No começo era a palavra. Falada. E por milênios o homem se comunicou e transmitiu conhecimento sem escrita. Daí, dizem estudiosos, uma concepção circular do tempo: a repetição era indispensável para memorizar.
Uma parte substantiva da cultura humana foi criada e conservada assim. A oralidade é o método entre povos ágrafos e nos teatros do mundo todo, embora nesse segundo caso o ponto de partida sejam peças escritas. Permanece vivíssima nos contatos imediatos (ou remotos, por telefone, rádio e televisão). É a matéria-prima deste Museu da Pessoa.
Numa biblioteca municipal do Tatuapé, bairro paulistano da Zona Leste, Deise Maria Tebaldi Pedro promove a fusão dessas duas modalidades, palavra falada e palavra escrita. Ela é a diretora da Biblioteca Cassiano Ricardo. Cuida de livros impressos. Mas é, por paixão, uma contadora de histórias. Começou numa igreja, há 29 anos. Casamento, filhos, trabalho provocaram um hiato encerrado no ano 2000, quando voltou a contar histórias. Mais precisamente, contos de fadas. “Contar histórias é um caminho para levar as crianças à sala de leitura. Às vezes a criança pede o livro onde está o conto de fadas que ouviu”, diz.
Neste vídeo, Deise conta a primeira parte de um conto dos Irmãos Grimm, Os três fios de cabelo de ouro do diabo.
Primeira parte é modo de dizer, conveniência para colocar a narração na internet. Diante das crianças, Deise vai do início ao fim, 15 minutos, num fôlego só. Aqui, fizemos uma parte em vídeo, para mostrar a gesticulação, pouco menos de quatro minutos, e uma segunda parte em áudio de doze minutos e meio.
Ouça a segunda parte da história:
A Cassiano Ricardo fica na Praça José Moreno. O endereço é Avenida Celso Garcia, 4.200. Do lado oposto da praça fica outra biblioteca da Prefeitura, a Hans Christian Andersen. Como a Cassiano Ricardo, ela é dita “temática”. Seu tema é contos de fadas. O tema da Cassiano Ricardo é música.
Deise ia dirigir a de contos de fada, mas foi preciso substituir a diretora da outra biblioteca, e lá se foi a contadora de histórias. Sem abrir mão de contar histórias.
Isso Deise fará, com muitas outras pessoas, no 3º Festival da Arte de Contar Histórias, que a Secretaria da Cultura promoverá entre 16 e 28 de outubro em três ou quatro bibliotecas de cada uma das regiões da cidade: Norte, Sul, Oeste, Centro, Leste 1 e Leste 2 – a Zona Leste é grande demais para caber numa só região –, e nos Bosques de Leitura, localizados em parques: Ibirapuera, Piqueri, Carmo e Luz.
O conto Os três fios de cabelo de ouro do diabo está longe de ser “politicamente correta”. O herói, ouvimos, transforma-se num rapaz “alto, bonito, trabalhador, esforçado”: os Irmãos Grimm publicaram seus contos na primeira metade do século XIX. Mas o valor formativo dos contos não se perde por isso. É o que Deise afirma neste áudio.
Ouça aqui:
No cerne da história, abaixo das camadas estéticas, interpretativas e valorativas, existe a inteligência do conto. Uma espécie de jogo em que a diabrura está nas surpresas com que se depara o ouvinte. E o final do conto, para repetir um lugar-comum, é genial.
Mauro Malin participou da
fundação do Museu da Pessoa. É jornalista desde
1966. Formou-se em História em 1979. É supervisor editorial do Portal Museu da Pessoa.
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