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8.8.2007
EVOCAÇÕES DE TROMPETE
Uma passagem de trompete me traz a lembrança
de tardes passadas há mais de quarenta anos na Escola de
Música da Universidade do Brasil (hoje se diz da UFRJ), na
Rua do Passeio, deslumbrado com a personalidade e a arte do professor
Valdomiro Alves.
Não se trata de um disco de trompete,
mas de piano. Roberto Szidon, 100 Anos de Piano Brasileiro.
Como em tantas peças de piano, nessa, chamada Carlos
Gomes, escrita por Henrique Alves de Mesquita, há acompanhamento
de outro instrumento, o trompete. Segundo o folheto que vem com
o CD, o trecho de trompete é uma citação da
ópera O Guarani. Como eu nunca ouvi a ópera
propriamente dita, só a chamada Protofonia, essa que é
prefixo da Voz do Brasil e todo mundo conhece, não posso
dizer nada a respeito. “É uma polca”, disse-me
o maestro Adílson Rodrigues, meu amigo e vizinho, convidado
a dar seu parecer sobre o gênero musical que eu não
sabia classificar.
O trompete foi o segundo instrumento
de Henrique Alves de Mesquita, que era organista (a informação
é do Dicionário
Cravo Albim da Música Popular Brasileira).
O compositor morreu há 101 anos.
Meu inesquecível professor Valdomiro Alves – que terá,
quem sabe, acompanhado essa mesma peça – morreu jovem
há 40, talvez 41 anos, e isso fez com que o primeiro cemitério
em que pus os pés tenha sido o de Irajá. Alves morava
na Penha.
Ao ouvir novamente a polca Carlos
Gomes, lembrei-me de uma peça de Dvórak que meu
professor me ensinou a tocar para uma audição pública
anual da Cadeira de Clarins e Cornetins da Escola de Música.
Havia acompanhamento ao piano. Lembrei-me é modo de dizer,
porque me fugiram a melodia e o título. Não me fugiu
a lembrança das gargalhadas de minha irmã, Betty,
que era uma criança e achou muito engraçada a tremedeira
em minhas pernas diante da distinta platéia do auditório
Leopoldo Miguez, na Rua do Passeio. Tirei a lição
de minha timidez. E ficaram as boas recordações de
minhas tentativas musicais.
Eu gostaria de dar ao leitor o prazer
de ouvir um trecho dessa peça de Henrique Alves de Mesquita
em que soa o trompete, mas o que está disponível na
internet é um trecho inicial executado apenas ao piano: no
Yahoo Music, clique
para ouvir 30 segundos de Carlos Gomes, por Roberto Szidon.
Há traços de ligação entre as biografias
de Henrique Alves de Mesquita e de Valdomiro Alves. Ambos foram
Medalha de Ouro da Escola Nacional de Música. Distinção
que é ou era atribuída ao aluno que tira a nota máxima
em todas as disciplinas do curso ao longo de todos os anos. Mesquita
conquistou-a como aluno de contraponto e órgão do
então Conservatório Nacional de Música (a República
mudou-lhe o nome para Instituto, depois Escola Nacional de Música).
Foi o primeiro a ganhar prêmio de viagem à Europa,
dado por Pedro II, diz Cravo Albim. Alves ganhou-a como aluno de
trompete, muitas décadas depois. Mesquita foi amigo do pai
de Pixinguinha, Alfredo Vianna. Alves foi amigo de Pixinguinha mesmo,
de quem me dizia ter visto tirar música dos pingos de uma
bica num sítio em Mangaratiba.
Jorge Ribeiro de Moura, personagem das
Memórias do Comércio na Cidade do Rio de Janeiro,
deixou a música para tocar a loja de artigos de pesca Mercadinho
do Papai. Ele é quase dois anos mais velho do que eu, mas
uma das recordações musicais que menciona foi minha
também: o extraordinário sucesso do trompetista Billy
Butterfield. Quem se lembra, por exemplo, de Beyond The Blue
Horizon nas festinhas dançantes da passagem da década
de 1950 para a de 1960?
O depoimento de Jorge ao Museu da Pessoa
é comovente. Vale a pena conferir aqui.
Recuemos cinqüenta anos desde a
popularidade de Billy Butterfield. Em 1908, Machado de Assis escreveu,
no Memorial de Aires, sob a data de 31 de agosto de 1888:
“A música sempre foi
uma das minhas inclinações, e, se não fosse
temer o poético e acaso o patético, diria que é
hoje uma das saudades. Se a tivesse aprendido, tocaria agora ou
comporia, quem sabe? Não me quis dar a ela, por causa do
ofício diplomático, e foi um erro. A diplomacia que
exerci em minha vida era antes função decorativa que
outra cousa: não fiz tratados de comércio nem de limites,
não celebrei alianças de guerra; podia acomodar-me
às melodias de sala ou de gabinete. Agora vivo do que ouço
aos outros”.
Nós, diferentemente de Machado
e de seu personagem Aires, temos toda a indústria do som
para nos servir. Sozinho em casa, Aires não tinha como ouvir
música.
Confio em que Jorge Ribeiro de
Moura não aposentou seu trompete. Terá deixado de
ser músico profissional – ao contrário de mim,
as tremedeiras não lhe barraram o
caminho –, mas não terá deixado de tocar e de
se fazer ouvir.
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