O jornal carioca O Dia noticiou
em 15 de junho de 2007:
Traficantes armados invadiram a Linha Vermelha e deixaram motoristas em pânico ontem de manhã. Os criminosos expulsaram quem estava nos carros e ônibus, trocaram tiros com policiais e um adolescente de 14 anos ateou fogo a um táxi. Duas pessoas que passavam em veículos e dois PMs ficaram feridos no tiroteio. Dez integrantes da quadrilha - dois feridos - foram pegos, entre eles cinco menores. O ataque foi uma reação à morte do chefe das bocas-de-fumo do Complexo do Caju, André Luís Santos Oliveira, o Araketu, 33 anos.
E, no dia seguinte:
Tiroteio no enterro. Paula Sarapu e Vania Cunha. Rio - Chefe do tráfico de drogas do Complexo do Caju, André Luís Santos Oliveira, o Araketu, também participou do assalto ao ator Francisco Cuoco, em novembro, na Avenida Perimetral, de acordo com investigação da 17º DP (São Cristóvão). O traficante foi morto quinta-feira por policiais do 4º BPM (São Cristóvão), após perseguição e tiroteio na Avenida Brasil. Ontem, foi enterrado em meio a intenso tiroteio, no Cemitério do Caju. Ele estava em liberdade condicional desde 2001 e tinha mandado de prisão por latrocínio, no caso do desembargador do Tribunal Regional do Trabalho José Maria de Mello Porto, e pedido de prisão preventiva pelo roubo à ministra do Supremo Tribunal Federal (TSF) Ellen Gracie. Segundo o inspetor Marco Antônio Carvalho, da 17º DP, Araketu comandou o roubo do Zafira onde estava a ministra e ficou exibindo seus pertences na Favela Parque Alegria, inclusive documentos e cordão de ouro que ela usava. Araketu e seu bando levaram Francisco Cuoco em seu Corolla, fizeram ameaças e exigiram as senhas de banco.
Para Dona Maria nunca existiu Araketu.
Só André. André era o primeiro filho homem de Maria, senhora de
origem pobre nascida no interior da Bahia, empregada doméstica em
Salvador há muitos anos, desde que seu marido teve problemas no
trabalho de pedreiro e ela passou a se preocupar com seu próprio
sustento e o dos filhos. No bairro onde moravam André tinha muitos
fãs. Como um dos personagens do livro Não reclamados: vidas esquecidas
no Instituto Médico Legal, de Laura Godoy e outros autores, citado
na crônica Dos
corpos às vidas: Gilvan de Jesus, nascido e criado numa
pequena cidade mineira:
Gilvan se tornou uma figura popular
em Francisco Sá. Dos amigos do morro, ganhou o apelido de Cruel,
alcunha forte, mas que não amedrontava as pessoas. Todo dia, bem
cedo, Gilvan voltava de noitadas memoráveis e vinha caminhando com
um sorriso contagiado pela bebida. Para a molecada da rua, era quase
um ídolo: não tinha medo, andava pelos becos escuros, enfrentava
os marginais mais temidos e jogava futebol como ninguém. - Olha
o Cruel vindo ali, gente! Cruel! Cruel! Entra no meu time, gritavam
em coro. Gilvan transformou-se num anti-herói fracassado por arriscar
a vida e nada conseguir.
André era querido no bairro mas teve que se mudar de lá. Envolveu-se com drogas. Foi julgado e condenado por assalto a mão armada num ônibus. Uma pessoa foi morta. Um policial, justiceiro do bairro, jurou-o de morte. Foi para o interior. Um amigo que tinha ido para o Rio disse que lhe arranjaria emprego de servente num edifício. Teria um quartinho para morar. Dona Maria ficou muito aliviada. André viajou. No Rio, cometeu outros crimes. Foi preso e passou uma temporada na cadeia. Quando saiu, disse à mãe que estava trabalhando como camelô.
