contato mapa english


Home> Histórias> Ontem e Hoje
por Mauro Malin

 



Arquivo:

27.3.2007

GERAÇÕES DO BOM RETIRO

O bairro paulistano do Bom Retiro celebrizou-se como reduto da colônia judaica na cidade entre o fim da Primeira Guerra Mundial e os anos 1970. Já deixou de sê-lo. Muitos judeus paulistanos se mudaram para outros bairros, principalmente, talvez, Higienópolis. Poucos ficaram no bairro.

O Bom Retiro foi também, após a Segunda Guerra Mundial, uma área em que o Partido Comunista Brasileiro tinha força política. Essa história foi contada pelo jornalista Luiz Mário Gazzaneo em entrevista que me deu para artigo publicado numa edição especial da revista História Viva (Temas Brasileiros – Esquerda no Brasil), lançada no final de 2006.

Disse Gazzaneo: “Eu era secretário político da célula do bairro do Bom Retiro. Tínhamos mais de 200 membros”, orgulhou-se. “Alugamos o principal salão do bairro e todo sábado a juventude ia para o baile dos comunistas”. Em dezembro de 1945, os comunistas liderados por Gazzaneo no Bom Retiro ajudaram a dar a um dos candidatos do partido a deputado federal, José Maria Crispim, a maior votação na capital paulista para a Assembléia Nacional Constituinte, 35 mil votos. “Dos 12 mil eleitores da área, 5 mil votaram em Crispim”, relatou o jornalista.

Algo desse passado atravessou décadas e permaneceu vivo na memória de dois dos colaboradores do cineasta Cao Hamburguer no filme O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias, o escritor Cláudio Galperin, que fez parte da equipe de roteiristas, e o fotógrafo Bob Wolfenson, que emprestou imagens do Bom Retiro usadas para compor ambientes e figurinos da época.

O filme foi um sucesso. Pode-se saber mais em reportagem de Miguel Barbieri Jr. na revista Veja São Paulo.
http://vejinha.abril.com.br/revista/vejasp/sumario1983.html

Também se pode consultar o site do filme.
http://www.oano.com.br/

O Ano em que... é a história de um menino deixado pelos pais, fugitivos da polícia política durante a ditadura militar, com o avô, que morre dias depois. O menino acaba ficando aos cuidados de judeus do bairro que conheciam seu avô. O diretor Cao Hamburguer é filho de pai judeu e mãe descendente de italianos. Não cresceu no Bom Retiro, mas no Butantã. Seus pais foram presos pelos militares por terem dado abrigo em casa a perseguidos políticos.

O fio condutor da psicologia do protagonista, o menino Mauro (Michel Joelsas), é o futebol. Tudo se passa durante a Copa do Mundo de 1970. A cada jogo da seleção, ele espera que os pais voltem. E há jogos de futebol num campinho do Bom Retiro.

Nesta foto, o personagem Mauro está em campo:


Foto: Divulgação

O campo usado no filme é mais sofisticado do que o da lembrança de Abram Szajman, que deu depoimento para o Museu da Pessoa no projeto Memórias do Comércio de São Paulo:

“Naquela época a vida em São Paulo era muito mais tranqüila. Imagine, eu morava no Bom Retiro e o Bom Retiro era um lugar para nós, crianças, era um lugar tranqüilo, tinha ruas tranqüilas. A gente era moleque de rua, mesmo, até pela pobreza, a gente era muito pobre, e o bairro era um bairro de classe média baixa. A gente jogava bola de meia na rua, tinha uns campos de futebol no Bom Retiro, no final da várzea, aliás grandes jogadores saíram aqui do Bom Retiro. Até da família da minha mulher, que eram fabricantes de botas para cavaleiros, teve o Waldemar Zaclis, advogado que virou atleta profissional de futebol. A gente tinha os campos de futebol, o Sul Americano, do outro lado tinha um descampado verde, uma várzea grande, o Bom Retiro era muito pequeno. Tinha os clubes aqui no Bom Retiro, tinha os clubes da coletividade judaica na época”.

Clique aqui para ler o depoimento de Abram Szajman.

Em mim, o filme despertou uma lembrança dolorosa, a do dia da final da Copa do Mundo de 1970, 21 de junho. Vários companheiros meus haviam sido presos, entre eles um muito amigo, Milton Flores de Freitas, Miltão. Enquanto uma multidão inteiramente alucinada comemorava o tricampeonato nas ruas do Rio de Janeiro, eu e mais algumas pessoas tentávamos obter informações em hospitais – esperança de que Miltão não tivesse sido preso – e até no Instituto Médico-Legal.

Nesse dia eu não comemorei. Tive ódio da multidão. Eu sabia o que estava acontecendo. Os companheiros estavam presos. Miltão ficou muitos meses no presídio da Ilha das Flores. Não acompanhou a gravidez de sua mulher, Leda, e só viu sua filha, Luciana, meses depois do nascimento. No dia da Copa, pensou que os torturadores, contentes com a vitória do Brasil, deixariam os prisioneiros em paz. Pelo menos naquele dia. Mas aconteceu o contrário: após o jogo eles voltaram com fúria redobrada. Um deles, para dor maior de Miltão, era um antigo colega do Colégio Militar. Ele jamais conseguiu entender o que havia transformado seu colega numa fera homicida.

Envie seu comentário: portal@museudapessoa.net



     
Mauro Malin participou da fundação do Museu da Pessoa. É jornalista desde 1966. Formou-se em História em 1979. Edita e apresenta o programa Observatório da Imprensa no Rádio.
   
        Rua Natingui, 1100 • São Paulo, SP
fone: +55 11 2144-7150 • fax: +55 11 2144-7151
portal@museudapessoa.net