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16.8.2007
SOPHIE SARCINELLI, VALDENSE
Durante os próximos três
meses, meninos de rua do Projeto Axé, em Salvador, serão
objeto de uma pesquisa etnográfica a cargo de Sophie Sarcinelli,
jovem italiana formada em Antropologia na Universidade de Bolonha
que agora faz mestrado na École des Hautes Études
en Sciences Sociales, de Paris.
Sophie foi colega de Paulo Fávero
Gomes e Silva, filho de minha mulher, Lúcia Fávero,
na Red
Cross Nordic United World College. Paulo estuda na Escola de
Comunicação e Artes da USP.
Ontem, nós três e a namorada
de Paulo, Raiana Ribeiro, aluna de Jornalismo da PUC e de Letras
da USP, almoçamos juntos e conversamos. Sophie fala português.
Em 2005, passou seis meses fazendo intercâmbio na Universidade
Federal de Minas Gerais, em Belo Horizonte.
Sophie (ou Alice Sophie Nicoletta Sarcinelli)
reclamou do deficiente ensino de história contemporânea
na Itália: “A disciplina começava na Revolução
Francesa e terminava na Primeira Guerra Mundial!”. Ela aprendeu
mais ouvindo histórias de família. E que histórias.
A mãe de Sophie é filha
de uma família de valdenses. Hoje uma corrente protestante,
o valdismo é a continuação dos princípios
de Pietro Valdo, ou Pierre Valdès, ou Pierre de Vaux. Era
um rico de Lyon, França, que em 1173 decidiu vender seus
bens, pôr mulher e filhas num monastério e iniciar
uma pregação que não muito tempo depois seria
considerada herética pela Igreja Católica. Há
informações menos sumárias no verbete Valdismo
da Wikipedia em italiano.
Os valdenses acabaram se refugiando nas
montanhas do Piemonte, perto da França e da Suíça.
No Google
Maps é possível localizar Torre Pellice, centro
dessa região de refúgio. (Clique na opção
“híbrido” para ver o mapa aplicado sobre uma
fotografia aérea. Diminua a ampliação para
ter uma idéia da região. Se quiser ver a relação
geográfica de Lyon com essa parte do Piemonte – a cidade
visível é Pinerolo –, use a opção
“Como chegar”, em seguida “Para cá”,
e digite Lyon na caixa de diálogo.)
Neste
vídeo, Sophie (vista na foto abaixo) mostra para Paulo e Raiana
a localização dos Valli Valdesi, os Vales Valdenses.
Os pais de Sophie, Doris Valente e Franco
Sarcinelli, se conheceram dando aula numa mesma escola em Milão.
Sophie tem um irmão, Alessandro, de 19 anos, que terminou
o primeiro ano de uma faculdade de Agronomia. Ela só entendeu
certas coisas – coisas importantes – da história
da Itália ouvindo relatos da história de sua família,
como explica neste
áudio, em que conta também um episódio
da Resistência aos nazistas protagonizado por parentes seus.
Sophie falou um pouco, também,
sobre o valdismo. Clique
aqui para ouvir.
Se um relato que atravessa séculos
impressiona, não lhe fica atrás a história
dos avós paternos de Sophie, os pais de Franco. Nicola Sarcinelli,
nascido em Minervino Murge, Puglia (essa pequena cidade também
está no Google Maps), era da Marinha de Guerra italiana.
Maria Coco era filha de um homem que emigrou menino para Nova Iork
e, doente, não se adaptou e acabou em Trípoli, capital
da Líbia, então colônia italiana.
Nicola e Maria se conheceram numa praia
de Trípoli, de onde Maria e família saíram
no último avião antes da tomada da cidade pelos ingleses,
no início dos anos 1940.
Nicola foi preso pelos nazistas e encarcerado
num fim-de-mundo da Calábria, de onde fugiu porque sabia
falar o dialeto local, que os alemães ignoravam. Ele combinou
com duas mulheres que se engalfinhassem numa fingida briga, em meio
a muitas outras, na praça onde os prisioneiros tinham direito
de tomar sol e beber água. Outra mulher lhe deu uma roupa
civil. E uma quarta, que tinha vindo com uma criança no colo,
saiu de braço dado com ele, que carregava a criança.
Nicola devolveu a criança para a mulher e fugiu de aldeia
em aldeia, sempre ajudado por camponeses solidários.
São histórias como essa,
e muitas outras, que Sophie e seu pai querem colocar em livro, talvez
em filme.
Para os brasileiros, o caso não
termina aí. Doris Valente é correligionária
de Teresa Isenburg, mulher de José Luiz Del Roio, um brasileiro que
recentemente virou senador na Itália. Del Roio, bem conhecido
em círculos de esquerda de São Paulo, fundou em Milão,
com Maurício Martins de Melo, o Archivio Storicho del Movimento
Operario Brasiliano, onde foram guardados durante a ditadura brasileira
documentos importantes. Hoje o Arquivo Histórico do Movimento
Operário Brasileiro foi incorporado ao acervo da Unicamp.
O agora senador é autor de uma
biografia do deputado federal petista Ricardo Zarattini (Zarattini,
a paixão revolucionária, lançado em 2006).
É, portanto, contador de histórias. Quem sabe conte
algumas para o Museu da Pessoa.
P.S: Sophie me mostrou árvores genealógicas da família de sua mãe,
Doris Valente. Com elas montamos uma página que pode ser vista clicando-se
aqui.
Envie seu comentário: portal@museudapessoa.net
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