Em maio de 1999 o Museu da Pessoa entrevistou Daniel Ribeiro dos Santos, nascido na mesma época que André Oliveira e também na Bahia, mas no interior, em Coaraci, perto de Ilhéus.
O contraste entre essas duas vidas mostra como ainda são precários os esquemas teóricos sociológicos ou psicológicos para explicar por que uma pessoa mergulha na criminalidade.
André foi bem tratado pelos pais. Mimado. A condição de filho homem lhe deu privilégios. Nunca lhe bateram.
Daniel apanhou:
Eles brigaram porque ele achava que eu não era filho dele e
não queria ficar comigo. Além de tudo, meu pai não gostava muito
de criança. Na época, eu era muito pequeno e ele me deixou na casa
de uma família. Depois me contaram que eu fui deixado lá, jogado
numa caixa. Um senhor e uma senhora tomavam conta de mim. (....)
Eu fazia muita coisa errada desde pequeno. Nessa época, eu brigava
com os outros meninos no colégio, jogava pedra na casa das pessoas.
Quando a mãe chegava, estavam lá as reclamações. E ela batia mesmo,
sem pena, e deixava de castigo. Ela fazia carinho também, mas só
que às vezes chegava a espancar, o que tivesse na mão ela tacava.
Dona Maria atribuía ao uso de drogas André ter se metido com "coisa ruim". E estranhava. Dizia que na família "nunca teve ladrão". O pai de André e seus tios, irmãos de Maria, bebiam, mas nunca fizeram mal a ninguém. "Só a eles mesmos".
Em seu depoimento, Daniel não pretende
explicar o que o levou ao crime e à cadeia. Mas dá um retrato eloqüente
do ambiente:
Era todo tipo de droga que você imaginar.
Eu fumava só maconha, não cheirava. E o pessoal lá arrumou arma
para mim. Aí começamos a roubar ali, assaltamos quase todas as lojas
no Itaim. Arranjar arma é fácil, toda favela tem o ponto em que
você acha superfácil. Tem gente que arruma, o vigia, o vigilante.
Arma é que não faltava.
O relato da vida de André que me chegou tem mais lacunas do que fatos e termina no noticiário de sua morte e de seu enterro.
O relato de Daniel para o Museu da Pessoa é rico em informações sobre crime e cadeia e termina de modo encorajador. Ele é ajudado por um pastor evangélico, larga a droga e o crime.
Estou ganhando meu dinheiro honestamente, estou trabalhando. Ganho
pouco, pouquinho. Não estou fazendo mais nada do que eu fazia.
Não sei para que lado foi Daniel depois desse depoimento, dado em maio de 1999. Em 1967, cinco anos antes do nascimento dele, Gal Costa cantou versos de Caetano Veloso:
Tudo é divino maravilhoso
(...) É preciso estar atento e forte
25.7.2007
- Denilza,
morta no Morro da Providência
As mortes provocadas pela violência de bandidos e pela reação bélica da
polícia dão raiva e tristeza. Essa deu mais ainda porque Denilza era bonita.
18.7.2007 - André
e Daniel, da Bahia, no crime
São precários os esquemas teóricos para explicar por que uma pessoa mergulha
na criminalidade. André foi bem tratado pelos pais. Daniel apanhou deles.
8.7.2007
- Dias
mais felizes em Manari
É preciso que as escolas de Manari, Pernambuco, e de tantas outras cidades
do país ajudem a criar novos padrões de desenvolvimento.
3.7.2007 - Vlaudemir,
na Paulista
Vlaudemir nasceu com atrofia de braços e pernas. “Psicólogos me ensinaram
que eu tinha que me aceitar e gostar de mim”. Ele pede ajuda na Paulista.
Mauro Malin participou da
fundação do Museu da Pessoa. É jornalista desde
1966. Formou-se em História em 1979. É supervisor editorial
do Portal Museu da Pessoa.
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