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2.4.2007
RACISMO NO BRASIL
A ministra da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, Matilde Ribeiro, fez uma declaração algo desastrada em entrevista à agência de notícias britânica BBC. As frases escolhidas pela mídia para criticar a ministra foram usadas no site da própria BBC como texto de abertura de um fórum de debates: “Não é racismo quando um negro se insurge contra um branco"
e "A reação de um negro de não querer conviver com um branco, eu acho uma reação natural. Quem foi açoitado a vida inteira não tem obrigação de gostar de quem o açoitou".
A entrevista foi motivada pela comemoração, na Inglaterra, do segundo centenário da abolição da escravatura.
A ministra se explicou no site de seu partido, o PT. O resultado não é convincente. Mas é compreensível que uma pessoa não consiga o máximo de clareza ao tratar de assunto tão doloroso. A ministra é negra.
Era previsível que tais palavras de Matilde Ribeiro provocassem uma chuva de críticas e mesmo de insultos. Os racistas aproveitaram. Outros, como Luis Fernando Verissimo, tomaram uma posição humanista:
“Nenhum racismo é justificável, mas o ressentimento dos negros é. Construiu-se durante todos os anos em que a última nação do mundo a acabar com a escravatura continuou na prática o que tinha abolido no papel”. (O Globo, 1 de abril de 2007.)
Quem quiser pode acreditar que não há racismo no Brasil. Mas há. Intenso, embora muitas vezes disfarçado. E não só de brancos contra pretos, pardos e índios, mas de cada uma desses grupos contra os outros.
O racismo dos brancos, dominante, herdado da época colonial, é considerado “natural”. Os bem-pensantes o reprovam, claro, mas com algum grau de compreensão. Mas esses mesmos bem-pensantes ficam furiosos quando alguém fala do inevitável racismo dos negros. Seria menos “natural” do que o outro?
Essa discussão, felizmente, cresceu nos últimos anos, desde que o governo federal (já na época de Fernando Henrique) começou a aplicar políticas públicas de ação afirmativa. Cresceu e precisa crescer muito mais. Ela ainda é uma discussão torta e envergonhada.
Uma das causas abraçadas pelo Museu da Pessoa é “integrar indivíduos e distintos grupos sociais por meio da produção e conhecimento de suas experiências”.
Ao longo dos anos, em depoimentos dados ao Museu, a questão do racismo aflorou.
Neste trecho do depoimento de Diva Moreira há um testemunho que resume muito bem determinada mentalidade.
“Minha mãe era empregada doméstica e tinha um grande sonho: A minha filha, os meus filhos não vão passar o que eu estou passando na vida. Ela pensava em ir para São Paulo. Nessa casa eles queriam que eu fosse babá dos bebês que estavam nascendo na família. E achavam, eu me lembro como se fosse hoje: ´Não, negro não precisa de estudar. Até o quarto ano está bom´. Eles não queriam que eu estudasse depois da quarta série primária”.
Com a ajuda da mãe, Diva estudou. Clique aqui para ler o depoimento de Diva Moreira.
Kabengele Munanga, professor da USP nascido no que é hoje a República Democrática do Congo, também relata episódios de racismo contra ele e sua família.
Clique aqui para ler o depoimento de Kabengele Munanga.
Marcelo Santos, rapper, identifica no combate ao racismo um dos fatores que impulsionaram o movimento a que pertence.
Clique aqui para ler o depoimento de Marcelo Santos.
O saxofonista Nivaldo Ornelas diz que, no disco Minas, Milton Nascimento
“ (....) conta um pouco de sua história ali, das coisas que ele sofreu. O que eu vi ele sofrer de racismo, de intolerância... Em Belo Horizonte, tinha um lugar que se chamava Candelabro, na época pós-Berimbau , uma boate caretíssima. E tinha uma lista dos que não podiam entrar. (....) Quando vinham os artistas do Rio, se apresentavam nesse lugar. A gente ficava lá fora, porque não podia entrar. E o Milton, o lance do racismo, nossa mãe! Eu vi coisas e coisas”.
Clique aqui para ler o depoimento de Nivaldo Ornelas.
Pier Luigi Gianni fala em racismo, mas é um conceito diferente. Diz que na Rua Clélia, mais precisamente na Praça Cornélia, no bairro paulistano da Lapa, italianos e árabes se davam bem: “Não havia racismo, só brincadeiras”.
Clique aqui para ler o depoimento de Pier Luigi Gianni.
Também há quem condene, e com muita veemência, as ações afirmativas. Como Adelmar Faria Coimbra Filho:
“Não vê esse problema seriíssimo das cotas? Eles estão criando um racismo que o Brasil não tinha. Eu tive colegas meus que eu vivia com eles jogando pipa, brincando, nunca tive qualquer aspecto negativo contra um preto. Na minha casa, se tiver um preto educado, ele entra. Como entra um branco, que um branco ordinário não entra. Agora vai criar, sabe por quê? Porque entra um camarada incompetente, vai entrando assim, vai passando de qualquer maneira, colando, isso e aquilo, e vai se formar. Forma um médico. Aquele médico vai ser desprestigiado. No final vai ser o médico preto que não presta. O engenheiro preto que não presta. E outra coisa, tive pretos na minha turma brilhantes. Acontece que é a minoria, porque eles estudam numa escola pública altamente prejudicial”.
Clique aqui para ler o depoimento de Adelmar Faria Coimbra Filho.
Ao ler as palavras do Sr. Adelmar, um zoólogo, fico pensando: por que será que pretos não teriam o direito de ser maus médicos e maus engenheiros, tanto quanto brancos?
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