direitistas ao longo das décadas. Na Casa do Estudante, a camaradagem e a bagunça os uniam.
Clique aqui para ler o depoimento de Julio Fombellida Pita.
Envie seu comentário: portal@museudapessoa.net
|