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Valéria Fagundes
 

 

 

 

 
Valéria Fagundes
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por Mauro Malin

 

 



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8.7.2007

DIAS MAIS FELIZES EM MANARI

Valéria Fagundes é personagem notável do documentário Pro Dia Nascer Feliz, de João Jardim, exibido e debatido em capitais brasileiras e outras cidades grandes no primeiro semestre. Valéria é de Manari, sertão de Pernambuco, fronteira com Alagoas, na época apontada como cidade mais pobre do Brasil. O filme mostra que Valéria e outros adolescentes precisavam ir todo dia até a vizinha cidade de Inajá para fazer o segundo grau.

Assista o trailer do filme Pro Dia Nascer Feliz

A exibição do documentário ajudou a escola de Manari a obter recursos e reformar-se. Isso é contado abaixo pelo diretor da escola estadual da cidade, Amaury Onório. A meu pedido, Valéria escreveu para o Museu da Pessoa o texto abaixo, terminado em 6 de julho:

Ainda me emociono quando recordo a escola

Por Valéria Fagundes

Eu sempre vivi de certa forma num universo à parte, numa realidade árdua e por vezes até paradoxal. Mas tenho sobretudo orgulho e demasiado carinho pelo sertão e principalmente pelos seres humanos que ali sobrevivem. Tenho uma história de vida norteada por desafios e luta constante em favor de uma sociedade mais igualitária. Ainda me emociono quando recordo a escola onde estudei, quando lembro do tempo em que era possível correr, brincar, andar pelas ruas descalça.

Não era proibido vestir a liberdade e nem despir os anseios que se tinha no peito. Só uma coisa ao certo me entristecia: minha escola não tinha uma estrutura física adequada, havia poucas salas, os professores não tinham muito recurso didático para trabalhar. E mesmo assim alguns conseguiam transmitir o que estava proposto.

Todos os alunos de dentro das suas salas podiam ver toda movimentação da rua, a escola era cercada apenas com arame farpado, na hora do intervalo jogávamos bola e comprávamos pirulito numa senhora gorda e mal humorada, os professores faziam piqueniques num único campo de futebol da cidade.

Nesse mesmo período, o Pnud - Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento - apontou Manari como a cidade de menor IDH ( Índice de Desenvolvimento Humano) do país. A educação é por ventura um dos fatores que acarretam esse resultado vergonhoso. Manari também aparece no documentário
Pro Dia Nascer Feliz , de João Jardim. Eu, por acaso, também tenho uma pequena participação neste documentário e evidencio, apesar de tudo, a esperança de um mundo mais justo.

Minha vida tomou um outro rumo depois da participação neste filme, vejo como as pessoas ficam tomadas pela perplexidade quando o assistem, a angústia torna-se algo gritante. Enquanto crianças e jovens continuam sem a educação, nossos representantes permanecem em seus castelos, cumprindo apenas as etiquetas da corte. Hoje tenho 19 anos e estou morando em Recife, trabalho num centro de ensino experimental, numa biblioteca e num espaço de mídia e educação.

O que me deixa mais feliz é saber que graças ao filme a escola de Manari foi reconstruída. Sei que ainda há muito o que se fazer para mudar esse quadro educacional do país, sei também que a luta não vai ser fácil, mas estou disposta a tirar a educação desse casulo e fazer que ela chegue a todo o povo. Às vezes me bate uma saudade do sertão, um desejo de sair pelas ruas e cumprimentar as pessoas, de voltar à escola, rever minha família, meus amigos e professores. Mas lembro-me que é também por eles que estou aqui.

No filme de João Jardim, Valéria diz que seus colegas a acham diferente porque gosta de ler. No inesquecível final, declama um poema feito à maneira da Canção do Exílio de Gonçalves Dias.

Minha terra

Valéria Fagundes

Minha terra por ventura
merece tal descrição
lá a vida é menos dura
qualquer um lhe estende a mão

O céu é menos cinzento
lá não tem poluição
só existe um argumento
que me parte o coração

Ver o povo madrugar
e seguir para o roçado
mas se a chuva não chegar
perde-se o que foi plantado

Eu agora exilada
só me resta descrever
aqui não encontro nada
que me motive a viver
mas falar da minha terra
ah, isso me dá prazer

E mesmo aqui tão distante
tenho algo a pedir
quero agora, neste instante
voltar para Manari
pois eu não quero morrer
sem de lá me despedir.

Clique aqui para ouvir a leitura do poema por Valéria.

Em fevereiro passado, Valéria escreveu um artigo para o site Aprendiz, que pode ser lido aqui.

Três anos antes, em abril de 2004, época da filmagem de Pro Dia Nascer Feliz, Manari ganhou destaque no noticiário, ao ser apontada como cidade com menor IDH do Brasil. No site do Pnud foi publicada uma reportagem sobre o assunto. O título é "Manari, onde o IDH é baixo e água vale ouro", e pode ser lida aqui.

Se a trajetória de Valéria é alentadora, também o é a da escola estadual de Manari. Conversei com seu diretor, Amaury Onório, no final de junho. Ele me falou das dificuldades retratadas no filme. O dinheiro continua pouco. Ele ainda estava esperando a chegada da primeira parcela de dinheiro para investimento e custeio de 2007. Clique aqui para ouvir.

Em outra passagem, mais longa, o tom é otimista. "Hoje a escola está uma escola de primeiro mundo", diz Onório. Melhorou o ânimo de alunos, professores e pais. "Nós temos 1.073 alunos matriculados e esse mesmo número de alunos freqüentando a escola", contabiliza Onório. Alunos que estão estão mesmo "pensando em mudar a situação do Manari". Clique aqui para ouvir.

A situação precisa mudar, sim. Encontra-se na internet um estudo sobre fontes de abastecimento por água subterrânea, dedicado a Manari, publicado pelo Ministério das Minas e Energia em outubro de 2005. Ele informa que havia no município 1.779 pessoas responsáveis por domicílios que tinham algum rendimento e 1.016 que não tinham nenhum rendimento. A renda média mensal era de 1,03 salário mínimo. E, para 13 mil habitantes, contavam-se 113 empregos formais, dos quais 12 no comércio, um em serviços, um em estabelecimento agropecuário e 99 na administração pública.

Que as escolas de Manari e de tantas outras cidades do país ajudem a criar novos padrões de desenvolvimento. Para isso, precisam ser ajudadas. Milhões de Valérias e Amaurys aguardam a oportunidade de transformar sua terra, nossa terra.

Fotos: Divulgação

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Mauro Malin participou da fundação do Museu da Pessoa. É jornalista desde 1966. Formou-se em História em 1979. Edita e apresenta o programa Observatório da Imprensa no Rádio e é supervisor editorial do Portal Museu da Pessoa.
   
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