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7.3.2007
DE VOLTA À CAMISARIA ROCHA
O
Sr. Armando Rocha foi entrevistado pelo Museu da Pessoa, para o
projeto Memórias do Comércio de São Paulo,
em setembro de 1994. Ele morreu em setembro de 2003, aos 89 anos.
Em julho, havia tido um derrame na Camisaria Rocha, onde continuava
a ir diariamente. Mas a loja mudara de endereço. Em 1999,
as filhas convenceram o Sr. Armando a sair do Centro, onde o movimento
já era fraco e muitos clientes tinham medo de se arriscar.
Foram para a Alameda Joaquim Eugênio de Lima, no bairro do
Jardim Paulista.
No início deste mês, entrevistei
as filhas do Sr. Armando, Marisa Rocha Castañon e Denise
Rocha, que permanecem à frente da camisaria fundada pelo
avô delas, Joaquim Rocha, no início do século
XX. Um dos estabelecimentos comerciais mais antigos em atividade
contínua em São Paulo e no país todo.
Ouça
trechos da entrevista
Reproduções de páginas
de um catálogo inglês de 1919, em meio a outras relíquias
que me emprestaram Marisa, a mais velha, formada em Publicidade,
e Denise, a caçula, formada em Direito, mostram a antigüidade
dessa fabricação artesanal, e dessa venda para clientes
conhecidos, fiéis à loja.

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A família é muito unida
e muito ligada à figura de Armando Rocha, como atestam os
depoimentos gravados no podcast em anexo. Nele falam as duas filhas
e uma funcionária antiga da Camisaria, Maria do Carmo Pontes.
Mas a conversa retomou o fio do depoimento
de Armando Rocha ao Museu da Pessoa: como são feitas e vendidas
as camisas.
A maneira de fazer camisas é a
mesma do início do século XX. Hoje, é Marisa
quem faz a modelagem, tarefa que herdou do Sr. Armando. Um cortador
vai periodicamente à loja e prepara muitas camisas para as
costureiras, algumas fixas na loja e várias terceirizadas,
como se diz atualmente.
Pergunto a Marisa o que mudou nas camisas
sociais. Pouco, ela responde. A moda pede às vezes camisas
mais largas, às vezes mais justas. Como já havia constatado
o Sr. Armando em seu depoimento, as pessoas hoje são maiores.
“E com características físicas menos padronizadas
do que antigamente”, diz Marisa. Por exemplo, nas academias
de ginásticas corpos masculinos assumem proporções
caprichosas.
Denise intervém: os rapazes começam
mais cedo a fazer camisa para usar com terno, porque logo ao entrar
na faculdade vão fazer estágio. São as novas
exigências do mercado de trabalho.
As camisas duram de três a quatro
anos. Mas a conservação é um fator muito relevante.
Tanto que alguns clientes pedem a Marisa e Denise que ensinem a
empregada a lavar, passar, conservar as camisas.
Cor e padronagem variam pouco. Na grande
maioria dos casos, o tecido é branco ou azul. E, quando é
de listras, trata-se de listras clássicas, mais discretas.
Marisa explica assim o conservadorismo:
“O homem hoje em dia tem muita
pressa. De manhã, quer abrir o guarda-roupa, pegar a camisa
e vestir, sem perder tempo combinando camisa com gravata ou com
terno”.
Isso faz com que as duas irmãs,
quando vão comprar tecido, o que fazem juntas, procurem não
olhar com os próprios olhos, mas com os olhos dos clientes.
Outra imposição da modernidade
é a simplificação das modelagens. Denise diz
que muitos clientes querem a camisa mais simples possível,
sem pregas e sem botões em excesso.
A conversa volta à figura de Armando
Rocha, um esportista, homem que jogou tênis até os
80 anos, e um brincalhão que, avançado em anos, ainda
fazia traquinagens. Como colocar uma bombinha num cigarro de Denise.
O cigarro explodiu em plena aula na faculdade de direito. Sim, fumava-se
nas salas de aula.
No silêncio da loja iluminada por
amplas janelas, as filhas e a funcionária Maria do Carmo
têm os olhos marejados. Todos sentimos que Armando Rocha está
ali na esquina do tempo e se faz vivo pela rememoração
de sua passagem pelo mundo.
Clique
aqui para ler o depoimento de Armando Rocha.
Envie seu comentário: portal@museudapessoa.net
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