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por Mauro Malin

 



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5.6.2007

SOM DE RESPIRAÇÃO REGE MPB4 EM CÁLICE

Volto à circunstância histórica da música Cálice , de Gilberto Gil e Chico Buarque. Falei dela um mês atrás (“Cálice na Rue Mouffetard, 1976 ”). Hoje conversei por telefone com Aquiles do MPB-4, Aquiles Rique Reis, que agora além de vocalista e cronista (dos jornais Diário do Comércio , São Paulo, Meio Norte , Teresina, A Gazeta , Cuiabá, Jornal da Cidade , Poços de Caldas, e Brazilian Voice , editado nos Estados Unidos) é radialista – apresenta na Rádio Roquete Pinto FM, do Rio de Janeiro, O Gogó de Aquiles, às segundas-feiras, das três às quatro da tarde.

Terminei aquela crônica com a sugestão de que o leitor fosse ouvir a gravação de 1978, feita após a liberação de Cálice pela censura. Disseram-me que o regime de direitos autorais proíbe até mesmo a reprodução de um ínfimo trecho. Aquiles me esclareceu que não é assim.

Ouçamos então a abertura modificada daquela esplêndida gravação, hoje disponível em CD e MP3, parte do disco Chico Buarque , de 1978.

Um detalhe me deixou intrigado: por que se ouve, antes do primeiro acorde do MPB4, uma respiração forte? Reparando bem, ela se repete a cada nova seqüência de acordes emitidos pelo grupo. Eu só deixei no trecho a segunda seqüência. Depois de um mínimo intervalo de silêncio – inexistente na gravação, ele entra aqui no lugar de uma terceira e mais longa seqüência de acordes do MPB4 –, fica Chico Buarque cantando apenas a palavra “Pai...”. Para que todos se lembrem da gravação. Clique aqui para ouvir

Aquiles me explicou que a respiração é usada, no canto a capela, para substituir uma contagem que seria indispensável para todos os cantores entrarem ao mesmo tempo. O canto a capela evoca o modo eclesiástico. Faz sentido. A música trabalha com a idéia de Deus (“Pai”), a quem é ofertado um cálice litúrgico, depois transformado em imperativo a ordenar: “Cale-se!”. Ouça a explicação de Aquiles sobre a respiração.

Cinco anos antes, em maio de 1973, a música tinha acabado de ser feita e estava proibida pela censura. Foi quando, conta Aquiles, houve uma apresentação no Anhembi, em São Paulo , durante a qual censores foram desligando os microfones para que o público não ouvisse a canção com sua letra de genial duplo sentido. As imagens disponíveis no site YouTube , que já indiquei na crônica de 8 de maio, podem ter sido feitas misturando cenas de partes distintas do evento. (Há também no site um vídeo de boa qualidade onde Maria Bethânia canta Cálice.)

Na lembrança de Aquiles Reis, a apresentação é diferente dessa que vemos no YouTube, em que Gilberto Gil toca violão e canta, com Chico em outro microfone. Ouça Aquiles.

A fala de Aquiles Reis termina com a disposição de muitos artistas de enfrentar proibições. Nem sempre, disse o integrante do MPB4, de modo inteiramente consciente. Muitas vezes, sob a influência de outros artistas ou diante da expectativa de um público cúmplice nos verdadeiros atos de protesto que foram os shows durante aquelas duas décadas da história brasileira. Mas isso é assunto para uma próxima crônica.

 

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Mauro Malin participou da fundação do Museu da Pessoa. É jornalista desde 1966. Formou-se em História em 1979. Edita e apresenta o programa Observatório da Imprensa no Rádio.
   
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