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por Mauro Malin

 



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25.7.2007

DENILZA, MORTA NO MORRO DA PROVIDÊNCIA

Um tiroteio em favela faz esquecer outro, e eles acontecem o tempo todo, mas alguns perduram na memória. Em 1 de junho de 2006 foi morta no Morro da Providência, no Rio, Denilza Maria da Silva Nascimento. No Globo, a notícia foi dada assim:

Estudante é morta na Providência. Cláudio Motta, Cristiane de Cássia e Elenilce Bottari. Denilza Maria da Silva Nascimento, 21 anos, sonhava em se casar e cursava o ensino médio, com o objetivo de deixar o Morro da Providência, no Centro. Ontem, enquanto dormia em casa, a estudante foi baleada num dos dois tiroteios que ocorreram na favela e morreu. A casa da família foi atingida por cinco tiros logo no início da operação da Tropa de Elite (....). As balas perfuraram as portas e as paredes da casa, além de vários móveis. Um dos tiros atingiu a estudante no pescoço.

Todas essas mortes provocadas pela violência de bandidos e pela reação bélica da polícia dão raiva e tristeza, mas essa deu mais ainda porque Denilza era bonita, como mostraram a televisão naquela noite e os jornais no dia seguinte. Sabe-se lá por que – pensadores dedicam a isso boa parte de suas cogitações, há milênios, sem chegar a uma explicação clara –, mas a beleza sensibiliza.

O relato do Estado de S. Paulo sobre a moça morta foi mais fundo nos afetos:

Sentada no sofá de casa e de cabeça baixa, a mãe da estudante, Maria do Carmo, de 43 anos, não se conformava. Uma poça de sangue marcava o local da tragédia. (....) Maria do Carmo contou que a filha era muito educada e, mesmo morando no morro, nunca pediu para sair dali, porque sabia da condição financeira da família. ´Durante os tiroteios, ela não saía de casa. Tinha medo de bala perdida.´ O namorado de Denilza, Rafael Rodriguez, andava de um lado para o outro fora da casa. Parecia não acreditar no que havia acontecido. ´A gente ia completar cinco anos de namoro na segunda-feira. Estudava na sala dela num colégio municipal aqui perto. Eu a amava.´

Denilza não saía de casa durante os tiroteios. E tiroteios lá são freqüentes.

Mas o Morro da Providência já foi bem diferente. Um dos personagens do projeto Um Balcão na Capital – Memórias do Comércio no Rio de Janeiro, feito pelo Museu da Pessoa em parceria com o Sesc-Rio, o chapeleiro Almir Romão Damásio, morou lá quando era menino. Nasceu na Ladeira do Barroso:

A Ladeira do Barroso é no Morro da Providência e ali eu vivi. Na época aquele bairro era muito bom, meu pai gostava dali porque ficava perto da loja, não precisava pegar transporte nem nada. Aquela favela que fizeram no morro, a favela do Cruzeiro, lá em cima, era uma favela onde eu entrava e saia. Hoje eu não subo nem a ladeira, mas naquela época eu entrava de um lado, saía de outro e não tinha perigo nenhum. Era uma favela pacífica, uma favela boa. Eu subia a Ladeira do Barroso toda, subia aquela escadinha que tinha lá. O meu irmão ia rezar missa naquela capela com o padre, ele era sacristão e ia muitas vezes naquela favela lá em cima. Eu não freqüentava muito lá em cima. Eu brincava ali no morro todo, entrava pelo um lado, saía pelo outro. Ia para a escola, ali do lado do túnel, descia por ali.

Clique aqui para ler o depoimento de Almir Romão Damásio.

Hoje no Rio as vistas se voltam para o chamado Complexo do Alemão e para o Complexo da Penha, onde fica a Vila Cruzeiro. “Complexo” quer dizer conjunto de favelas. Mas a atenção já esteve na Mangueira, na Rocinha, no Borel... Na época do assassinato de Denilza o Globo escreveu sobre a Providência:

Segunda favela mais importante da quadrilha que domina 70% das comunidades da cidade [referência criptografada ao Comando Vermelho], o Morro da Providência tornou-se uma espécie de bunker do tráfico, que enfrenta com violência toda tentativa de ocupação.

Certamente a Providência e todas as favelas precisam mais de outro tipo de “ocupação”. Seus habitantes precisam ser integrados à cidade, ou “ao asfalto”, como se dizia antigamente. Mas a imprensa não desgruda do discurso bélico.

Uma das razões é o desconhecimento da evolução urbana e socioeconômica da cidade, das cidades brasileiras. No caso do Rio vigora uma explicação que data do fim do século XIX o surgimento da primeira favela, ali mesmo no Morro da Providência.

A favela começou antes, muito antes. Começou como quilombo. Mas esse é assunto para outra conversa.

Hoje nossa atenção vai toda para a memória de Denilza Maria da Silva Nascimento, que tinha 21 anos, sonhava em se casar e cursava o ensino médio, com o objetivo de deixar o Morro da Providência, no Centro.

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Mauro Malin participou da fundação do Museu da Pessoa. É jornalista desde 1966. Formou-se em História em 1979. É supervisor editorial do Portal Museu da Pessoa.
   
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