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por Mauro Malin

 



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10.4.2007

DESCENDENTES DE ARRUDÃO QUEBRA-PANELA

Na crônica “Um homem contra o Esquadrão da Morte” (disponível no menu acima), de 20 de março, mencionei o fato de que o procurador Hélio Bicudo foi colega, na redação do jornal O Estado de S. Paulo, de um juiz, Dácio Arruda Campos, que ele conhecera em Jaboticabal, interior paulista.

Dois filhos do juiz, Luiz Antônio Arrudão, advogado, e Bias Arrudão, jornalista, dão um depoimento sobre essa convivência. O registro está num áudio anexado à crônica.

Fui colega de Bias na revista Update , da Câmara Americana de Comércio de São Paulo, e sempre tive curiosidade de saber por que ele tinha um sobrenome diferente do de seu pai. Ele me deu a explicação que se segue:

– Meu pai era muito ligado em histórias familiares. Tinha interesse em árvore genealógica. O nosso lado Arruda é um lado quatrocentão. E ele tinha muito orgulho disso. E tem um personagem que era bisavô do meu pai, um sujeito muito grande, daí seu apelido de Arrudão. Ele era tropeiro. Morava em Sorocaba, ia buscar mulas no Rio Grande do Sul e as levava para a grande feira de mulas de Sorocaba, depois para a Bahia. Ficava pouco tempo em casa. Quando ele estava em casa, século XIX, aquela coisa bem machista, tudo tinha que ser do jeito que ele queria. Um dia, ia sair o jantar, e atrasou. Ele ficou muito bravo e entrou na cozinha para fazer um escândalo com os empregados, com a mulher, e as panelas estavam lá apitando. O Arrudão ficou muito irritado e quebrou as panelas, de raiva. Então, ficou conhecido como Quebra-Panela. Ele teve 24 filhos. Eu sou descendente do 24º, meu avô. Os 24 filhos dele se tornaram Quebra-Panela. Os descendentes do Arrudão se conhecem como Quebra-Panela. Ele virou um personagem mais ou menos folclórico. E meu pai adotou como pseudônimo jornalístico o nome Matias Arrudão. Quando eu conheço alguém que tem o sobrenome Arruda, eu pergunto: “Você é Quebra-Panela?” Se a pessoa for descendente do Arrudão, provavelmente vai saber e dizer “Sim, eu sou”. Arruda virou uma família muito grande: imagine-se a quantidade de descendentes de um homem que teve 24 filhos. Meu pai adotou esse pseudônimo. Depois, resolveu inovar de uma vez por todas e colocar nos filhos o sobrenome Arrudão. Meus dois irmãos mais velhos são Arrudão, eu também. E as minhas irmãs não são. São Arruda Campos. Ele dizia que elas iam casar e adotar o sobrenome do marido, então não precisavam usar o Arrudão.

Em dezembro de 2006, foi lançada a quarta edição de A Justiça a serviço do crime , de Arruda Campos, livro famoso desde sua primeira edição, em 1959. Arruda Campos morreu no final de 1981. A última edição do livro estava esgotada desde 1978. “Livro muito falado e pouco conhecido. Juízes conhecidos nossos pediam o livro, queriam conhecê-lo”, contou-me Bias.

Finalmente conseguiram editor interessado em tocar o projeto. E fizeram uma edição com características especiais, entre elas uma seleção das melhores coisas das quatro edições anteriores. No final do livro, algumas histórias reunidas pelos filhos Luiz Antônio Arrudão e Bias Arrudão.

Entre elas a da noite em que madame Kruscheva foi condecorada com um pin , um escudinho de lapela do Corinthians.

No áudio em anexo, Bias Arrudão resume a aventura. É “macunaímica”. Mostra que nem tudo na política pode ser levado a ferro e fogo.

Mas, em outra parte da conversa, Bias referiu-se ao engajamento político do pai. Citou o processo de desquite de Paulo Wright, assassinado pela ditadura militar e dado como “desaparecido”. A viúva não era juridicamente viúva. Era uma situação esdrúxula. Arruda Campos foi procurado pela família. Paulo era irmão do reverendo James Wright, já falecido – um dos celebrantes da missa ecumênica de sétimo dia por Vladimir Herzog, também assassinado. Algumas histórias desse período são resumidas em depoimentos editados por Luiz Egypto no Observatório da Imprensa sob o título “ Trinta anos para não esquecer ”. Atuando como advogado, Arruda Campos encontrou uma solução: fazer o desquite, o que permitiria à viúva cuidar dos bens deixados pelo marido.

Outro caso relembrado por Bias é o do Colégio Vocacional Oswaldo Aranha, de São Paulo, onde ele mesmo, Bias, havia estudado. Em 1969, o Exército o invadiu, prendeu alunos e professores, pais de alunos, a própria criadora do ensino vocacional, Maria Nilde Mascelani. Todos foram processados. E todos foram defendidos por Arruda Campos.

Um ex-aluno do Vocacional é Pedro Pontual, discípulo de Paulo Freire. Ele se refere ao Colégio em depoimento dado ao PSI, Jornal de Psicologia do Conselho Regional de Psicologia de São Paulo, edição de maio/junho de 2001.

E com a referência a Paulo Freire, esta crônica, feita a partir de depoimentos recentíssimos, volta às origens do Museu da Pessoa. O educador Paulo Freire, falecido em 1997, faz parte da primeira leva de depoimentos colhidos pelo Museu, em 1992.

Clique aqui para ler o depoimento de Paulo Freire.

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Mauro Malin participou da fundação do Museu da Pessoa. É jornalista desde 1966. Formou-se em História em 1979. Edita e apresenta o programa Observatório da Imprensa no Rádio.
   
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