|
O 1º Dia Internacional de Histórias de Vida acontece em 16 de maio em vários países. A programação pode ser conhecida no site www.ausculti.org. Participe, e inspire-se com a história abaixo, formada de mosaicos de memórias em torno de uma canção de Chico Buarque.
08.05.2007
CÁLICE NA RUE MOUFFETARD, em 1976
Andei pelo site do Clube da Esquina, hospedado no portal do Museu da Pessoa. Ouvi depoimentos emocionados sobre histórias antigas e me ocorreu uma associação de idéias em que os tempos caminham fora da linha cronológica. Vamos lá.
Cálice , de Chico Buarque e Gilberto Gil, foi composta em 1973 e ficou proibida até 1978. (Foi colocado no YouTube um vídeo emocionante de uma apresentação da MPB no Palácio de Convenções do Anhembi, em maio de 1973, em que o som do microfone de Chico Buarque é desligado. A canção é cantada com uma letra sem sentido inventada na hora por Gilberto Gil. Clique aqui para ver o vídeo.)
Durante cinco anos, devido a essa proibição, nenhuma voz se popularizou no Brasil pronunciando “Pai, afasta de mim esse cálice” – “Cale-se!”. No volume 2 (1958-1985) de A Canção no Tempo , de Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello, Cálice aparece dentro do capítulo dedicado a 1978:
“ Liberada cinco anos depois, a canção foi incluída no elepê anual de Chico [intitulado Chico Buarque ] (....). Na gravação, as estrofes de Gilberto Gil, que estava trocando a PolyGram pela WEA, são interpretadas por Milton Nascimento, fazendo o coro o MPB-4, em dramático arranjo de Magro ”.
Sim, Milton. Com a emoção que sentia e transmitia:
“(....)
Essa palavra presa na garganta
Esse pileque homérico no mundo
De que adianta ter boa vontade
Mesmo calado o peito, resta a cuca
Dos bêbados do centro da cidade ”
Milton, Chico e o MPB-4 foram as vozes que celebrizaram essa gravação no Brasil, quase trinta anos atrás.
Na Europa, uma adolescente, Sônia Awazu Pereira da Silva, filha de um exilado ilustre, o médico e cientista Luiz Hildebrando Pereira da Silva – cassado da USP após o AI-5, de 13 de dezembro de 1968, hoje pesquisador em Rondônia – já a cantava em 1974. Numa viagem a Portugal após a Revolução dos Cravos, o 25 de Abril, relembra outro exilado ilustre, Armenio Guedes, histórico dirigente do Partido Comunista Brasileiro, pediram a Soninha que a cantasse.
Clique aqui para ouvir Armenio Guedes, gravado ontem, dia 7 de maio. Ao fundo se ouvirá a “trilha sonora” de jazz – quando não é música clássica – que sempre acompanha Armenio. Ele fará 89 anos de idade no dia 30 deste mês.
Mas para mim o momento mágico de Cálice foi em Paris, em 1976, ano em que cheguei lá, fugido do Brasil. Houve uma reunião de exilados numa sala da Rue Mouffetard, endereço conhecidíssimo do Quartier Latin. E Soninha cantou a música acompanhada ao violão por seu então namorado, Carlos Eugênio Sarmento da Paz.
Cristina Konder, hoje editora da Ediouro, também estava lá e guardou nítida lembrança dessa noitada. Eu conversei com ela no dia 2 de maio.
Clique aqui para ouvir Cristina Konder sobre a primeira vez em que ouviu Cálice .
Recuperar na plenitude a complexa trama
de um acontecimento cultural tão rico é inteiramente
impossível. Mas sempre se pode montar um pequeno mosaico
de lembranças e emoções, como este. E, melhor,
sempre se pode buscar o CD, ou a MP3, e colocar a música
para tocar.
Envie seu comentário:
portal@museudapessoa.net
|