Valéria Fagundes é personagem notável
do documentário Pro Dia Nascer Feliz, de João Jardim, exibido e
debatido em capitais brasileiras e outras cidades grandes no primeiro
semestre. Valéria é de Manari, sertão de Pernambuco, fronteira com
Alagoas, na época apontada como cidade mais pobre do Brasil. O filme
mostra que Valéria e outros adolescentes precisavam ir todo dia
até a vizinha cidade de Inajá para fazer o segundo grau.
A exibição do documentário ajudou a escola de Manari a obter recursos e reformar-se. Isso é contado abaixo pelo diretor da escola estadual da cidade, Amaury Onório. A meu pedido, Valéria escreveu para o Museu da Pessoa o texto abaixo, terminado em 6 de julho:
Ainda me emociono quando recordo a escola
Por Valéria Fagundes
Eu sempre vivi de certa forma num
universo à parte, numa realidade árdua e por vezes até paradoxal.
Mas tenho sobretudo orgulho e demasiado carinho pelo sertão e principalmente
pelos seres humanos que ali sobrevivem. Tenho uma história de vida
norteada por desafios e luta constante em favor de uma sociedade
mais igualitária. Ainda me emociono quando recordo a escola onde
estudei, quando lembro do tempo em que era possível correr, brincar,
andar pelas ruas descalça.
Não era proibido vestir a liberdade e nem despir os anseios que
se tinha no peito. Só uma coisa ao certo me entristecia: minha escola
não tinha uma estrutura física adequada, havia poucas salas, os
professores não tinham muito recurso didático para trabalhar. E
mesmo assim alguns conseguiam transmitir o que estava proposto.
Todos os alunos de dentro das suas salas podiam ver toda movimentação
da rua, a escola era cercada apenas com arame farpado, na hora do
intervalo jogávamos bola e comprávamos pirulito numa senhora gorda
e mal humorada, os professores faziam piqueniques num único campo
de futebol da cidade.
Nesse mesmo período, o Pnud - Programa das Nações Unidas para o
Desenvolvimento - apontou Manari como a cidade de menor IDH ( Índice
de Desenvolvimento Humano) do país. A educação é por ventura um
dos fatores que acarretam esse resultado vergonhoso. Manari também
aparece no documentário Pro Dia Nascer Feliz , de João
Jardim. Eu, por acaso, também tenho uma pequena participação neste
documentário e evidencio, apesar de tudo, a esperança de um mundo
mais justo.
Minha vida tomou um outro rumo depois da participação neste filme,
vejo como as pessoas ficam tomadas pela perplexidade quando o assistem,
a angústia torna-se algo gritante. Enquanto crianças e jovens continuam
sem a educação, nossos representantes permanecem em seus castelos,
cumprindo apenas as etiquetas da corte. Hoje tenho 19 anos e estou
morando em Recife, trabalho num centro de ensino experimental, numa
biblioteca e num espaço de mídia e educação.
O que me deixa mais feliz é saber que graças ao filme a escola de
Manari foi reconstruída. Sei que ainda há muito o que se fazer para
mudar esse quadro educacional do país, sei também que a luta não
vai ser fácil, mas estou disposta a tirar a educação desse casulo
e fazer que ela chegue a todo o povo. Às vezes me bate uma saudade
do sertão, um desejo de sair pelas ruas e cumprimentar as pessoas,
de voltar à escola, rever minha família, meus amigos e professores.
Mas lembro-me que é também por eles que estou aqui.
No filme de João Jardim, Valéria diz que seus colegas a acham diferente porque gosta de ler. No inesquecível final, declama um poema feito à maneira da Canção do Exílio de Gonçalves Dias.
Minha terra
Valéria Fagundes
Minha terra por ventura
merece tal descrição
lá a vida é menos dura
qualquer um lhe estende a mão
O céu é menos cinzento
lá não tem poluição
só existe um argumento
que me parte o coração
Ver o povo madrugar
e seguir para o roçado
mas se a chuva não chegar
perde-se o que foi plantado
Eu agora exilada
só me resta descrever
aqui não encontro nada
que me motive a viver
mas falar da minha terra
ah, isso me dá prazer
E mesmo aqui tão distante
tenho algo a pedir
quero agora, neste instante
voltar para Manari
pois eu não quero morrer
sem de lá me despedir.
Clique
aqui para ouvir a leitura do poema por Valéria.
Em fevereiro passado, Valéria escreveu
um artigo para o site Aprendiz, que pode ser lido aqui.
Três anos antes, em abril de 2004, época
da filmagem de Pro Dia Nascer Feliz, Manari ganhou destaque no noticiário,
ao ser apontada como cidade com menor IDH do Brasil. No site do
Pnud foi publicada uma reportagem sobre o assunto. O título é "Manari,
onde o IDH é baixo e água vale ouro", e pode ser lida aqui.
Se a trajetória de Valéria é alentadora,
também o é a da escola estadual de Manari. Conversei com seu diretor,
Amaury Onório, no final de junho. Ele me falou das dificuldades
retratadas no filme. O dinheiro continua pouco. Ele ainda estava
esperando a chegada da primeira parcela de dinheiro para investimento
e custeio de 2007. Clique aqui para ouvir.
Em outra passagem, mais longa, o tom é otimista. "Hoje a escola
está uma escola de primeiro mundo", diz Onório. Melhorou o ânimo
de alunos, professores e pais. "Nós temos 1.073 alunos matriculados
e esse mesmo número de alunos freqüentando a escola", contabiliza
Onório. Alunos que estão estão mesmo "pensando em mudar a situação
do Manari". Clique
aqui para ouvir.
A situação precisa mudar, sim. Encontra-se na internet um estudo sobre fontes de abastecimento por água subterrânea, dedicado a Manari, publicado pelo Ministério das Minas e Energia em outubro de 2005. Ele informa que havia no município 1.779 pessoas responsáveis por domicílios que tinham algum rendimento e 1.016 que não tinham nenhum rendimento. A renda média mensal era de 1,03 salário mínimo. E, para 13 mil habitantes, contavam-se 113 empregos formais, dos quais 12 no comércio, um em serviços, um em estabelecimento agropecuário e 99 na administração pública.
Que as escolas de Manari e de tantas outras
cidades do país ajudem a criar novos padrões de desenvolvimento.
Para isso, precisam ser ajudadas. Milhões de Valérias e Amaurys
aguardam a oportunidade de transformar sua terra, nossa terra.
25.7.2007
- Denilza,
morta no Morro da Providência
As mortes provocadas pela violência de bandidos e pela reação bélica da
polícia dão raiva e tristeza. Essa deu mais ainda porque Denilza era bonita.
18.7.2007 - André
e Daniel, da Bahia, no crime
São precários os esquemas teóricos para explicar por que uma pessoa mergulha
na criminalidade. André foi bem tratado pelos pais. Daniel apanhou deles.
8.7.2007
- Dias
mais felizes em Manari
É preciso que as escolas de Manari, Pernambuco, e de tantas outras cidades
do país ajudem a criar novos padrões de desenvolvimento.
3.7.2007 - Vlaudemir,
na Paulista
Vlaudemir nasceu com atrofia de braços e pernas. “Psicólogos me ensinaram
que eu tinha que me aceitar e gostar de mim”. Ele pede ajuda na Paulista.
Mauro Malin participou da
fundação do Museu da Pessoa. É jornalista desde
1966. Formou-se em História em 1979. Edita e apresenta o programa
Observatório
da Imprensa no Rádio e é supervisor editorial do Portal Museu da Pessoa.
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