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5.9.2007
ARTISTAS E CONSCIÊNCIA POLÍTICA
NA DITADURA
Roberto de Oliveira produziu três DVDs
com os quais foi rememorado, no início do ano, o 25º aniversário
da morte de Elis Regina. Um deles se chama Falso Brilhante e tem
um trecho de gravação do início do espetáculo de mesmo nome. Antecedido
por uma entrevista de Elis Regina à TV Bandeirantes em que ela diz:
"Vocês vão perceber o tipo de entrosamento que há entre o palco
e a platéia".
Assista ao trecho retirado do site de vídeos YouTube:
Fiz uma leitura “heróica”
do episódio.
Depois da exibição de
cenas do espetáculo e do elenco em confraternização,
com o comentário de Elis ouvido em “off”, uma guitarra
à la Jimmy Hendrix executa os acordes iniciais da chamada
Protofonia da ópera O Guarani, que era então,
como é até hoje, com outro arranjo, a abertura do noticiário
oficial Voz do Brasil. A
iluminação cresce e permite ver uma gigantesca borboleta de lantejoulas
coloridas. Percebe-se em seguida que o adereço está preso ao pescoço
de Elis. Ela segura um microfone e canta uma música cujo título
não consegui localizar e cujos versos, não sei se sarcásticos ou
parnasianamente crédulos, dizem:
"Já fui pobre, já fui jornaleiro/
Hoje tenho o meu casal ["pequena propriedade rústica; granja",
explica o Aurélio]/ Rude lida enfrentando altaneiro/ Conquistei
meu ideal/ Graças, graças ao Cruzeiro/ Do trabalho o bom fanal/
Hoje vivo ledo e altivo/ Nesta terra abençoada [gorjeios]/
Nesta pátria [gorjeios]/ Minha amada/ Nédio gado, revolto
cavalo/ Oh regalo, sou feliz/ Trá-lá-lá-lá-lá-lá-lá/ No conforto
da paz/ A família feliz/ Alegria que abraça e [ininteligível]
/ Doce paz/ [ininteligível] / Como é bom viver assim/ A
cantar [gorjeios]/ Sou feliz!"
Essa passagem grotesca e claramente
rebelde diante da ditadura então vigente é recebida
pelo público em compenetrado silêncio, salvo quando
Elis emite os últimos, exagerados e prolongados floreios
vocais (antes do segundo “Sou feliz!”). Ouvem-se aí
risadas.
Em seguida ela faz uma careta sardônica
de riso e entoa o trecho mais conhecido de O Guarani: “Do
sol aos raios fúlgidos/ Ao céu de puro anil/ Erguendo
o vulto atlético/ Num gesto varonil/ Da América do
Sul/ O filho mais gentil/ Aqui se ostenta intrépido/ O colossal
Brasil”.
Em seguida lhe retiram o manto com a espantosa borboleta de paetês
e ela, vestida de bailarina, canta um repertório completamente
popular, desde o tango Uno até o samba-exaltação
Canta Brasil, quando já está vestida de Carmen
Miranda, passando por outro samba-exaltação, Olhos
Verdes (“E nos seus requebros e maneiras/ A graça toda
das palmeiras/ Esguias e altaneiras a balançar”;
sempre o brasileiro medido pela critério da natureza exuberante;
“Vivo num país tropical/ Abençoado por Deus/
E bonito por natureza”, persistirá Jorge Ben décadas
depois).
E a platéia, ao que tudo indica,
entende a mensagem. Não se trata de puro deboche, molecagem
(como se veria na década de 1980 no pouco relevante “besteirol”).
Trata-se de um desafio à censura. O público participa
conscientemente da afronta ao regime.
No início de junho comentei esse
sentimento com Aquiles Reis, do MPB-4, após pedir-lhe explicações
sobre o som de respiração forte que se ouve no início
de Cálice, cantada por Chico Buarque, Milton Nascimento
e o MPB-4 (ver “Som
de respiração rege MPB-4 em Cálice”).
"Alguns iam no vácuo de outros, o que
não os desmerece", avaliou. "Era um momento muito difícil, muito
complicado, e cada um tinha um tipo de percepção. Uns achavam que
era uma coisa musical, simplesmente. Outros tinham uma percepção
mais ampla, de que a parte artística, inclusive, estava sendo relegada
a segundo plano em função daquele engajamento momentâneo".
O próprio Chico Buarque teria
assumido – bravamente – uma responsabilidade que lhe
foi jogada nos ombros, que ele não havia buscado por convicção
ideológica ou política.
Ouça a fala de Aquiles Reis:
Elis Regina não tinha a consciência
política que parecia ter. Seguia algo instintivamente o exemplo
de Chico, de Caetano e Gil. No livro Furacão Elis, de Regina
Echeverria, Ronaldo Bôscoli diz que a ruptura do casal se deveu,
entre outras coisas, ao fato de que ele conhecia muito de perto
as lacunas da formação intelectual de Elis. Ao mesmo tempo, Bôscoli
dá testemunho da extraordinária inteligência da cantora.
Os artistas também eram conduzidos
pelo público, rememora Aquiles Reis. Em meio a uma apresentação
criava-se algum tipo de elo intangível entre platéia
e palco e o resultado freqüentemente ia muito além do
que o artista havia concebido originalmente.
Isso continua a existir com grande freqüência,
é claro, mas sem o componente da ameaça, ou da certeza,
da repressão política, salvo quando se trata de embates
com a “lei e a ordem” em favelas e nas periferias urbanas.
Nesse caso, a ameaça está presente, os conflitos se
multiplicam.
A substância indestrutível
do que ficou é a grande arte de Elis Regina. Ela aparece
aqui no deslumbramento com que Aquiles Reis fala de um DVD gravado
nas semanas que antecederam a segunda separação de
Elis Regina, o fim de seu casamento com César Camargo Mariano
(“Elis Regina Carvalho Costa”).
O jogo da memória adquire uma
dimensão surpreendente: “Eu vivi aquilo. E quando você
vê depois é como se você não tivesse vivido.
Como se eu estivesse pegando para ver uma coisa que não faz
parte da minha história. E faz”, disse Aquiles.
E como faz: a primeira aparição
do MPB-4 na televisão foi no programa de Elis Regina, O Fino
da Bossa, em 1965.
Ouça aqui:
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